 Celso Lacerda © Celso Lacerda/Arquivo pessoa |
Que alegria e que recordações saudosas ao me deparar com o umbuzeiro, árvore que marcou minha infância e adolescência. É mês de setembro, e o umbuzeiro estava nu, sem folhas para se vestir.
Isso faz parte do seu ciclo de vida: as folhas caem, mas, em alguns de seus galhos, havia flores brancas que o enfeitavam, dando beleza à árvore que se adapta à caatinga.
Lembranças maravilhosas visitaram minha mente naquela manhã, que estava quente e sem vento. Mas, ao olhar para o umbuzeiro por várias vezes, viajei pensando naquele lugarejo acolhedor chamado São Rafael, pedacinho do céu cravado no coração da serra, que abraça carinhosamente um povo amado, que vive sob a proteção dos santos: São Rafael e São Sebastião.
Ali estava, à minha frente, uma árvore que tem como fruto o umbu, fruto delicioso, suculento e carnudo, assim como era chamado pelos seus queridos moradores antigos de São Rafael. Precisamente nos meses de dezembro a fevereiro, a caatinga se enfeita com o verde de suas folhas e com os frutos que, ao amadurecerem, ficam amarelos e caem sobre a terra, servindo de alimento para os animais silvestres.
Lembro-me de que, nesses meses, era uma grande diversão para as pessoas de São Rafael, que, de posse de cestas, panelas, latas e sacos, saíam para catar umbu e retornavam com os recipientes cheios desse fruto maravilhoso para suas casas.
Também me veio de imediato a lembrança de tia Zilda, mulher forte, ligeira no andar, que, com suas sandálias e andando com pressa, jogava areia nas pernas. Sempre levava uma lata ou uma panela e saía na frente, alegre, e, por algumas vezes, batia na lata, chamando a atenção de todos e levando-os para catar umbu.
Se aparecesse um cachorro desconhecido nesse caminho, tia Zilda gritava, chamando a atenção de todos e, apavorada, dizia: “Lá vem o cachorro doido!” E todos corriam com medo.
Pense numa pessoa amada e criativa! Religiosa, estava sempre nas rezas e procissões, seguindo com muito amor e fé.
Saudade eterna.
A gente se perdia na quantidade de umbuzeiros que rodeava esse lugarejo. Interessante é que, no tronco de vários umbuzeiros, alguém passava e deixava seu nome, seu amor e até coração desenhado e talhado no tronco da árvore.
O umbuzeiro guardava, no seu tronco, segredos e lembranças de amor.
É uma árvore da caatinga que aguenta a temperatura e a estiagem, pois suas raízes têm batatas que, pela natureza, armazenam água para sua sobrevivência em tempos quentes e sem chuva.
O umbuzeiro pode ser considerado uma árvore sagrada da caatinga do nordeste que, além de fornecer frutos para alimentar, guarda sonhos, cúmplice de amores que se encontravam sob sua sombra e que, depois, com a leveza da alma, partiram na certeza de novos caminhos.
Por Celso Lacerda, membro da ABL/Barreiras (BA)
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