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Combinação de fatores propicia alergia alimentar na infância, aponta estudo

19 de julho de 2026 às 11:41

saúde/agência einstein
Uma revisão sistemática que reuniu dados de 2,8 milhões de crianças de 40 países identificou os principais fatores associados ao desenvolvimento de alergias alimentares nos primeiros anos de vida. Publicado na revista JAMA Pediatrics, o trabalho indica que o problema resulta da combinação de predisposição genética, alterações na barreira da pele, exposição precoce a antibióticos e fatores ambientais.
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Pesquisa com 2,8 milhões de
participantes associa eczema precoce,
uso de antibióticos e histórico
familiar à condição
 
A alergia alimentar ocorre quando o sistema imunológico reage de forma inadequada às proteínas presentes em determinados alimentos, como leite, ovo, amendoim, castanhas ou peixes. Em vez de reconhecê-las como inofensivas, o organismo passa a tratá-las como ameaça, desencadeando desde manifestações leves até quadros graves, como a anafilaxia. “Na criança, o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento, por isso pode reconhecer essas proteínas alimentares como algo estranho, desencadeando a reação alérgica”, explica a alergista pediátrica Renata Rodrigues Cocco, do Einstein Hospital Israelita.
 
Os autores analisaram 190 estudos e avaliaram 342 possíveis fatores associados ao desenvolvimento de alergias alimentares. A conclusão é de que se deve levar em conta a presença de dermatite atópica (eczema) no primeiro ano de vida; a introdução tardia de alimentos potencialmente alergênicos, como amendoim e ovo; o uso de antibióticos nos primeiros meses de vida e o histórico familiar de alergias. Também foram observadas associações com parto cesáreo, sexo masculino e o fato de a criança ser a primogênita, embora esses aspectos tenham apresentado impacto menor.
 
Hoje entendemos que a alergia alimentar não tem uma única causa e que ela é uma doença da vida moderna”, analisa Cocco. “Alterações no microbioma, alimentação rica em ultraprocessados, poluição e outros fatores ambientais podem aumentar a permeabilidade da mucosa e fazer com que o sistema imunológico passe a reconhecer proteínas dos alimentos como se fossem uma ameaça.
 
Papel da dermatite e da introdução alimentar
 
Um dos principais achados da revisão é a relação entre dermatite atópica e o surgimento da alergia alimentar. Bebês que apresentaram eczema no primeiro ano de vida tiveram risco de três a quatro vezes maior de desenvolver alergias. Isso acontece porque a pele exerce um papel importante na proteção do organismo. “A dermatite atópica sempre foi considerada um sinal de alerta. Ela faz parte do que chamamos de marcha atópica, uma sequência que pode começar com eczema e ser seguida por alergias alimentares e, mais tarde, por rinite e asma”, explica a alergista e imunologista.
 
Outro resultado que chama a atenção diz respeito ao momento da introdução alimentar. O estudo mostra que oferecer amendoim, por exemplo, somente após os 12 meses de vida mais do que dobra o risco de a criança desenvolver alergia ao alimento. Esse achado reforça mudanças recentes nas recomendações pediátricas, que não indicam adiar alimentos potencialmente alergênicos como forma de prevenção.
 
A orientação que seguimos é a de manter o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade e, a partir daí, iniciar a introdução alimentar incluindo progressivamente todos os grupos de alimentos, inclusive ovo, peixe e amendoim, de acordo com o desenvolvimento da criança e com a orientação do pediatra”, orienta Renata Cocco.
 
O estudo também encontrou associação entre o uso de antibióticos, principalmente no primeiro mês de vida, e maior risco de alergias alimentares. A explicação mais provável está no impacto desses medicamentos sobre o microbioma – conjunto de microrganismos que vivem no organismo e participam do desenvolvimento e fortalecimento do sistema imunológico da criança.
 
A predisposição genética também pesa: crianças com pais ou irmãos alérgicos apresentam maior probabilidade de desenvolver alergia alimentar, segundo a análise. “O componente genético aumenta o risco, mas não explica tudo. É justamente a combinação entre genética e fatores ambientais que parece favorecer o desenvolvimento das alergias”, observa a médica.
 
O trabalho ainda relaciona alergias alimentares alimentares a aspectos como baixo peso ao nascer, nascimento pós-termo, aleitamento materno parcial, dieta materna durante a gravidez e estresse gestacional. Para a especialista, porém, esses resultados devem ser interpretados com cautela. “Em relação ao estresse e à alimentação durante a gravidez, existem limitações metodológicas importantes. Já há evidências mais consistentes mostrando, por exemplo, que restringir alimentos potencialmente alergênicos durante a gestação não previne alergias na criança”, conclui.
 
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein