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SANTA MARIA: UMA LIÇÃO PARA NOSSOS GESTORES E PARA O BRASIL
15/02/2013 as 17:54 h  Autor Alexandre Freire  Imprimir Imprimir
Em 24 de novembro de 2001, a casa de shows Canecão Mineiro, que não tinha alvará para funcionar, incendiou depois de uma irresponsável e criminosa queima de fogos no palco. Sete pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas.

Onze anos depois, dia 27 de janeiro de 2012, um incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, deixou 237 mortos e vários feridos. O fogo teve início durante a apresentação de uma banda que fez uso de artefatos pirotécnicos no palco.

O que estas tragédias têm em comum?  Duas coisas: Estética e certeza da impunidade.  Estética porque em ambos os casos, extintor de incêndio, portas de emergência e sinalização não combinam com design de interiores. Já a certeza da impunidade fez com que uma delas estivesse funcionando sem alvará e a outra com alvará vencido.

Um grande arquiteto de Brasília, professor Luiz Marcio Penha, postou um comentário que vale uma reflexão: “O acontecimento em Santa Maria mostra o previsível, quando não se age com responsabilidade. É um triste exemplo do que a arquitetura irresponsável, órgãos irresponsáveis, estado irresponsável é capaz de proporcionar. Serve como exemplo aos arquitetos, e em específico, aos meus alunos que às vezes não entendem quando cobro a responsabilidade dos elementos técnicos da ABNT 9077 (saídas de emergência). Prossegue o professor dizendo: Acham chato e muito técnico. Arquitetura não pode ser somente para os olhos, é também para o corpo e traz implicações”.

Algumas tragédias são fatalidades. Outras são simplesmente frutos de nossa irresponsabilidade.  Lideres e gestores, sejam do setor publico ou privado, devem aprender de uma vez por todas que segurança é parte integrante de um bom planejamento.  A estética não pode continuar a ofuscar a importância das regras e normas estabelecidas e o lucro não pode mais ser construído à custa de vidas humanas.

Nos últimos anos, os proprietários da boate Kiss investiram pesado. Fizeram um bar novo, reformas nos palcos, construíram um novo camarim, uma bilheteria, um mezanino e alguns camarotes. Mas na hora do revestimento, colocaram espuma barata. O cianeto, gás que matou tantos jovens naquela madrugada, foi o mesmo utilizado nos campos de extermínio durante a segunda grande guerra.

Porem, poucos dias depois da tragédia de Santa Maria, outro incidente, apesar de menor proporção, chamou a atenção de todos os brasileiros novamente. No estádio do Grêmio de Porto Alegre, após o gol do time da casa, oito torcedores se feriram. Destes, sete foram encaminhados ao hospital. Razão: a comemoração da torcida, denominada Avalanche, fez ceder a grade no setor em que estavam. A pergunta que fica: O projeto da grade foi feito para ficar esteticamente mais bonito e ignorou a questão de segurança?

Quantas vidas ainda deverão ser sacrificadas para que lideres e gestores cumpram as regras e leis que já foram colocadas no papel há anos?  

Em 2003, na cidade de West Warwick, estado de Rhode Island, EUA, 100 pessoas morreram num incêndio da boate Station. Os proprietários foram sentenciados a 15 ano de prisão e, até 2010, já haviam desembolsado R$ 355 milhões de reais com as indenizações. Além disso tiveram que doar o terreno da boate para construção de um memorial.
 
A irresponsabilidade e a impunidade parecem custar mais caro nos EUA do que no BRASIL.

Voltemos agora no tempo. Durante a construção do Titanic, foram utilizadas algumas das mais avançadas tecnologias disponíveis da época, tendo como resultado um dos maiores e mais luxuosos navios a operar.  Com 2.240 pessoas a bordo, o naufrágio resultou na morte de 1.523 pessoas, hierarquizando-o como uma das piores catástrofes marítimas de todos os tempos.  Não havia botes o suficiente para salvar a todos. A justificativa dada, posteriormente, foi de que a estética ficaria prejudicada com muitos botes no navio – Afinal, o Titanic era inafundável!

Os britânicos aprenderam com o Titanic.  Está na hora de nós brasileiros aprendermos com Santa Maria e outras lições de um passado recente.

Alexandre Freire. Consultor Sênior do Instituto MVC em Liderança e Planejamento Estratégico, Professor dos MBAs Executivos da FGV

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