 Atriz Laura Cardoso. Divulgação |
Há artistas que atravessam gerações. E há aquelas que, de tão profundamente ligadas à história de um país, acabam se confundindo com a própria memória cultural de seu povo. Laura Cardoso pertence a essa rara categoria.
Quando uma atriz participa de mais de 60 novelas, atravessa décadas de televisão, teatro e cinema e continua presente no imaginário do público, já não estamos falando apenas de uma carreira. Estamos falando de uma parte da história cultural do Brasil.
Talvez uma das imagens mais marcantes dessa trajetória seja Dona Isaura, de Mulheres de Areia, novela exibida pela TV Globo em 1993. Mãe das gêmeas Ruth e Raquel, interpretadas por Glória Pires, Dona Isaura poderia ter sido apenas mais uma personagem do núcleo familiar da trama. Mas Laura Cardoso não trabalhava com personagens de uma só dimensão.
Ao tomar partido de Raquel, a filha vilã, Dona Isaura transitava entre o amor materno, a proteção, a cumplicidade e o conflito moral. Laura não entregava ao público uma mãe simplesmente boa ou má. Entregava uma mulher contraditória, reconhecível, humana. E era justamente aí que estava sua grandeza.
Laura Cardoso tinha o raro talento de transformar personagens em pessoas. Com poucos gestos, um olhar, uma pausa ou uma mudança de tom, ela conseguia revelar histórias inteiras. Suas personagens carregavam marcas sociais, afetos, preconceitos, dores, esperanças e contradições que pertenciam não apenas à ficção, mas também ao cotidiano brasileiro. Talvez por isso tantas delas tenham permanecido na memória depois que os créditos finais subiram.
Laura não apenas interpretava. Ela dava existência. Ao longo de sua carreira, vieram prêmios, homenagens e reconhecimentos. Entre eles, a Ordem do Mérito Cultural, concedida em 2006 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira.
Mas há uma homenagem que nenhum governo, festival ou instituição consegue entregar: a memória afetiva de milhões de brasileiros. É a lembrança de quem cresceu vendo Laura na televisão. É o reconhecimento dos atores que aprenderam com sua disciplina e longevidade. É a sensação de reencontrar, em uma personagem, alguém que conhecemos na vida real. É a capacidade de uma artista de fazer com que o país se veja no espelho da dramaturgia. Porque cultura também é isso: aquilo que entra diariamente em nossas casas, provoca emoções, desperta reflexões, cria referências e nos ajuda a compreender quem somos.
Laura Cardoso fez da arte um modo de vida. E talvez essa seja a melhor definição de seu legado. Aos 98 anos, encerra-se uma existência extraordinariamente dedicada à arte. Mas uma carreira como a de Laura Cardoso não termina com a despedida. Ela continua nas imagens, nas cenas, nas personagens, nas histórias e, sobretudo, na memória de quem a viu trabalhar.
Alguns artistas recebem aplausos. Outros se transformam em patrimônio afetivo de uma nação. Laura Cardoso pertence a esses últimos. O Brasil agradece sua dedicação, seu talento, sua resistência e sua extraordinária contribuição à nossa cultura. Viva Laura Cardoso. Presente sempre!
Por
Ivandilson Miranda Silva, filósofo, Doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA