No dia 2 de dezembro, quando o país celebra o Dia do Samba, a memória se volta para figuras que ajudaram a moldar a identidade musical brasileira. Entre elas, recordo José Silva (1932–2000), sambista que conheci em 1994, nos corredores do Sindicato dos Músicos em Salvador, Bahia. Era impossível encontrá-lo sem o LP Roda de Samba na Ribeira debaixo do braço — e bastavam poucos minutos para que ele começasse a entoar composições como “Quem entrou na roda foi uma boneca”, “O Petróleo é da Bahia” e “Chegou a Hora do Pau Comer”.

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Cantor e compositor de temperamento vibrante, José Silva marcou o carnaval baiano das décadas de 1950, 60 e 70, animou festas populares e deu vida ao samba junino nos recantos de Salvador. Tornou-se amplamente conhecido pelo trabalho com o grupo José Silva e Suas Baianas. Ainda que pouco documentadas individualmente, as “baianas sambistas” que o acompanhavam (símbolo da tradição das tias baianas e do samba de roda que pulsa na cultura afro-brasileira) representavam a força feminina na preservação e expansão do samba na Bahia, considerada por muitos, seu berço cultural.
Pioneiro, José Silva fundou uma das primeiras batucadas da capital, a “Batucada Comigo”, participou da criação da Escola de Samba Diplomata de Amaralina e integrou a tradicional Escola de Samba Filhos do Morro. Presença constante nas festas populares, era figura respeitada entre músicos, carnavalescos e amantes do samba.
Apesar de nunca ter recebido o espaço no mercado fonográfico proporcional à sua importância, mantinha o sorriso fácil e a verve contagiante. No Sindicato, era conhecido por suas histórias, piadas e causos — sempre narrados com humor baiano e musicalidade natural. Entre seus clássicos, permanecem na memória versos como “Eu não vou na sua casa, minha comadre, pra você não ir na minha, comadre” e “O guarda civil não quer a roupa no guaradô; meu Deus, onde vou quarar essa roupa?”.
No Dia do Samba, celebrar José Silva é reconhecer a criatividade, alegria e resistência de um artista que fez do samba sua vida e seu legado. Salve o samba. Salve José Silva. Salve a Bahia que ele tão bem cantou.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Professor. @ivandilsonmirandasilva