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Como não combater o 1%
20/08/2014 as 14:27 h  Autor Kevin Carson  Imprimir Imprimir
Em um artigo que sem dúvida vai acelerar os corações mais “progressistas” (“The 1% May Be Richer Than You Think, Research Shows“, Bloomberg, 7 de agosto), Jeanna Smialek sugere que a riqueza do 1% mais rico da população é muito maior do que as estatísticas oficiais indicam — e que, como grande parte dessa riqueza é mantida em paraísos fiscais no exterior, os esforços do governo em reduzir a desigualdade através de impostos e de políticas assistenciais são frustrados.

Para ser equilibrada em sua reportagem, Smialek menciona a afirmação de Tyler Cowen de que as “pessoas se preocupam demais com o 1% mais rico” e de que não importa qual a riqueza de Bill Gates se “os pobres acabam em melhor situação nesse processo”.

Isso é uma completa e absoluta idiotice. Se a riqueza de Bill Gates advém do roubo das outras pessoas, então a desigualdade certamente importa. Todos acabam em situação pior do que aquela em que estariam — por definição — na mesma proporção da riqueza que Gates roubou delas.

É foi exatamente assim que Bill Gates conseguiu sua fortuna: pelo roubo dos consumidores. Sem os monopólios de copyrights e patentes sobre o Windows, ele teria que ganhar dinheiro da mesma forma que uma distribuição do Linux ganha, com suporte técnico e serviços de personalização para programas gratuitos. Sejamos generosos aqui e digamos que ele fosse ser capaz de acumular 10 milhões de dólares. É um montante cerca de 1/10.000 do tamanho máximo alcançado por sua fortuna, US$ 100 bilhões. Isso significa que somente um centésimo de um por cento da riqueza de Gates não é roubada.

Você pode achar que isso fortalece o argumento de Smialek em defesa de maior regulamentação e mais impostos progressivos sobre os ricos. Na verdade, ocorre o oposto. A única forma pela qual a justiça poderia ser servida seria com impostos de 99,99% sobre Gates, o que o deixaria com a quantia de dinheiro que ele conseguiu acumular honestamente. E o mesmo pode ser dito de qualquer fortuna que chegue à casa das centenas de milhões ou bilhões. Simplesmente não há nenhum jeito de chegar a esse nível de riqueza sem o roubo. Qual é o maior imposto defendido pelos democratas mais radicais? Quarenta por cento? E isso não leva nem em conta todas as deduções e créditos que eles apoiam. Eu duvido que até mesmo a senadora Elizabeth Warren apoiasse impostos de mais de 50% sobre bilionários.

E para taxas rendas (inclusive retornos sobre riqueza) nessa magnitude seria necessário um enorme, complexo e caro aparato estatal que não teria sucesso na maior parte do tempo.

Os plutocratas mais inteligentes apoiam impostos de renda mais altos porque, da forma como o capitalismo corporativo se estrutura, eles são a única maneira de evitar a piora de depressões econômicas que ocorrem pela tendência crônica dos ricos à sobrepoupança e ao sobreinvestimento, deixando-os com um excedente de capital de investimento que abaixa as taxas de lucro e ocasiona uma ociosidade industrial por conta de crises de demanda. É por isso que os diretores-executivos das grandes corporações, como Gerard Swope da General Electric, apoiaram o New Deal. O estado — seu estado — estava atuando para garantir a sobrevivência de longo prazo do capitalismo e, ao mesmo tempo, para garantir que a plutocracia mantivesse a proporção máxima sustentável de seus proventos roubados. Esse também é o motivo por que existem “bilionários progressistas” como Gates e Warren Buffet.

Lembre-se, porém, de que todas essas riquezas incríveis são alcançadas pela intervenção do estado — o estado dos bilionários e das corporações. Toda a sua riqueza provém de rendas advindas de direitos de propriedade artificiais, da escassez artificial, de monopólios, cartéis regulatórios e barreiras de entrada (e também de subsídios diretos dos pagadores de impostos).

Assim, o estado gastar enormes recursos em coleta de impostos somente para aumentar levemente as receitas provindas de riquezas criminosas obtidas através do próprio estado parece uma maneira muito atrapalhada e indireta de conduzir a questão. E a maior parte dos gastos do estado possibilitados por essa nova arrecadação serão utilizados para promover o modelo econômico patológico pelo qual alguns conseguiram ficar tão ricos: subsídios à cultura dos carros e da expansão urbana, subsídios a fretes e grandes deslocamentos, subsídios à produção em larga escala, os gastos militares que utilizam o excedente de capacidade industrial e absorvem o capital extra, o uso das leis de “propriedade intelectual” para reforçar a obsolescência planejada e o desperdício, etc, retornando aos mais pobres somente uma pequena fração do que foi roubado deles para evitar uma revolução e criar demanda agregada para manter a roda girando.

Então, por que não eliminar todos os monopólios estatais em primeiro lugar, junto com todas as outras perversidades que o estado utiliza para ajudar os ricos e promover o desperdício e a ineficiência. Os ricos não poderão mover suas riquezas roubadas para paraísos fiscais se não tiverem a chance de roubá-la do resto da população através do governo.




Kevin Carson

Pesquisador sênior do Centro por uma Sociedade Sem Estado (c4ss.org)

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