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Que país estamos construindo?
22/09/2011 as 20:56 h  Autor waldemar rossi  Imprimir Imprimir
O que se pode esperar dessas gerações jovens que freqüentam as escolas no país? Uma vez formados, estarão aptos a exercer as profissões escolhidas e colaborar para a construção de um país autônomo, com tecnologia própria, além de justo? Ou serão apenas mão-de-obra a serviço do capital explorador? Terão competência para repetir com sucesso o desempenho de milhares de engenheiros civis, mecânicos, eletrônicos das gerações formados no Brasil antes da ditadura militar? Terão competência para entrar no ramo da ciência de pesquisa, especialmente no ramo da medicina e da farmácia, por exemplo? Ou aceitarão ser mão-de-obra barata e em disponibilidade, sem capacidade criativa, meros executores de movimentos mecânicos pré-determinados?

Indústria parou de crescer há três anos”; “PIB e emprego apontam desaceleração”; “País não atinge meta de emprego, diz Ministro do Trabalho”. Estas e outras manchetes dominam a área econômica dos principais jornais do país.

Em termos da produção industrial, continuaremos a depender dos humores do capital de outros países, que hoje investe aqui e amanhã muda de endereço? Capital que, depois de alguns anos de super exploração, deixa os trabalhadores na rua da amargura do desemprego, dos trabalhos precários, submetidos a condições precárias de moradia e de transporte nas grandes cidades e outras amarguras, como vem acontecendo? Por que os nossos governantes não pensam em incentivo à produção nacional, contrapondo-se à política de importação que oscila de um mês para outro e contribui diretamente para o aumento do desemprego, da rotatividade da mão-de-obra e do achatamento salarial?

Tal incentivo não seria uma política revolucionária, mas capitalista. A diferença é que geraria emprego permanente e renda mensal para seus trabalhadores, que assim não precisariam das “bolsas” compensatórias.

“Cana brasileira já não é a mais barata”, esta é uma das mais recentes constatações da política brasileira de exportação das chamadas commodities. Será que os brasileiros continuarão assistindo passivamente ao modelo de economia voltado para a exportação de produtos primários (extração mineral, produção agrícola, incluindo ultimamente a cana para o álcool combustível), enquanto milhões clamam por um pedaço de terra, onde possam plantar os alimentos necessários ao nosso povo faminto?

A dívida pública do Brasil já ultrapassou a cifra dos 2 TRILHÕES de reais. E continuamos a pagar altíssimos juros sobre os juros, sem reduzir a maldita dívida. Ao contrário, a cada ano mais dinheiro é subtraído do nosso orçamento e canalizado para os banqueiros “credores”. Mas, como de costume, esse dinheiro não sai dos projetos de obras faraônicas (que só interessam às grandes empreiteiras), é retirado das áreas sociais (saúde, educação, saneamento, reforma agrária, moradias populares...) que serviriam à melhoria da vida do povo.

E, ainda por cima, somos obrigados a engolir que os governos (federal, estaduais e municipais) estão colocando rios do nosso sagrado dinheirinho para financiar a construção de estádios de futebol Brasil afora. Pior é saber que tais obras resultarão em despejo de milhares de famílias que moram há anos nas imediações desses elefantes brancos e que não terão nenhum amparo governamental. São crimes e mais crimes contra o povo desprotegido!

Nossos dirigentes políticos não estão enxergando (ou não querem enxergar?) que o sistema (industrial e financeiro) está em crises sucessivas nos seus países de origem e que essa gangorra econômica afeta ainda mais os países dependentes. Como podem dar continuidade a essa trilha que nos levará, cada vez mais, para a condição de país colonial, sem projeto próprio, lambendo botas da economia espoliadora? Não percebem que isto é o suicídio nacional?

Parece que esses nossos dirigentes não dão a mínima atenção para a história recente de países europeus que mergulham em profunda crise e já beiram à inadimplência total, como o caso da Grécia (que já admite o calote em sua dívida junto aos demais países europeus). Nem mesmo estão atentos para o engodo que tomou conta da Espanha, quando decidiu engolir a pílula do sistema vigente e mergulhou na aventura que, em pouco mais de 40 anos, coloca-a na crista da crise européia, superada apenas pela Grécia. Mas aí vem a charmosa Itália trilhando o mesmo caminho, além da Irlanda. E o que não falar do nosso colonizador, o glorioso Portugal, que está com o pires na mão junto aos seus credores europeus?

Parece que nossos dirigentes não levam em conta tais acontecimentos e insistem em continuar com os incentivos ao modelo, com a política de superávit primário para pagar a agiotagem financeira, com a manutenção de um tipo de juros que nos tornam, se não o maior, um dos maiores devedores do mundo.

Não é por menos que, com a pressão da dívida, grandes empresas vêm entrando no país, dominando totalmente nossa economia: dominam a economia industrial, o garimpo, a extração mineral, a exportação de madeiras; vão tornando-se donas de poderosas usinas do álcool, possuem expressivas áreas das terras (muitas através dos famigerados “laranjas”, para fugir a uma pseudo-limitação de posses). Estão presentes na rede bancária, nas empresas de serviço que foram privatizadas pelos governos tucanos, e que continuaram com o governo petista. Tudo isso em relação à dependência do exterior.

Há ainda a deterioração dos Três Poderes vigentes. Como nos revelam os meios de comunicação, a corrupção já ultrapassou todos os limites da tolerância. A violência se tornou o cartão de visita do país, onde vigora uma verdadeira guerra civil que elimina milhares de brasileiros a cada ano, sobretudo jovens pobres. E tudo isso permanece na impunidade porque o poder judiciário é conivente, enquanto que a polícia está recheada de esquadrões da morte, de assassinos cruéis e corruptos.

Que país querem construir?
Para onde estão levando o Brasil? E o povo vai continuar a assistir a todos esses crimes passivamente, esperando pela próxima partida de futebol do seu time preferido? Nada contra o esporte. Mas ele não pode ser um entorpecente.

Mas há sinais de esperanças. Professores desencadeiam movimentos de protestos em vários estados do país. A começar pelo Rio Grande do Norte, passando pelas Minas Gerais e entrando nas universidades públicas; trabalhadores dos vários setores da economia entram em greve exigindo melhores condições de trabalho e de salário; movimentos de contestação dos desvios do dinheiro públicos vão aos poucos se alastrando, denunciando o absurdo da corrupção; moradores da periferia, atingidos pelas obras superfaturadas, procuram se organizar para resistir às desocupações injustas e ilegais. O desfecho dessa mobilização é ainda imprevisto.

Mas não tenhamos dúvidas, começará a mudar a consciência de parcela importante do povo brasileiro. E isto poderá ser um acontecimento, enquanto que a Copa e as Olim“piadas” serão apenas eventos, passageiros.

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

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