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Pesquisa mostra preferência de mulheres brasileiras pela democracia e por candidaturas femininas, negras e indígenas

29 de setembro de 2025 às 17:38

eleições/candidaturas femininas
As mulheres indicam a democracia como melhor forma de governo, têm preferência por candidaturas encabeçadas pelo público feminino e por pessoas negras e indígenas, além de serem contrárias à influência da religião nas decisões políticas. Esses são alguns dos resultados da pesquisa nacional “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, que acaba de ser apresentada.
 

© Reprodução/Google/Divulgação
 
Levantamento em âmbito nacional,
promovido pela Fundação Perseu Abramo, em
parceria com Sesc São Paulo, aponta ainda que 71%
do público feminino é contrário à influência
da religião nas decisões políticas
 
A iniciativa é da Fundação Perseu Abramo, centro de formação política e de produção de conhecimento do PT, em conjunto com o Sesc São Paulo. Trata-se da segunda parceria consecutiva entre as instituições e do terceiro estudo realizado pela fundação – as edições anteriores ocorreram em 2001 e 2010.
 
A investigação atual, realizada ao longo de 2023, avaliou seis eixos temáticos: cultura política e participação; imagem da mulher – machismo e feminismo; corpo, sexualidade e saúde das mulheres; violência contra as mulheres; proteção social e política de cuidados; e trabalho remunerado e não remunerado.
 
Como comparação, o levantamento de 2001 teve 2.500 entrevistas domiciliares nas cinco regiões geográficas. O seguinte ouviu 2.365 mulheres e 1.181 homens de áreas urbanas e rurais. O que acaba de ser publicado teve duas fases: uma qualitativa, com 65 mulheres cisgêneros e transgêneros, e outra quantitativa, em que foram entrevistadas 2.440 mulheres e 1.221 homens.
 
De acordo com a pesquisa, 59% das mulheres consideram a democracia a melhor forma de governo, enquanto apenas 4% indicam a opção por um regime ditatorial. Na hora do voto, entre as características e os valores que influenciam a decisão, 89% delas apontam preferência por candidaturas femininas. Tal condição também aparece em primeiro lugar para 72% dos homens. Na sequência prevalece, no caso das mulheres, o fato de o candidato ser negro (78%) e indígena (68%) – a proporção, para o público masculino, é de 71% e 62%, respectivamente.
 
Por sinal, 66% delas votam em candidaturas que sejam favoráveis à demarcação de terras indígenas e à defesa de outras pautas voltadas a essa parcela da população. Além disso, a maioria (71%) é contrária à influência da religião nas decisões políticas. Em contrapartida, 64% admitem que há preconceito e discriminação contra a participação do público feminino na política, posição compartilhada por 55% dos homens.
 
As razões para tal discriminação se relacionam a estereótipos de gênero, como os homens acharem que a mulher não tem competência nem capacidade para administrar, o fato de a considerar menos inteligente e inferior, o medo que eles têm de perder seu espaço para ela, efeitos do patriarcado e da produção da misoginia”, diz a cientista social Sofia Toledo, que é mestra em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora analista do Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos (NOPPE) da Fundação Perseu Abramo.
 
Segundo ela, os números gerais trazidos pelo estudo indicam um acentuamento das desigualdades e do empobrecimento das mulheres na última década. Ainda que tenham avançado em nível de escolaridade, os salários e postos de trabalho não acompanharam o crescimento. A elevação da escolaridade não alcançou toda sociedade, uma vez que houve aumento das pessoas que não sabem ler nem escrever. 
 
O empobrecimento atinge sobretudo as mulheres negras – 59% têm renda familiar de até 2 salários mínimos – e aquelas que vivem na região Nordeste, que representam 64% da amostra. Houve um crescimento de 50% das que são assistidas por benefícios e programas sociais, sendo novamente a maioria representada pelo público feminino negro, um dado que informa bem o perfil das mulheres que enfrentam situações de pobreza e vulnerabilidade no Brasil”, afirma Sofia Toledo.
 
