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Da Censura ao humor e o photoshop da vida real
27/08/2010 as 18:44 h  Autor administrador  Imprimir Imprimir
SE OS HUMORISTAS CHAMASSEM JOSÉ SERRA de “Zé” e o infiltrassem com aquele sorriso congelado no meio de uma favela cenográfica e tosca, seriam acusados de ridicularizar o tucano. Mas, como a cena insólita aconteceu no programa do PSDB, ninguém processou o marqueteiro. Se o CQC e o Casseta & planeta exibissem o cão de José Dirceu como melhor amigo de Dilma Rousseff, poderiam ser multados por tentar associá-la ao ex-chefe do Mensalão, como se a petista fosse herdeira não só do labrador Nego, mas de um período sinistro do PT. Após a estreia do ridículo horário eleitoral, deu para entender por que o humor político foi amordaçado.

Após a estreia dos programas eleitorais, entre eles a abertura do "Discovery Marina Channel", com a candidata verde estrelando uma peça futurista de efeitos especiais, finalmente deu para entender por que o humor político e sério foi amordaçado nesta eleição. Porque colocaria o dedo na ferida. Os programas dos candidatos são tão ficticios que a realidade sumiu. Tudo fico de repente bom, reconfortante, para quem acredita nos seriados e nas novelas.

"O Brasil é um pais exótico mesmo. Os políticos azem humor e os humoristas fazem passeata", diz Marcelo Tas, do CQC, um dos atingidos por esse entulho da ditadura do Tribunal Superior Eleitoral - que interpreta a sátira política como ameaça à democracia. "Olha só': afirma Tas com ironia, "estamos esperneando, mas nosso plano é absolutamente estúpido: uma passeata de protesto neste domingo em Copacabana!"

Tas, Marcelo Madureira e Helio de Ia Peña foram procurados pela CNN e pela BBC de Londres. "Os cidadãos dessas democracias têm muita dificuldade de entender", diz Tas. "Um político que tem medo do ridículo não pode ser candidato a presidente. O humor humaniza o candidato, o aproxima do eleitor. Nós apostamos no erro, na casca de banana, no nariz torto. Quando se tira o erro, apaga-se o humano. Nossos candidatos se escondem deles mesmos." Políticos como Barack Obama e Nicolas Sarkozy muitas vezes se beneficiaram das caricaturas inteligentes e ácidas do humoristas - volta e meia, subiam nas pesquisas logo após a transmissão dos programas.

Assistimos à campanha mais "photoshopada" e engessada da história brasileira. Tudo tem de ficar bonito, sorridente, raso, sem erro. O país está anestesiado, entorpecido. Não é só o humor que está em xeque, sob censura. Quem faz o papel de palhaço somos nós, os eleitores.

A rigidez dos cronômetros e a ditadura dos marqueteiros transformam esta eleição numa das mais chatas, melosas e apelativas de todos os tempos. Serra, aliás Zé, toca comovido as pessoas, acaricia uma mulher que chora e mostra fotos suas ao lado de Lula. Dilma, a criatura, desfila de roupa de ginástica, lembra os anos do cárcere, mas não a luta armada, conta que um dia rasgou dinheiro para dar esmola a um menino e enaltece a maternidade. Marina diz uma verdade: querem infantilizar os brasileiros com essa história de pai e mãe. Somos vítimas de uma grande pegadinha, do Oiapoque ao Chuí.

Fora da tela, a vida real teima em existir. Algumas imagens de nosso abismo social estão na série do jornal O Globo "Como vive o brasileiro': Trinta e sete milhões de brasileiros, toda semana, ficam sem dinheiro da passagem para voltar para casa após o trabalho e são obrigados a buscar abrigo nas ruas. Dormem até na calçada de hospitais. O déficit de habitação no pais é de 5,8 milhões de lares. Quando a moradia é de zinco, tábuas velhas e pedaços de papelão, se sentem privilegiados. Comunidades vivem sobre lixões, correndo risco de morrer. Mais da metade das cidades não dá destino adequado ao lixo. Sete milhões de municípios não oferecem sequer coleta de lixo. Quase metade das casas no Brasil não tem coleta de esgoto. Treze milhões de brasileiros vivem sem banheiro e convivem com ratos em casa e bichos mortos nos canais. Analfabetos funcionais chegam a 30% da população. Jovens não conseguem emprego.

Não se esqueça, o horário só é gratuito para os candidatos - você, contribuinte, é quem paga. Pode exigir, em contrapartida, um pouco mais de compromisso com a realidade. E que deixem o humor para quem sabe fazer.

Ruth de Aquino é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro.
raquino@edglobo.com.br

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