Quando a notícia chega de que Luis Fernando Veríssimo partiu, a sensação é de que o Brasil ficou um pouco mais silencioso. Não aquele silêncio tranquilo das tardes preguiçosas, mas o silêncio incômodo que surge quando alguém que sabia rir de nós mesmos, com ternura e ironia, não está mais por perto para nos traduzir em palavras.

Luis Fernando Veríssimo © UnespDivulgação.jpg
Veríssimo não escrevia apenas crônicas: ele escrevia a vida. Em “O Analista de Bagé”, transformou Freud em um gaúcho de bombacha, provando que o inconsciente também podia ter sotaque e humor. Na Comédia da Vida Privada, revelou a grandeza escondida nas pequenas contradições do dia a dia. Suas palavras eram bisturi e abraço, ao mesmo tempo – cortavam fundo, mas deixavam o riso como anestesia.
Apaixonado pelo Internacional, Veríssimo nunca escondeu que o coração lhe batia em vermelho e branco. No Beira-Rio ou diante da televisão, vibrava, sofria e comemorava como qualquer torcedor. Ali também se mostrava humano demais: frágil na derrota, gigante na alegria, provando que o futebol é, sim, um pedaço da alma brasileira.
Mas Veríssimo era mais que cronista e colorado. Era saxofonista, cartunista, filho de Erico e Mafalda Verissimo, herdeiro e reinventor da palavra. Um homem que ria de si mesmo, como naquela entrevista em que disse: “Não é que eu não tivesse planos. Tive vários, só que nenhum deles havia dado certo (risos)”. Talvez por isso deu certo como ninguém: porque transformou a falta de planos em liberdade para criar.
O Brasil perde, com ele, um espelho generoso, um intérprete do nosso comportamento, um tradutor das nossas manias, um provocador da nossa esperança de sermos mais alegres, irônicos e, quem sabe, menos violentos e desiguais.
Luis Fernando Veríssimo não era apenas um escritor; era um colorado apaixonado pela vida. E agora, no mundo dos encantados, deve estar soprando o seu saxofone para as estrelas, rindo com a Velhinha de Taubaté e lembrando, mais uma vez, que a crônica é a arte de rir para não chorar.
Salve, Veríssimo. Nosso eterno Analista do Brasil.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB. e-mail:
ivanvisk@gmail.com