Fico aqui, sentado com meu café já frio, tentando imaginar qual seria o melhor título de uma matéria de jornal para anunciar a prisão de Jair Messias Bolsonaro. Um título bom, que atravessa décadas, que fica na boca do povo e nos livros de História. Talvez porque Bolsonaro sempre foi um personagem de manchete — quase nunca pelas razões nobres que ele dizia cultivar.

Ex-presidente Jair Bolsonaro preso © Imagem adaptada/Divulgação
Lembro que não é a primeira vez que seu nome se aproxima de punições. Já lá atrás, quando ainda era um jovem oficial inquieto, esteve às portas da expulsão do Exército por acusações que hoje soam como um ensaio do que viria depois. Conseguiu reverter tudo na Justiça Militar e os direitos foram restituídos, o caminho liberado e, como diz o povo, “quando a porteira abre, a boiada passa”. E como passou.
Por muitos anos, parecia que nada nem ninguém conseguiria deter o ex-presidente. Instituições estremeciam, autoridades hesitavam, e ele seguia — aos trancos, barrancos e lives — como se fosse imune às leis que regem os demais mortais.
Mas, como diria o saudoso e ácido Zé Bim, “a casa cai, cedo ou tarde”. E caiu. Para quem jurava diante das câmeras que jamais seria preso, o dia da verdade chegou com a frieza de um boletim oficial. O mesmo homem que, na pandemia, esnobava o vírus e vangloriava sua “saúde de atleta”, agora aparece nos requerimentos dos advogados como um paciente frágil, quase de vidro. Em tão pouco tempo, o herói musculoso virou um personagem abatido — ou assim querem fazer crer.
No meio dessa reviravolta, sigo aqui pensando no título perfeito para este momento histórico. Fiz até uma lista — porque manchete boa também é esporte nacional:
• 1. CPF Mais ou Menos Cancelado: Bolsonaro Preso;
• 2. Bozo Preso: Final de Linha, Tá Ok!;
• 3. Grande Dia: A Prisão de Jair Bolsonaro;
• 4. Tchau, Querido! A Cela é Toda Sua;
• 5. Xandão É Foda: Prendeu o Bozo Mesmo!;
• 6. Bandido Bom É Bandido Preso: Bolsonaro Tem Preventiva Decretada;
• 7. Todo Crime Será Castigado: Bolsonaro Preso;
• 8. Na Tranca: O Golpista que Atentou Contra a Democracia;
• 9. Tá na Hora de Já Ir: Bolsonaro no Xadrez;
• 10. A Espera Acabou: Jair Foi em Cana.
Dez títulos possíveis, todos prontos para estampar um jornal que, anos atrás, talvez não tivesse coragem de publicá-los. Mas a escolha da manchete é quase detalhe diante do que realmente importa: o Brasil está, enfim, dizendo que golpistas não passarão e que ditadura nunca mais.
Vivemos um tempo em que o país tenta, aos poucos, passar a limpo a própria história — incluindo as feridas deixadas entre 1964 e 1985. E, ao fazer isso, reafirma que a democracia, com seus 40 anos ainda jovens e teimosos, precisa de vigilância, memória e justiça.
Seja qual for o título final, uma coisa é certa: esse capítulo não será esquecido — e, desta vez, a manchete não vai fugir da verdade. Por Ivandilson Miranda Silva, Doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB)