Ocupar espaços de poder e decisão nunca foi uma jornada uniforme ou facilitada para todos. Recentemente, fomos surpreendidos pelos lamentáveis ataques desferidos contra o vereador Yure Ramon. Episódios como esse nos obrigam a encarar uma realidade incômoda, mas urgente: a condição social, a cor da pele e a estética de um indivíduo jamais deveriam ser utilizadas como parâmetros para definir quais lugares ele pode ou não ocupar.

© Ananda Lima/Divulgação
Em tempos de hiperconexão e telas, assistimos ao crescimento de um cenário alarmante. Não é tolerável que, na era das redes sociais tantas vezes transformadas em arenas para a disseminação do ódio e de inverdades, passemos a normalizar ataques covardes contra homens e mulheres, ferindo sua dignidade humana mais básica. Não sejamos plateia de ofensas e injustiças; o silêncio diante da tela pode nos tornar cúmplices. É preciso combater e neutralizar tudo aquilo que fere, degrada e potencializa as desigualdades.
Como professora da escola pública, sinto esse ataque atravessar a minha própria história e o meu fazer diário. Dentro da sala de aula, a geografia dos espaços muitas vezes antecipa os estereótipos que a sociedade insiste em perpetuar. Criam-se estigmas invisíveis entre os estudantes que se sentam nas primeiras carteiras e aqueles que ocupam o chamado “fundão”. No entanto, a verdade pedagógica e humana é uma só: todos eles, independentemente do lugar que ocupam, precisam apenas de oportunidades reais e de um ambiente que não os limite antes mesmo de tentarem. Quantos meninos e meninas talentosos são esquecidos diariamente pelo sistema, privados de chances concretas de florescer?
Deveríamos, como sociedade, nutrir um profundo orgulho ao ver uma liderança política que foge expressivamente ao padrão colonial dominante. A trajetória de Yure Ramon é inspiradora. Ser preto, gordo e oriundo da periferia o distancia do modelo tradicional de poder em um aspecto central: ele foi forjado na adversidade e na resiliência. Certamente, sua caminhada o expôs a situações de exclusão e preconceito de maneira muito mais intensa do que aqueles que nasceram confortavelmente enquadrados nas estruturas de privilégio social.
Situações de preconceito e discriminação como essa são absolutamente inaceitáveis. Elas tentam transformar em constrangimento aquilo que, na verdade, deveria ser motivo de celebração e inspiração para milhares de outras pessoas que compartilham da mesma origem.
Romper com o preconceito e respeitar as diferenças não é um mero exercício de tolerância; é um dever ético e democrático. Que a trajetória de lideranças como Yure Ramon sirva para derrubar barreiras. coloniais e digitais, mostrando a cada estudante da periferia que o seu lugar de direito é exatamente onde ele desejar estar.
Por
Ananda Lima, educadora, escritora membra da Academia Barreirense de Letra (ABL)