A decisão do presidente Lula de participar do Flow Podcast em vez de comparecer ao debate da Rede Globo configurou uma cartada de mestre. A estratégia tirou o presidente das cordas, visto que o formato do debate televisivo vinha se desenhando como uma armadilha voltada essencialmente para a fabricação de cortes hostis para as redes sociais.

Presidente Lula no Flow Podcast © Reprodução/agencialupa.org/
O cenário original previa um ambiente adverso: com a presença de múltiplos candidatos do mesmo espectro político — como Zema, Caiado e Flávio Bolsonaro —, a dinâmica seria de ataques coordenados e revesados contra Lula. A dinâmica mudou de figura quando o presidente anunciou sua ausência. A partir daí, o que se seguiu foi uma verdadeira novela nos bastidores: Flávio confirmou presença, recuou após o imbróglio jurídico envolvendo a tentativa de participação de Renan (que chegou a ameaçar acampar na porta da emissora) e, por fim, decretou o cancelamento do debate pela Globo.
Ao operar esse movimento, Lula desestabilizou os adversários e a própria emissora, inaugurando um fato político de peso. Ao optar pela internet, ele demonstrou compreender que é nesse ambiente que a pauta contemporânea ganha tração e velocidade. A TV aberta perdeu o seu antigo protagonismo — o que não significa inutilidade, mas sim perda da exclusividade na centralidade do debate público.
O impacto dessa escolha sobre a campanha pode ser decisivo. A última pesquisa Datafolha apontava Lula com 48% das intenções de voto no primeiro turno. A repercussão massiva da entrevista no Flow — potencializada tanto pela audiência nativa do canal quanto pelo engajamento da base lulista — tem o potencial de mobilizar os 3% restantes necessários para garantir a vitória logo no primeiro turno.
Desbancar a centralidade da Globo, pautar o debate nacional, atordoar os adversários e dialogar diretamente com o eleitorado pelas plataformas digitais são fatores que podem selar a eleição. Contudo, como diz o ditado, jogo só acaba quando o juiz apita — ou, neste caso, após a abertura das urnas e a apuração final. É preciso manter a atenção máxima até domingo, 4 de outubro, pois os opositores e os grandes meios de comunicação ainda tentarão movimentar o tabuleiro.
Fato é que Lula e sua coordenação dominaram a narrativa política nos últimos dias. Vamos em frente!
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade (UNEB)