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Coisas do tempo
02/10/2013 as 15:09 h  Autor Petrônio Souza Gon&ccedi  Imprimir Imprimir
A tradição vem do conhecimento traduzido, de lábios a ouvidos, além do tempo... Seu início e fim se fundem em si mesmos e a cada dia são reinventados, revelando o doce gosto das coisas que o tempo não leva mais. Assim é esta historinha, que nasceu, um dia, cresceu e floriu em outros, dando frutos e alimentando a alma humana pelos vários cantos do mundo.

Como já foi dito, na pequena floresta ao pé da serra, três diferentes árvores conversavam sobre o mundo de bichos e homens que se descortinava aos seus pés. Uma árvore, que mais se balançava com o vento, resolveu indagar às outras quando o sol já queria se esconder por detrás da paisagem: “O que vocês vão querer se tornar quando um lenhador vier cortá-las?” A primeira árvore, vaidosa com seu tronco frondoso e seus galhos robustos, respondeu: “Ah, eu vou querer me transformar em um grande trono. Um trono em que se sentarão reis e rainhas por várias gerações... eu quero ser lembrada como o maior trono do mundo...”. A segunda, de galhos maiores e tronco menor, emendou: “Ah, eu vou querer ser uma grande embarcação, navio de muitas velas, para levar reis e rainhas pelos oceanos do mundo, enfrentado os mares e as marés ao redor da Terra”. A terceira árvore, um pouco mais franzina, disse apenas que “queria estar nas casas das pessoas, como um objeto de beleza, de admiração, de orgulho dos homens”.

Bom, o tempo foi passando até que um lenhador, ao ver as três árvores enfileiradas, lado a lado, se pôs a cortá-las, indo uma a uma ao chão. Pouco tempo depois, a primeira árvore que queria se tornar um trono de reis, transformou-se em cocho para animais, e foi colocada em um curral, em que bois, carneiros e cavalos vinham todos os dias comer sua dose diária de alimentos. A segunda, que queria se tornar uma grande embarcação, se tornou pequeno barco de pesca, carregando peixes e gente comum debaixo de chuva e sol ardente. Passava as noites na praia, servindo de abrigo para animas da rua. A terceira árvore, que queria entrar na casa das pessoas, foi cortada e se transformou em madeira e ficou esquecida em um canto qualquer.

O tempo foi passando, passando, as árvores vivendo sua sorte, até que um dia, naquela que havia se transformado em um pobre cocho de animais, nasceu um menino, um menino pequenino, que muitos homens vieram de longe para adorá-lo. Os animais também ficaram por horas admirando aquele pequenino que tinha paz de lua nos olhos. E ele nem chorava, apenas seus olhinhos admiravam os bichos que se juntavam à sua volta. Poucos anos depois, a árvore que se transformou em um barco de pesca, levou pelos mares da vida um pescador que com suas redes pescava gente, e um homem cabisbaixo, de olhar triste, que trazia o nascer do sol em seus cabelos. Foi enfrentando a mais densa tempestade na noite escura da alma humana que o barquinho viu o mar se acalmar quando o homem triste apenas ergueu o braço e olhou para o céu. A última árvore, que queria entrar nas casas das pessoas como objeto de admiração, se transformou em uma cruz e nela foi pregado o homem triste, de andar cabisbaixo, que tinha os olhos de lua...

Assim são as histórias, assim é o tempo que nos diz, de hora em hora, que nada está terminado e que o dia que nasceu nublado pode terminar ensolarado. E vão as histórias da vida contando o que não aconteceu, sempre recebendo o verso e o sentido que não se escreveu. O universo é do que não foi pensado e viver é mesmo um reinventar diário... e os nossos sonhos a única coisa que o tempo não pode levar.  
 
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor – petroniosouzagoncalves@gmail.com

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