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Os riscos de usar nicotina para aumentar foco e produtividade

31 de May de 2026 às 12:12

saúde/agência einstein
A nicotina, historicamente associada ao cigarro e ao tabagismo, voltou a circular entre jovens sob uma nova promessa: melhorar foco, produtividade e desempenho mental. Em formatos como sachês, cigarros eletrônicos e adesivos, a substância vem sendo apresentada como alternativa “moderna”, enquanto especialistas alertam para risco de dependência e impactos à saúde.
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Substância é apresentada como recurso
de desempenho em novos produtos, como sachês
e vapes. A OMS alerta para anúncios voltados
a jovens e risco de dependência
 
Pequenos, discretos e vendidos em sabores como doces e frutas, os sachês de nicotina têm avançado em vários países com uma promessa de consumo limpo. Colocados entre a gengiva e o lábio, liberam nicotina pela mucosa da boca e costumam conter aromatizantes, adoçantes e outros aditivos. Autoridades já estão em alerta.
 
No último dia 15 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma nota sobre a expansão global desses produtos e o uso de estratégias de marketing voltadas a adolescentes e jovens. Segundo a OMS, as vendas no varejo ultrapassaram 23 bilhões de unidades em 2024, alta de mais de 50% em relação ao ano anterior. O mercado global foi estimado em quase US$ 7 bilhões em 2025.
 
A preocupação é de que os produtos avancem antes de regras de controle. Cerca de 160 países não têm regulamentação específica para sachês de nicotina, 16 proíbem a venda e 32 regulam de alguma forma. Para a OMS, a combinação de embalagens discretas, sabores adocicados e forte presença nas redes sociais reduz a percepção de risco entre jovens.
 
O alerta se soma a uma mudança mais ampla na forma como a nicotina vem sendo apresentada. Além do cigarro tradicional e dos sachês, ela aparece em cigarros eletrônicos e produtos de tabaco aquecido. Também está presente em adesivos e gomas usados na terapia de reposição para parar de fumar, mas que por vezes são deslocados, nas redes sociais, para discursos de foco, produtividade, controle de apetite ou desempenho mental.
 
É importante saber, porém, que qualquer produto com nicotina pode causar dependência. Ela age de forma rápida no cérebro: em poucos segundos, consegue se ligar a receptores nicotínicos e colinérgicos, desencadeando a liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao sistema de recompensa cerebral. Ao elevar e manter a concentração de dopamina, a substância produz sensação de prazer, alívio ou bem-estar que o cérebro passa a buscar novamente.
 
A dependência não aparece apenas como vontade de consumir a substância, ela passa a moldar a rotina: a pessoa pode evitar situações em que não consegue fumar ou utilizar o produto, ficar ansiosa diante de ambientes onde o consumo é proibido ou organizar o dia em torno da próxima dose. “A gente entende tabagismo hoje como uma doença, não simplesmente como um hábito de vida”, afirma a psiquiatra Joana Rodrigues Marczyk, do Programa da Mulher Dependente Química, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).
 
A promessa de desempenho
 
A ideia de usar nicotina para foco ou produtividade parte de um efeito conhecido da substância. Uma metanálise publicada em 2010 na revista Psychopharmacology avaliou 41 estudos duplo-cegos e controlados por placebo, feitos com adultos saudáveis fumantes e não fumantes. Os autores encontraram efeitos positivos agudos da nicotina ou do tabagismo em alguns domínios, como habilidades motoras finas, atenção, memória episódica de curto prazo e memória de trabalho. Os efeitos, porém, foram pequenos a moderados. E o próprio estudo relaciona esses achados à iniciação do tabagismo e à manutenção da dependência, não a uma recomendação de uso da substância para melhorar o desempenho.
 
Parte da pesquisa sobre possíveis usos terapêuticos envolve populações específicas, como pessoas com comprometimento cognitivo leve. Em um ensaio clínico piloto publicado na revista Neurology em 2012, adesivos de nicotina usados por seis meses melhoraram medidas de atenção, memória e velocidade de processamento em adultos não fumantes com esse diagnóstico. Os próprios autores ressaltam, no entanto, que estudos maiores seriam necessários para avaliar a importância clínica desses efeitos.
 
Por isso, deslocar a nicotina para o campo do foco e da produtividade é problemático. Segundo Marczyk, pode haver uma sensação transitória de melhora da concentração, mas não uma melhora real e sustentada de desempenho. Com a repetição do uso, o efeito pode se inverter: sintomas de abstinência e o tempo gasto para consumir a substância passam a prejudicar a performance que se buscava melhorar.
 
A terapia de reposição de nicotina tem outro objetivo. Uma revisão da Cochrane publicada em 2018 concluiu que gomas, adesivos, pastilhas, sprays e outros formatos licenciados aumentam em 50% a 60% a chance de parar de fumar em pessoas motivadas a abandonar o cigarro. Nesse caso, o benefício vem de tratar a dependência e reduzir a exposição à fumaça do tabaco, e não de transformar a nicotina em produto de bem-estar ou desempenho.
 
A associação entre nicotina e produtividade não nasceu com os sachês. Ao longo do século passado, o cigarro foi incorporado a ambientes de trabalho e contextos militares também como recurso para lidar com fadiga, tédio e pressão. Nos anos 1920, anúncios de tabaco já apresentavam o cigarro como aliado da atenção, do controle emocional e do rendimento. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), cigarros chegaram a ser distribuídos a soldados em diferentes exércitos. Mais tarde, as pausas para fumar se encaixaram na rotina das fábricas por serem breves, previsíveis e compatíveis com a linha de produção.
 
Para a pneumologista Luiza Helena Degani Costa, professora de Pneumologia e Medicina Interna na graduação em Medicina do Ensino Einstein, os novos produtos mostram uma tentativa de manter o consumo de nicotina em diferentes formatos. “A indústria de tabaco não é mais apenas uma indústria de tabaco, ela é uma indústria de nicotina. E quer vender a nicotina em qualquer uma das suas formas”, avalia a médica do Einstein Hospital Israelita.
 
Risco sem fumaça
 
Os efeitos da nicotina não se restringem ao cérebro — a substância também tem ação cardiovascular. Por ser estimulante, pode aumentar a frequência cardíaca, elevar a pressão arterial e favorecer sintomas como palpitação e dor no peito. Em alguns casos, o uso pode se associar a arritmias e maior risco cardiovascular, incluindo infarto.
 
O problema se amplia quando a nicotina é consumida por via inalatória, como ocorre com cigarros convencionais, narguilé e cigarros eletrônicos. Nesses casos, a pessoa não inala apenas nicotina, mas uma mistura de substâncias que podem afetar o sistema respiratório. Os vapes não são mais inofensivos. “Quando o líquido do cigarro eletrônico é aquecido, substâncias químicas reagem entre si e podem formar novos compostos”, relata a pneumologista.
 
Essas substâncias podem provocar efeitos agudos, como irritação nos olhos, no nariz e na garganta, além de tosse, chiado no peito e broncoespasmo. Com o uso repetido, há associação com quadros como asma, bronquite crônica e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
 
Costa também cita a EVALIi, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico. A condição ganhou atenção durante um surto nos Estados Unidos em 2019. Até fevereiro de 2020, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês) havia registrado 2.807 casos graves associados à doença, incluindo hospitalizações e mortes. Do total, 68 óbitos foram confirmados.
 
Uma revisão publicada em 2025 no Scandinavian Journal of Public Health analisou evidências sobre cigarros eletrônicos, produtos de tabaco aquecido e sachês de nicotina. O trabalho concluiu que os cigarros eletrônicos estão associados a maior risco de asma, sintomas respiratórios, bronquite crônica e DPOC. Para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, câncer e desfechos na gestação, os autores encontraram sinais de risco, mas ainda sem evidência de longo prazo suficiente para estimar a dimensão dos efeitos.
 
No caso dos sachês, a revisão destaca que há poucos estudos sobre impactos de longo prazo. Por isso, os autores defendem pesquisas longitudinais, em larga escala, que considerem dose, duração de uso, formulação dos produtos e exposição passiva ou pré-natal. Eles afirmam que é urgente esclarecer os impactos dos novos produtos de nicotina e tabaco sobre a saúde, especialmente diante do crescimento do consumo, para orientar políticas públicas e estratégias de regulação.
 
Batalha constante
 
A quantidade de nicotina que esses produtos podem entregar é motivo de preocupação. No caso dos sachês, a OMS informa que alguns são vendidos em diferentes níveis de potência, com quantidades declaradas da substância que podem chegar a 150 mg. Nos cigarros eletrônicos, a dose também pode ser maior do que o usuário imagina: alguns dispositivos usam sais de nicotina, que permitem concentrações mais altas com menor irritação.
 
O crescimento do uso entre adolescentes e adultos jovens acende outro alerta. A OMS afirma que a nicotina é especialmente prejudicial a esses grupos porque o cérebro ainda está em desenvolvimento. A exposição nessa fase pode afetar esse processo, inclusive em funções ligadas à atenção e à aprendizagem, além de aumentar o risco de dependência.
 
Ao mesmo tempo, a forma como produtos com nicotina são apresentados pode tornar o consumo mais aceitável. A aparência mais limpa, tecnológica e discreta dos novos dispositivos e sachês ajuda a afastá-los da imagem do cigarro tradicional, associada nas últimas décadas aos danos do tabagismo. “A percepção de risco é um definidor para as pessoas na escolha de usar ou não”, observa Joana Marczyk. Quando a estética dos produtos diminui essa percepção, a resistência ao consumo também cai.
 
A experiência do controle do tabaco mostra que políticas públicas moldam a percepção de risco. No Brasil, medidas como ambientes livres de fumo, proibição de propaganda, restrição à venda para menores de 18 anos, aumento de impostos e advertências sanitárias nas embalagens ajudaram a reduzir o consumo de cigarro nas últimas décadas. A prevalência de tabagismo caiu de cerca de 35% da população adulta nos anos 1980 para menos de 10% em anos recentes.
 
Agora, os novos produtos desafiam esse conjunto de medidas. “A indústria do tabaco constantemente se contrapõe a essas políticas”, opina a médica Ana Natividade, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “Com os novos produtos de nicotina, apesar das evidências científicas apontarem vários riscos para a saúde, a indústria promove a ideia de que são produtos inócuos ou menos prejudiciais.
 
Um dos exemplos mais recentes vem do Reino Unido, onde uma lei aprovada em abril proibiu a venda de produtos de tabaco para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009 e ampliou os poderes do governo para regular vapes e outros produtos com nicotina, incluindo regras sobre publicidade, embalagens, sabores e características dos dispositivos.
 
No Brasil, a comercialização, importação e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas pela RDC nº 855/2024 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A norma manteve a vedação a produtos como cigarros eletrônicos e dispositivos de tabaco aquecido e também prevê ações de fiscalização e educação. “Dados de pesquisas populacionais, como o Vigitel, indicam que essa proibição ajudou a conter a disseminação do uso desses produtos no país, mantendo a prevalência inferior à observada em países onde a comercialização é permitida”, observa Natividade.
 
O desafio é que as regras existentes não encerram a disputa em torno da nicotina, que de tempos em tempos é apresentada em novos formatos, como os sachês. “A indústria se reinventa trazendo uma repaginação de produtos que não estão regulamentados nem contemplados pelas políticas públicas que a gente desenvolveu”, analisa a psiquiatra do IPq.
 
Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein