A construção de pontes entre diferentes expressões da fé no Brasil é o centro da Formação Axé-Amém, uma iniciativa que reuniu pessoas negras evangélicas e de religiões de matriz africana para articular estratégias de enfrentamento ao racismo religioso e promover integração por meio da fé.

Livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil © Fernando Frazão/Agência Brasil
Livro “Axé-Amém" foi lançado na
última semana no Rio
A iniciativa é do Instituto de Estudos de Religião (Iser) que, durante quatro meses, recebeu 37 escritores selecionados para produzir o livro “Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil”.
A publicação reúne as vivências dos autores sobre dupla pertença religiosa (sentimento de identificação e conexão com uma fé, comunidade ou tradição religiosa), memórias familiares, formação política e práticas de resistência espiritual, pautados no conceito de Escrevivência, desenvolvido pela escritora Conceição Evaristo. Uma escrita que parte do individual para narrar histórias do coletivo de uma comunidade.
 Livro Axé-Amém: Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil é lançado no Rio - Foto Fernando Frazão/Agência Brasil |
Para Amanda Damasceno, uma das autoras, a iniciativa de participar da formação Axé-Amém veio após um processo de transformação e aceitação familiar. Mãe de dois filhos e evangélica, ela teve dificuldades em aceitar quando a filha mais velha se iniciou no candomblé aos 16 anos.
“Como evangélica, sempre me ensinaram que as religiões de matriz africana eram demonizadas. Ao mesmo tempo que eu queria apoiar a minha filha, tinha muito medo, e se ela entrasse aqui com aquelas roupas? Por isso que eu sempre falo, hoje o meu propósito é combater o racismo religioso na sociedade, mas para isso tive que combatê-lo em mim, a transformação teve que partir de mim”, diz.
O babalorixá Igor Almeida acredita que o projeto é uma maneira de quebrar paradigmas e construir um novo olhar de respeito entre as vertentes da religiosidade negra no Brasil.
“Nosso país é pluralista, nós temos aqui uma pluralidade de religiões, de desinências, não somente negra, indígena, mamelucos, e a gente precisa aprender a ter respeito, não somente na desinência religiosa, mas no simples fato de querermos ser alguém dentro de uma sociedade”, afirmou.
A publicação foi lançada na última terça-feira (2), no Rio de Janeiro. Carolina Rocha, pesquisadora do Ier e uma das idealizadoras da formação Axé-Amém, espera que o livro possa ser uma ferramenta de debates e educação religiosa.
“Esperamos que o livro funcione como ponte, não como muro. Ele foi pensado para ser lido em igrejas, terreiros, comunidades, bibliotecas, escolas e rodas de formação", afirma.

Historiadora candomblecista Carolina Rocha no lançamento do livro Axé-Amém:
Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil - Foto Fernando Frazão/Agência Brasil
Ela classifica a iniciativa como uma "cartografia afetiva de existências que não cabem no discurso do ódio". Os autores foram selecionados por meio de edital público, e a alta adesão de pessoas evangélicas ao projeto foi uma grata surpresa para os idealizadores.
Da Agência Brasil
*Estagiária sob supervisão da jornalista Tâmara Freire