 
A seguir, alguns recortes da pesquisa nacional “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”:
 
       • Aumento na percepção de que a vida das mulheres piorou em relação à década passada: 1 a cada 4 mulheres considera que há mais coisas negativas em ser mulher do que positivas;
       • Queda da importância da maternidade para as mulheres, que era algo valorizado nas edições anteriores;
       • Piores aspectos em ser mulher: desigualdades no mercado de trabalho e violência;
       • Crescimento e aprimoramento sobre o feminismo como um elemento de luta por direitos;
       • Redução da quantidade de mulheres que se declaram feministas quanto à edição de 2010;
       • Percepção ampla do machismo tanto por mulheres e homens – no entanto, embora reconheçam sua existência, apenas 1 a cada 10 homens se considera machista;
       • 3 a cada 4 mulheres têm filhos e a primeira gravidez é cedo – cerca de 4 em cada 10 mulheres têm o primeiro filho antes de completar a maioridade;
       • Cerca de 1/4 das mulheres sofreu violência física ou verbal durante o parto – crescimento na última década;
       • 71% das mulheres que interromperam a gravidez não tiveram acompanhamento ou orientação médica;
       • 75% das mulheres fazem acompanhamento da gestação pelo SUS e 50% se sentem satisfeitas com o serviço público de saúde;
       • 50% das mulheres e homens são favoráveis que as leis atuais sobre o aborto permaneçam como estão;
       • 50% das mulheres já sofreram algum tipo de violência – a física prevalece, com 11% das menções espontâneas e 22% das citações estimuladas;
       • As violências psicológica e moral são pouco reconhecidas – 2% e 1%, respectivamente, nos registros espontâneos –, mas são as mais vivenciadas por 43% e 37%, respectivamente, nas respostas estimuladas;
       • Consequências da violência sofrida refletiram principalmente na saúde mental ou emocional para 69% das mulheres;
       • 91% das mulheres conhecem a Lei Maria da Penha; entre os homens o conhecimento subiu de 85%, em 2010, para 89%;
       • 58% das mulheres que sofreram violência não pediram ajuda;
       • 71% das mulheres que sofreram violência não denunciaram oficialmente o episódio;
       • 2 a cada 10 mulheres que admitiram ter sofrido violência foram orientadas a não denunciar – o aviso partir principalmente por pessoas da própria família;
       • 4 em cada 10 mulheres que relataram estupro apontaram que o agressor era o companheiro (42%);
       • 99% dos domicílios têm 1 mulher como principal responsável pelos afazeres domésticos;
       • Aumento dos domicílios que têm 1 mulher como principal provedora;
       • 66% das mulheres são as principais responsáveis pelos cuidados com as crianças quando elas não estão na escola e 23% as deixam aos cuidados da mãe ou da sogra;
       • Cerca de 50% das mulheres que têm crianças as criam sozinhas, sem participação de outra pessoa;
       • Entre as mulheres que têm crianças que moram apenas com elas, 46% recebem pensão alimentícia ou contribuição financeira para o cuidado com a criança – em 2001, 37% recebiam esse auxílio e, em 2010, 50%;
       • Aprofundamento da informalidade entre as mulheres e maior formalização entre os homens;
       • Renda média das mulheres é 40% inferior à dos homens;
       • Proporção de mulheres com renda abaixo de 1 salário mínimo é o dobro da dos homens: 44% ante 21%;
       • 16% das mulheres não têm renda alguma;
       • 4% das mulheres têm renda superior a 3 salários mínimos enquanto 18% dos homens estão nesse patamar;
       • Quanto maior a renda aumenta mais a desigualdade;
       • População economicamente ativa: renda média das mulheres é 2/3 na comparação com os homens e apenas 2% delas atingem renda acima de 5 salários mínimos – no público masculino, esse percentual é de 8%.
 
Assimp Fundação Perseu Abramo