A morte do psicólogo Manoel Rocha Neto, aos 32 anos, em Santo Antônio de Jesus, provocou comoção em toda a Bahia. Natural de Amargosa, Manoel era reconhecido pelo trabalho sensível e comprometido com a saúde mental, além do vínculo afetivo que mantinha com a comunidade onde atuava.

psicólogo Manoel Neto morreu aos 32 anos © Reprodução/Instagram
Horas antes de morrer, Manoel usou as redes sociais para relatar um episódio de racismo sofrido no Camarote Ondina, no circuito Dodô (Barra–Ondina), durante o Carnaval de Salvador de 2026. Segundo seu desabafo, um homem impediu sua passagem em um ponto da estrutura, dando início a uma situação de constrangimento e violência simbólica.
Mais do que um relato isolado, o texto publicado por Manoel é um testemunho doloroso sobre a experiência cotidiana de desumanização vivida por homens negros, inclusive em espaços que deveriam ser de celebração e alegria. Em suas palavras:
“Caros amigos pretos, não se enganem. Dinheiro, títulos, sucesso… isso não nos torna legitimados pelos olhos das belas almas brancas. Vocês serão humilhados sempre que uma pessoa branca cruzar o seu caminho.”
O desabafo escancara sua revolta, o impacto psicológico da agressão sofrida e a força brutal do racismo estrutural no Brasil. Mesmo diante de um arcabouço legal que inclui a Lei nº 7.716/1989 (Lei Caó), a equiparação da injúria racial ao crime de racismo (Lei nº 14.532/2023) e o Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010), o que segue imperando é a lógica da impunidade. A “lei” que muitas vezes prevalece é a do privilégio branco: atos racistas continuam sendo cometidos em qualquer espaço, frequentemente resultando em detenções breves, quando muito, seguidas da liberdade dos agressores e agressoras.
O racismo estrutural no Brasil é um fenômeno histórico e profundamente enraizado, que organiza as relações sociais, econômicas e políticas, mantendo a população negra em posição de subalternidade. Manoel Rocha Neto, psicólogo e mestrando da Universidade Federal da Bahia, reconhecido pelo Conselho Regional de Psicologia da Bahia por sua prática ética, pelo cuidado e pela promoção da saúde mental. Mesmo com seu reconhecimento acadêmico e profissional, teve sua vida atravessada — e interrompida — pela barbárie racista, em um Carnaval que celebrava os 110 anos do samba, expressão cultural forjada pela resistência e criatividade do povo negro, porém estruturalmente dominada pelos brancos, desde prefeitura, passando pelo governo do Estado às organizações carnavalescas não governamentais brancas.
Não podemos esquecer que o racismo se manifesta todos os dias, principalmente nos espaços comunitários transformados pelo turismo predatório em espaços privados protegidos pela lógica do ”deus” dinheiro. Espaços de lazer como bares, restaurantes, eventos etc se tornam potencializadores do racismo estrutural pela lógica do racismo econômico, não somente em época de carnaval.
Observe os valores dos produtos vendidos nesses lugares se não são fora da realidade de 80% da população baiana negra, mestiça e pobre; observe também como se as narrativas dos espaços culturais de lazeres nas comunidades do Centro Histórico de Salvador, do Rio Vermelho, da Barra etc. não defendem ‘a não tolerância do racismo’.
Entretanto, no que diz respeito às narrativas que antecedem essas experiências, gostaríamos de ser um espírito atento a escutar as orientações dadas pelos(as) proprietários(as) desses espaços ao receber turistas brancos, negros, mestiços e pobres nos territórios comunitários atravessados por um turismo de caráter predatório. Gostaríamos, ainda, de compreender como esses(as) donos(as) de espaços de lazer reagem quando, em seus estabelecimentos, o racismo é praticado por um(a) cliente branco(a), e quais posturas éticas e políticas são assumidas diante dessa violência.
Nos estabelecimentos acima citados têm publicado, na parede do seu estabelecimento, a lei que tipifica o racismo como crime inafiançável? Os/as donos/as dos espaços de lazer nas comunidades turísticas, frequentadas por turistas racistas oriundos do Brasil e fora do Brasil, orientam os/as seus trabalhadores/as a chamarem à polícia quando há a efetivação do racismo por essas pessoas? Os/as donos/as dos espaços de lazeres culturais (bares, restaurantes, camarotes etc.) recebem formação antirracista? Eles e elas oferecem a mesma formação para os/as seus funcionários/as? Quando há racismo nesses estabelecimentos os/as donos/as desses lugares respondem judicialmente também?
A justiça brasileira, principalmente baiana, precisa fazer urgentemente ações concretas para combater a perpetuação do racismo também nos espaços de lazer, para que ninguém da população negra e mestiça possa perder suas vidas psíquicas e biológicas, a exemplo de Manoel.
É preciso fazer algo urgentemente para evitar mais dores à população negra e mestiça. O assassinato de Manoel pelos/as racistas dói, não somente para sua família biológica, mas para todos e todas que lutam por igualdade racial e justiça social. Dói ainda mais saber que muitos dos responsáveis, direta ou indiretamente, podem jamais ser alcançados pela justiça. A dor que fica é também denúncia: enquanto o racismo estrutural continuar operando com naturalidade, vidas negras seguirão sendo interrompidas — e o luto seguirá sendo coletivo.
Por Moisés Batista Santos de Oliveira, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), professor de Filosofia da Rede Estadual de Ensino Bahia, Escritor e Militante dos Direitos Humanos e;
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Professor.