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Pessoas com diabetes têm pior qualidade do sono, conclui estudo

25 de janeiro de 2026 às 12:34

saúde/agência einstein
A relação entre alimentação, metabolismo e sono está cada vez mais bem estabelecida e vem ganhando maior destaque na literatura científica, inclusive quando se trata de pessoas com diabetes. Um novo estudo, publicado na revista Frontiers in Nutrition, indica que a dieta e o controle glicêmico estão associados aos padrões e à duração do sono, reforçando que alterações metabólicas podem interferir diretamente no descanso noturno.
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Pesquisa indica que controle rigoroso
da glicose e composição da dieta influenciam a
duração e o padrão do descanso noturno
 
Baseada em dados de 66.148 participantes do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), levantamento realizado nos Estados Unidos entre 2007 e 2020, a pesquisa mostra que indivíduos com diabetes apresentam maior prevalência de dificuldade para dormir (37,74%) e de diagnóstico de distúrbios do sono (9,56%). Esses resultados são superiores aos observados entre pessoas com pré-diabetes (30,88% e 5,89%) e entre aquelas com níveis normais de glicose no sangue (24,91% e 3,95%, respectivamente).
 
Sonos mais curtos, com menos de sete horas por noite, também foram mais frequentes entre participantes com diabetes (33,59%) e pré-diabetes (31,29%) do que entre indivíduos com glicemia normal (29,57%). Já o sono acima de nove horas, que também pode ser prejudicial, ocorreu com maior frequência entre pessoas com diabetes (7,79%) em comparação àquelas com pré-diabetes ou sem a condição.
 
A doença afeta o sono por diferentes mecanismos. “O diabetes não é apenas uma situação em que a glicemia está alta. Dependendo do tratamento, o paciente pode apresentar grandes oscilações glicêmicas, incluindo hipoglicemias noturnas, que causam sudorese, palpitação e despertares abruptos. Isso compromete a consolidação do sono”, explica a neurologista Letícia Soster, do Grupo Médico Assistencial do Sono do Einstein Hospital Israelita.
 
Além das variações da glicose, a condição também está associada a um estado inflamatório crônico, que pode interferir nos hormônios reguladores do sono. “Há ativação do eixo do estresse, com aumento do cortisol, que antagoniza a melatonina. Isso contribui para um sono mais fragmentado”, afirma Soster.
 
O sono inadequado também aumenta o risco de desenvolver diabetes tipo 2. A recomendação geral é que um adulto precisa dormir entre sete e nove horas por noite. “Menos que isso prejudica a regulação hormonal e o controle do apetite e da glicemia. Dormir mais, por outro lado, muitas vezes reflete um organismo exausto e também merece investigação”, alerta a neurologista.
 
A influência da alimentação
 
O padrão alimentar aparece como um componente central dessa relação. Segundo o estudo, dietas pobres em proteína estiveram associadas a piores desfechos de sono, independentemente do status glicêmico. Isso se explica pelo impacto dos macronutrientes — que incluem carboidratos, proteína e gorduras — sobre a glicemia. O consumo de carboidratos complexos, como os grãos integrais, tende a favorecer padrões mais saudáveis de sono ao contribuir para a estabilidade dos níveis de glicose no sangue.
 
Em contrapartida, dietas com maior participação de carboidratos de baixa qualidade e com elevado teor de carboidratos totais ao longo do dia estão associadas a um maior risco de distúrbios do sono. As proteínas também exercem papel importante nesse processo, por fornecerem aminoácidos que participam da síntese de neurotransmissores ligados à regulação do sono, como a serotonina e a melatonina.
 
De acordo com a pesquisa, uma alimentação com maior presença de proteínas magras (como peixes, aves e leguminosas) está associada a um melhor padrão de sono. “Quando a dieta tem pouca proteína, ela tende a ser mais rica em carboidratos de rápida absorção, o que favorece picos de glicose. A proteína ajuda a estabilizar esses níveis. Comer 500 calorias com proteína é muito diferente de 500 calorias só de carboidrato”, observa Letícia Soster.
 
O estudo também observou que dietas com baixo teor de carboidratos e maior teor de gordura estão associadas a menor chance de sono curto em pessoas com diabetes e em indivíduos com glicemia adequada. No entanto, esses achados devem ser interpretados com cautela. “Trata-se de um estudo populacional, que identifica associações, e não relações de causa e efeito. Ainda assim, são dados valiosos para gerar hipóteses e orientar futuras pesquisas clínicas”, analisa a médica do Einstein.
 
Outro achado que chama atenção é que pessoas com diabetes e controle glicêmico mais rigoroso relatam mais dificuldade para dormir. Esse resultado pode estar relacionado à maior complexidade do manejo clínico. “Um controle mais estrito do diabetes geralmente envolve múltiplos medicamentos, eventualmente maior risco de hipoglicemia noturna temporária e o uso de fármacos que podem interferir na produção de melatonina. Não se trata apenas da hemoglobina glicada isolada, mas de um organismo inteiro submetido a um manejo mais intensivo”, explica Soster.
 
Daí a necessidade de uma abordagem integrada no cuidado ao paciente com diabetes. “O sono deve ser encarado como um pilar da saúde, ao lado da alimentação, da atividade física e da saúde mental. Priorizar horários regulares para dormir e acordar, garantir tempo adequado de sono e evitar refeições muito calóricas ou estimulantes à noite são medidas simples, mas fundamentais”, frisa a médica do Einstein.
 
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein