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Por que algumas pessoas respondem melhor às vacinas?

15 de outubro de 2026 às 17:50

saúde/agência einstein
Um estudo da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, encontrou pistas sobre por que algumas pessoas respondem melhor às vacinas do que outras. Publicado em agosto na revista Cell Press Blue, o artigo aponta que os níveis de alguns anticorpos já presentes no sangue estavam associados à intensidade da resposta à vacina contra a Covid-19. Segundo os autores, esses anticorpos podem funcionar como marcadores da capacidade de resposta do sistema imunológico.
 

© Reprodução/Agência Einstein

Estudo identifica anticorpos já
presentes no sangue que podem podem
atuar como marcadores da capacidade
de resposta do sistema imunológico
 
“Já se sabe há muito tempo que nem todo mundo responde igualmente às vacinas”, observa o pediatra Alfredo Gilio, coordenador da Clínica de Imunização do Einstein Hospital Israelita. Fatores como idade, condições de saúde e características genéticas ajudam a explicar as diferenças, embora elas ocorram mesmo entre pessoas saudáveis. 
 
“O estudo procurou responder a uma questão de muito interesse em imunologia e vacinação: se é possível prever, antes da aplicação, quais indivíduos terão uma resposta fraca de anticorpos a determinada vacina que, nesse caso, foi a contra a Covid-19”, analisa Gilio.
 
Os pesquisadores acompanharam 4.089 participantes durante até 18 meses e analisaram 8.687 amostras de sangue. O grupo reunia 2.445 pessoas saudáveis e 1.644 indivíduos com condições ou tratamentos ligados à imunossupressão, como HIV, câncer, doenças autoimunes, doença inflamatória intestinal e transplante de órgãos. 
 
Nas amostras, a equipe mediu anticorpos contra 185 antígenos — moléculas reconhecidas pelo sistema imunológico — de vírus e bactérias, além de alvos associados a doenças autoimunes. Depois, comparou esse perfil com a quantidade de anticorpos contra uma região da proteína spike do coronavírus, produzida após a vacinação inicial e o reforço.
 
Como esperado, respostas fracas apareceram com maior frequência em vários grupos imunossuprimidos. Após o esquema inicial, a proporção foi de 71,6% entre receptores de transplantes de órgãos e de 6,2% entre participantes saudáveis. Depois do reforço, 95% dos daqueles considerados saudáveis chegaram à faixa de resposta alta; entre transplantados, 37,9% ainda tiveram resposta fraca ou ausente.
 
Anticorpos sentinela
 
Entre os anticorpos analisados, três se destacaram por sua associação com uma resposta mais forte à vacina contra a Covid-19: aqueles contra a bactéria Staphylococcus aureus, que pode causar infecções na pele, no sangue e nos pulmões; contra o vírus sincicial respiratório (VSR), associado a quadros de bronquiolite e pneumonia; e contra o respirovírus humano 3, também chamado de vírus parainfluenza humano tipo 3, causador de infecções respiratórias.
 
Esses microrganismos circulam com frequência, por isso grande parte dos adultos já teve contato com eles. A presença desses anticorpos não melhora a ação da vacina contra a Covid-19 nem significa que essas infecções protejam contra o coronavírus. Eles podem, porém, ser sinais de como o sistema imunológico reagiu a exposições anteriores — uma associação estatística, não uma relação de causa e efeito. 
 
“Se uma pessoa já teve contato com um vírus comum e não tem anticorpos contra ele, isso pode indicar que seu sistema imunológico, por alguma razão, não respondeu como esperado”, explica Alfredo Gilio. “É uma espécie de fotografia da capacidade do sistema imunológico.”
 
Os autores chamaram esses marcadores de “anticorpos sentinela”. A equipe também usou modelos de inteligência artificial para analisar o conjunto de anticorpos, em vez de considerar cada um isoladamente. Um dos modelos conseguiu distinguir participantes saudáveis com resposta baixa ou alta com mais de 75% de acerto. O desempenho variou entre os grupos e foi menor entre transplantados e pessoas com doenças autoimunes.
 
Efeitos na prática
 
Os anticorpos sentinela são apenas uma das possíveis pistas sobre a capacidade de resposta do organismo. A idade está entre os fatores mais conhecidos. Com o envelhecimento, o sistema imunológico perde parte de sua eficiência, processo chamado imunossenescência. Por isso, pessoas idosas tendem a produzir respostas menos intensas a algumas vacinas. No outro extremo, crianças pequenas ainda têm o sistema de defesa em desenvolvimento.
 
Doenças que comprometem a imunidade e tratamentos como quimioterapia, corticoides em doses elevadas e medicamentos administrados após transplantes também podem reduzir a resposta. Desnutrição e algumas doenças crônicas entram nessa conta. Mesmo na ausência desses fatores, características genéticas podem influenciar a reação de cada organismo.
 
Além disso, a quantidade de anticorpos não oferece um retrato completo da proteção. “A imunidade é muito mais complexa. De forma geral, ela pode ser dividida em imunidade humoral, ligada aos anticorpos, e imunidade celular, formada pela ação das células de defesa”, explica o médico do Einstein. O estudo analisou apenas a primeira. A importância de cada uma varia conforme a vacina, e a avaliação da resposta celular exige exames mais complexos, pouco usados na rotina.
 
Essas diferenças já orientam os calendários e as estratégias de vacinação. “Na prática, temos condutas baseadas nesse conhecimento. O calendário de uma pessoa acima de 60 anos difere do calendário de um adulto de 30 ou 40 anos”, exemplifica Gilio. Pessoas idosas podem receber versões de vacinas desenvolvidas para estimular uma resposta mais intensa, enquanto pacientes imunossuprimidos podem precisar de doses adicionais ou intervalos específicos.
 
Embora os autores apontem que o perfil de anticorpos possa, no futuro, orientar estratégias individualizadas de vacinação, o achado ainda não justifica a realização de exames antes ou após cada aplicação. “O conhecimento científico avança de grãozinho em grãozinho, e isso aqui [esta pesquisa] é um grãozinho. Precisa ser confirmado por outros estudos”, afirma o especialista. “Não quer dizer que amanhã vamos dosar esses anticorpos para decidir quem deve receber uma dose a mais. Estamos muito longe disso.”
 
Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein