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Atenção médica inclusiva melhora adesão de adultos LGBT+ a exames e vacinas

04 de outubro de 2025 às 17:54

saúde/agência einstein
Estudo realizado com quase mil adultos LGBTQIA+ nos Estados Unidos mostra como a qualidade da relação médico-paciente pode impactar diretamente na saúde preventiva dessa população. Conduzida com pessoas de 50 a 76 anos, a pesquisa revela que experiências neutras ou discriminatórias nos serviços de saúde reduzem a adesão a exames e vacinas recomendados, aumentando a vulnerabilidade desse grupo a doenças evitáveis.
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Estudo mostra que práticas afirmativas
são determinantes para confiança e prevenção
em saúde nessa população
 
Os resultados foram publicados em maio na revista Health Services Research. Os pesquisadores analisaram dados do estudo LGBTQ+ Social Networks, Aging, and Policy, que acompanha a saúde e o envelhecimento dessa população.
 
A equipe identificou três padrões de experiências relatadas: cuidado afirmativo (34%), caracterizado por serviços preparados e acolhedores em relação às especificidades LGBTQIA+; cuidado neutro (60%), quando não há sinais claros de acolhimento, mas também não ocorrem situações de desrespeito; e cuidado discriminatório (6%), marcado por episódios segregativos, encaminhamentos inadequados ou linguagem ofensiva.
 
Os resultados revelam que indivíduos que relataram apenas experiências neutras tinham uma probabilidade 12% menor de já terem feito teste de HIV e 17% menos chance de terem se testado recentemente. Já aqueles que enfrentaram situações discriminatórias eram 12% menos propensos a terem se vacinado contra gripe nos três anos anteriores e 15% menos suscetíveis ao rastreamento de câncer colorretal.
 
A pesquisa mostra que não basta evitar a discriminação — a ausência de sinais claros de acolhimento já compromete a adesão aos cuidados e é suficiente para afastar pacientes das práticas preventivas. Muitos indivíduos LGBTQIA+ deixam de procurar serviços de saúde ou adiam exames preventivos por não se sentirem seguros em ambientes clínicos. O resultado é um risco maior de diagnósticos tardios, complicações e custos mais altos para o sistema.
 
Para o ginecologista Emmanuel Nasser Vargas Assis, do Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch - M’Boi Mirim, unidade pública gerida pelo Einstein em São Paulo, esses achados refletem um esforço ainda tímido do sistema de saúde em lidar com as necessidades dessa população.
 
O estudo ressalta que, embora as experiências negativas tenham sido estatisticamente baixas, a falta de acolhimento por si só gera um impacto enorme. Apenas 3% dos consultórios tinham materiais que demonstravam apoio à comunidade LGBTQIA+, e só 17% dos pacientes relataram uso de linguagem inclusiva nos atendimentos”, avalia Assis, que também atua no Centro de Referência de Saúde Integral para a população de Travestis e Transexuais – Janaína Lima, na capital paulista. “Esses detalhes, que podem parecer triviais, são determinantes: comprometem a confiança, reduzem a adesão ao tratamento e afastam as pessoas do acompanhamento preventivo.
 
Esse cenário também se repete no Brasil. “Apesar de termos protocolos direcionados à saúde LGBTQIA+, ainda há baixa adesão dos profissionais de saúde em atualizar conhecimentos e uma falta de compromisso institucional em adotar práticas realmente inclusivas. A consequência é que pacientes sentem que suas vivências não são compreendidas e acabam evitando os serviços”, analisa o especialista.
 
O que é cuidado afirmativo?
 
Na prática, oferecer um cuidado afirmativo significa ir além da ausência de preconceito: envolve criar um ambiente que ativamente reconheça e valorize a diversidade. “Um serviço de saúde afirmativo é aquele que respeita o nome social e pronomes do paciente, adota linguagem inclusiva, exibe materiais que reforçam o compromisso com os direitos da população LGBTQIA+ e treina continuamente sua equipe para lidar com especificidades dessa comunidade”, explica Emmanuel Assis.
 
O acolhimento deve estar presente em todos os níveis do atendimento, da recepção à consulta. “Não adianta o médico ser cuidadoso se o paciente foi constrangido na sala de espera, cada detalhe comunica se aquele espaço é seguro ou não”, observa o médico.
 
Outro aspecto essencial é a diversidade das próprias equipes de saúde. “Como acreditar que um serviço é inclusivo se todas as pessoas envolvidas no cuidado não refletem a diversidade da população atendida? A linguagem não verbal, nesse caso, é tão poderosa quanto qualquer protocolo”, afirma.
 
Desafios dos mais velhos
 
A pesquisa também chama atenção para um público específico: adultos LGBTQIA+ de meia-idade e idosos. Esse grupo já enfrenta riscos adicionais de saúde, como maior prevalência de condições crônicas, isolamento social e menor acesso a redes de apoio.
 
Há ainda todas as situações que enfrentaram ao longo da vida. “Estamos falando de pessoas que viveram a epidemia de HIV/AIDS [nos anos 1980 e 1990] e foram privadas de direitos básicos. O casamento civil igualitário só foi permitido legalmente em 2013 e, até 2020, por exemplo, pessoas LGBTQIA+ eram proibidas de doar sangue”, exemplifica o ginecologista. “Além disso, enfrentaram décadas de estigmatização. Isso deixa marcas profundas na saúde mental e influencia como se relacionam com o sistema de saúde.
 
A solidão, o abandono familiar e a falta de empregabilidade são outros fatores que dificultam o acesso. “Muitas vezes, essas pessoas chegam aos serviços já em condições mais graves, porque evitaram consultas preventivas ao longo da vida. É uma população que exige atenção redobrada.
 
Para os pesquisadores, não basta tratar sem discriminar: é preciso adotar estratégias proativas de acolhimento. Emmanuel Assis concorda. “O primeiro passo é deixar claro, já na estrutura do serviço, que aquele ambiente é inclusivo. Isso pode ser feito com placas, campanhas, banheiros sem discriminação de gênero, panfletos. Mas é essencial que esses sinais venham acompanhados de práticas consistentes, como a atualização de prontuários para registrar nome social e pronomes, para evitar constrangimentos”, sugere.
 
Outro pilar é a educação continuada. “As instituições precisam investir na capacitação das equipes, desde a recepção até os profissionais técnicos e médicos, para que todos compreendam a diversidade de vivências e estejam preparados para atender com respeito e eficácia. Isso não pode ser um esforço pontual, mas sim uma política permanente”, propõe o médico.
 
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein