 Celso Lacerda © Celso Lacerda/Arquivo pessoal |
Era uma manhã quase igual às outras. A geada acariciava as folhas verdes e se despedia em lágrimas que caíam ao chão. O vento frio pairava no ar, enquanto o sol apresentava os primeiros raios no horizonte, que adormecia na linha do amor.
Ainda deitado nos braços do cobertor, fechei lentamente os olhos e, como se mergulhasse nas espumas do mar, fixei-me num tempo em que era criança. Trouxe aquele tempo para dentro de mim e lembrei-me dos meus seis anos, tomando como referência o fato de que meu pai ainda vivia entre nós. Ainda sinto o cheiro do seu suor e o som da sua voz irradiando o meu ser com palavras do meu pai, Cícero, que tanto amava seus filhos. Partiu cedo demais. Não houve tempo para me contar a sua infância.
Minha mãe, Terezinha, também pousou na minha mente, trazendo a doçura do amor, mesmo nas horas de repreender e conduzir os filhos para os caminhos da luz.
Apurei, carinhosamente, a memória e me vi ao lado dos meus irmãos: Cícero, José Antônio e Washington. Tínhamos quatro, cinco, seis e sete anos. Vestíamos roupas iguais, usávamos o mesmo corte de cabelo, e o pimpão sobressaía sobre nossas cabeças lisas. A nossa ingenuidade aflorava como se, em silêncio, pedisse apenas um lugar no mundo.
Como eu queria sentir novamente o que passava em nossas mentes, os nossos sonhos, as nossas vontades. Será que já sabíamos o que era ser feliz? Para onde nos levavam as nossas mentiras de criança? Será que estávamos preparados para perder o nosso pai, que saiu para trabalhar e nunca mais voltou?
São sofrimentos da vida que arranham a alma.
Nesse pensar, cheio de indagações que ainda habitam o vazio, uma lágrima passageira, mas salgada, pontuou recordações de saudade.
Despertei olhando para o teto, que mais parecia um ondular de barro avermelhado, limitando o meu sonhar, mas, ao mesmo tempo, convidando-me a refletir sobre fatos tão antigos que fizeram reviver momentos inesquecíveis e que jamais deveriam se perder no tempo.
Hoje, mais velho e distante do meu mundo de criança, sento-me como se estivesse num lugar bem alto, contemplando todo o movimento que caminhava pelas veredas da vida. Abro os olhos e sou tomado por lágrimas em forma de cachoeiras que se despedem do meu rosto ao encontro de um tempo que a vida guardou na memória da alma e que, aos poucos, evapora em direção ao infinito.
Talvez a minha criança nunca tenha ido embora. Ela apenas escolheu morar na parte mais silenciosa da minha alma e, de vez em quando, volta para me visitar, lembrando-me de que o tempo passa, mas o amor verdadeiro jamais envelhece.
Por Celso Lacerda, membro da ABL/Barreiras (BA)
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