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A era das anexações

07 de janeiro de 2026 às 12:04

pauta livre
Após a ação temerária do governo Trump, que culminou no sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em 03 de janeiro de 2026, estamos diante de uma questão profundamente problemática para a geopolítica internacional e para a reorganização da chamada “Nova Ordem Mundial”.
 

© Frame vídeo/Canal UOL
 
Trump violou leis internas dos Estados Unidos, como a Lei dos Poderes de Guerra de 1973, que determina que qualquer ação de intervenção em outro país deve ser comunicada ao Congresso norte-americano, cabendo a esta instituição autorizar ou não a operação.
 
Além disso, Trump feriu gravemente o Direito Internacional, uma vez que a operação militar em território venezuelano pode ser classificada como “crime de agressão”, por violar a soberania de um Estado independente e a Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial de outros países. Juristas descrevem o episódio como um “sequestro presidencial”, argumentando que o combate ao narcotráfico ou a suposta defesa da democracia não oferecem base legal para invadir um país e retirar seu líder à força.
 
Outro ponto central é que, segundo o Direito Internacional, chefes de Estado em exercício gozam, em regra, de imunidade, o que impediria sua prisão e julgamento por tribunais estrangeiros. Trump passou por cima de todas essas normas e instituições, colocando-se como um líder todo-poderoso. Chegou, inclusive, a publicar em redes sociais que todo o hemisfério pertence aos Estados Unidos.
 
Essa ação trumpista cria um precedente extremamente perigoso, pois enfraquece — ou mesmo destrói — os pilares do Direito Internacional, além de conferir poderes de caráter ditatorial ao presidente norte-americano, que desrespeita as leis do próprio país. Ao agir assim, Trump estimula Vladimir Putin a avançar na anexação de territórios ucranianos — ou mesmo de toda a Ucrânia — à Rússia. A China, por sua vez, pode sentir-se encorajada a resolver definitivamente a questão de Taiwan, retomando o território. O próprio Trump já ameaça anexar a Groenlândia e envia recados intimidatórios à Colômbia.
 
Diante desse cenário, emerge uma nova conjuntura geopolítica: chegamos à era das anexações (salve Eric Hobsbawm), na qual as potências mais fortes passam a absorver as mais fracas. Essa anexação não significa, necessariamente, uma invasão militar direta; pode ocorrer por meio do alinhamento político de governos nacionais aos interesses da Casa Branca.
 
Nesse contexto, o governo Trump tende a interferir em processos eleitorais na América do Sul. A Colômbia terá eleições em abril e, por isso, Trump provoca Gustavo Petro neste momento. No Brasil, as eleições ocorrerão em outubro, e a extrema direita alinhada a Trump fará de tudo para obter o apoio dos Estados Unidos. Resta saber se Trump apoiará o candidato da oposição brasileira, considerando sua aproximação pragmática com o governo Lula.
 
Cenas dos próximos capítulos. Por ora, já sabemos que “alguma coisa está fora da ordem, fora da Nova Ordem Mundial”.
 
Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Professor de Filosofia.  E-mail: ivanvisk@gmail.com