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O que os psicopatas têm a nos ensinar
15/05/2015 as 18:53 h  Autor Philipe Gomes Vieira  Imprimir Imprimir
Recentemente, me deparei com uma chamada, no mínimo instigante, para uma matéria publicada por uma revista nacional, amplamente conhecida no mundo business. Uma afirmação categórica deixava claro que seria possível aprender muito com os psicopatas, o que, em um segundo momento, poderia ser aplicado no contexto do trabalho com o intuito de se obter sucesso. Abismado, resolvi abrir o link que dava acesso ao conteúdo da matéria, que para minha surpresa, sugeria que os psicopatas possuem atributos emocionais e comportamentais que os tornam mais competentes que a maioria das pessoas da população geral. Com essa leitura, poder-se-ia concluir que comportamentos e/ou expressões emocionais atreladas à psicopatia, como a crueldade, a frieza, o destemor, o charme superficial, a indiferença, o “viver o momento” (leia-se, a impulsividade), devem ser tomados como exemplos a serem seguidos, quando se tem como meta a ascensão profissional.
 
Essa sugestão (ou estímulo ao desenvolvimento?!), permite se questionar o que, de fato, as organizações de trabalho esperam de seus líderes e colaboradores. Como essa não é minha área de expertise, proponho outra reflexão que, em alguma medida, possibilitará concluir se buscar o desenvolvimento dessas características traria algum benefício para convívio em grupo, conforme alude a outra matéria. O que é a psicopatia? Quais suas principais características? Como elas afetam o bem estar coletivo?
 
Tradicionalmente, a psicopatia tem sido abordada como sinônimo de sociopatia ou, ainda, como equivalente ao Transtorno da Personalidade Antissocial (TPAS), quadro nosográfico proposto pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM. Na verdade, os critérios diagnósticos propostos pelo referido manual abarcam um padrão de violação e desrespeito dos direitos dos outros, bem como de normas sociais. A literatura contemporânea, por outro lado, defende que a psicopatia seria uma condição ainda mais severa que o TPAS, uma vez que as diretrizes diagnósticas para esse último não levem em conta aspectos subjacentes às manifestações comportamentais evidenciadas nesse transtorno, como perturbações de ordem emocional e interpessoal, presentes na psicopatia, o que, por conseguinte, tornam-na um construto psicológico substancialmente mais complexo.
 
Em suma, ambas as condições, TPAS e psicopatia, revelam dificuldades acentuadas em ajustar-se às normas sociais; tendência à falsidade e manipulação a fim de obter algum benefício próprio; impulsividade e inabilidade para planejar o futuro; agressividade exacerbada, evidenciando propensão às manifestações mais primitivas da personalidade; engajamento em comportamentos de risco, os quais podem causar danos a si e a outrem; irresponsabilidade e negligência em diversos contextos; bem como ausência de remorso ilustrada por meio da racionalização após a passagem ao ato. Muitos psicopatas, por exemplo, justificam seus comportamentos socialmente inadequados atribuindo a culpa à própria vítima (“Eu roubei o carro de ‘fulano’ por que ele mereceu! Ele que deixou a chave na ignição. Praticamente estava pedindo pra ser roubado”; “Não forcei aquela mulher a transar comigo. Pela roupa que ela vestia, tenho certeza que estava mesmo querendo isso”).
 
Com base nesse breve panorama do que é a psicopatia, bem como na compreensão de algumas de suas principais características, poder-se-ia afirmar, também de maneira categórica, que não, os psicopatas não têm absolutamente nada a nos ensinar! As características principais da psicopatia são o narcisismo patológico e a ausência de empatia, que os tornam frios e insensíveis aos sofrimentos alheios. Tais características desse transtorno de personalidade, associadas à inabilidade de sentir culpa ou remorso, revelam propensão a causar danos catastróficos, por vezes, irreparáveis. Desse modo, reitero: NÃO! OS PSICOPATAS NÃO TÊM ABSOLUTAMENTE NADA A NOS ENSINAR!



Philipe Gomes Vieira
. Psicólogo clínico, doutorando e mestre em Avaliação Psicológica, professor da especialização em Avaliação Psicológica do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG), www.ipog.edu.br

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