“Tempo, tempo, tempo, tempo...”
Ah, Caetano. O senhor do tempo nos brinda mais uma vez com a alegria de celebrar seus 83 anos e lembrando o amigo Hamilton Queiroz, seu fã incondicional: nós, humildes ouvintes e apaixonados da sua arte, só podemos agradecer — e festejar.

cantor e compositor Caetano Veloso © Reprodução/Redes Sociais/Instagram/
Caetano Veloso é dessas figuras que parecem ter nascido para iluminar o mundo com música, pensamento e beleza. Uma "Beleza Pura" — dessas que não se explica, só se sente. Um corpo inteiro de Brasil que canta “outras palavras”, que sussurra com uma voz tamanha os desejos, as dores e os delírios de um país.
Caetano é Recôncavo, filho de Dona Canô e Seu Zeca, irmão da abelha mais rainha que já existiu, Maria Bethânia. É raiz profunda e folha que dança com o vento. Sempre foi irreverente, inquieto, corajoso. Nunca teve medo de enfrentar os “podres poderes”, especialmente os ditadores que tentaram silenciar seu canto. Por isso foi preso, por isso foi exilado. E mesmo longe, era mais Brasil do que muitos que ficaram.
No exílio, foi lembrado com carinho por Erasmo e Roberto Carlos, que enviaram em forma de canção um gesto de afeto: “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”. Caetano respondeu com “Força Estranha”, eternizada na voz imensa de Gal Costa — um presente de volta, como se dissesse: “estou aqui, mesmo distante”.
Caetano sempre foi verbo em movimento. Foi quem declarou:
“Onde queres dinheiro, sou paixão”,
“É proibido proibir”,
“Gente é pra brilhar”,
“Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara”.
E dançou. E nos fez dançar.
Com “Queixa”, ele nos lembra do amor que arrasa: “princesa, surpresa, você me arrasou”.
Com “Você é linda”, entrega-se ao encantamento: “mais que demais, você é linda sim”.
E mesmo com “Sozinho”, composição do grande Peninha, nos ensinou que “quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”.
Caetano é amor, política, desejo, pensamento, rebeldia, doçura.
É a música que quebra o gelo, que aquece a alma, que arrepia a pele.
É artista no mais profundo sentido da palavra. Um provocador de catarse.
E por mais que a gente queira seguir falando — porque falar de Caetano é como entrar num rio que não tem fim —, é melhor guardar um pouco de silêncio para saborear a saudade do próximo verso.
Finalizo com “Leãozinho”, que parece que ele escreveu para si mesmo, nascido em agosto, leonino de alma e de presença. A nós, só resta repetir em coro:
“Gosto muito de você, Leãozinho.”
Vida longa, Caetano. Obrigado por existir.
Por
Ivandilson Miranda Silva, Doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia.