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Jards Macalé: Viva o Vapor Barato

18 de novembro de 2025 às 17:15

pauta livre
É com profunda tristeza — e com a reverência de quem reconhece um gigante — que recebemos a notícia da passagem de Jards Macalé para o mundo dos encantados. Cantor, compositor, agitador cultural, performer indomável e artista de fronteira, Macalé foi uma das figuras mais radicais, inventivas e necessárias da música brasileira. Resistiu à Ditadura Civil-Militar de 1964-1985 com coragem estética e postura política, afirmando, com sua arte, que a liberdade é sempre uma questão de som, corpo e gesto.
 

Jards Macalé 
© Reprodução
 
Macalé não cabia em rótulos — e justamente por isso se tornou referência incontornável para pensar o sentido estético do Brasil. Sua presença-arte influenciou gerações inteiras: Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, O Rappa, Chico César, Racionais MC’s, Rita Lee, Daniela Mercury, Criolo, Lenine, entre tantos outros artistas que encontraram, em sua ousadia, caminhos para reinventar a própria linguagem.
 
O experimentalista que expandiu a MPB
 
De espírito rebelde e mente inquieta, Jards Macalé fez da mistura um território de invenção. Mesclou rock, samba, choro, jazz, samba-rock e tradições da música popular brasileira de maneira pouco ortodoxa, abrindo fendas e possibilidades no cenário musical carioca das décadas de 1970 e 1980. Sempre à frente do seu tempo, trabalhou com texturas sonoras que desafiavam convenções, devolvendo à MPB seu lado mais vanguardista e indomesticável.
 
Suas letras — ora satíricas, ora poéticas, ora delirantes — brincavam com o humor, a ironia e o surrealismo, introduzindo na canção brasileira uma voltagem lírica que ampliou horizontes e desestabilizou certezas. Em Macalé, a palavra não repousa: ela provoca, ri, vibra, corta.
 
Álbuns e colaborações que marcaram época
 
Seu disco de estreia, "Jards Macalé" (1974), já revelava a potência de sua identidade performática e experimental. Em "Corações Gangrenados" (1981), levou ao limite a combinação entre arranjos inventivos e letras ácidas, criando uma das obras mais ousadas da MPB. Trabalhos posteriores, como "Beleza e Fúria" (1991), reafirmaram sua busca incessante por novas linguagens e timbres.
 
Macalé também foi essencial em projetos históricos. Parceiro de Waly Salomão e de Vinicius de Moraes, esteve no coração de uma das mais importantes obras da música brasileira: "Transa" (1972), álbum produzido no período de exílio de Caetano Veloso em Londres. Um marco da canção mundial.
 
Performance, corpo e presença
 
No palco, Macalé não interpretava: ele incendiava. Sua teatralidade, entrega emocional e irreverência criavam uma relação única com o público. Era impossível assistir a Macalé e permanecer indiferente. Ele sabia — como todo grande artista — que a performance é parte essencial da obra.
 
O multiartista que atravessou tudo
 
Macalé transitou por todas as artes: música, poesia, teatro, cinema, artes plásticas, dança, literatura. Um multiartista que recusou limites e não precisou de muito dinheiro para ser imenso — “graças a Deus”, como dizia com humor. Agora, como no verso que o acompanhou, ele “vai tomar o seu velho navio”, navegando rumo às águas sagradas do reino dos encantados.
 
Que Apolo, Euterpe, Atena, Oxum, Exu, Iansã e Tupã o recebam em celebração. Que seu legado siga nos ensinando que a arte é risco, invenção e liberdade. Viva Jards Macalé! Viva o vapor barato! Viva o artista que nunca deixou de ser intempestivo, necessário e luminoso.
 

Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB)