O documentário Apocalipse nos Trópicos, da premiada cineasta Petra Costa — conhecida internacionalmente por Democracia em Vertigem (2019) — mergulha em uma das mais complexas e delicadas relações do Brasil contemporâneo: o entrelaçamento entre religião e política. Com início simbólico na cena em que Petra recebe uma Bíblia do então deputado e pastor Cabo Daciolo por volta de 2016, o filme se desenrola com o pastor Silas Malafaia como figura central, funcionando como um fio condutor para mostrar como determinados segmentos do mundo evangélico se aliaram ao bolsonarismo nos últimos anos.

© Reprodução/Google/Divulgação
O documentário, contudo, vai além da conjuntura recente. Ele oferece um olhar histórico ao evidenciar que essa aproximação entre religião e política não é nova no Brasil. Já durante a ditadura militar (1964–1985), os Estados Unidos operavam, nos bastidores, um plano para enfraquecer a Teologia da Libertação — movimento de matriz católica e evangélica com viés progressista — e expandir uma religiosidade alinhada ao neoliberalismo e ao anticomunismo. Um marco desse processo foi a vinda do líder evangélico norte-americano Billy Graham ao Brasil em 1974, com um megaevento no Maracanã.
O filme costura esses fios para explicar como a chamada teologia da dominação, de viés conservador e autoritário, cresceu em solo brasileiro, ocupando os vazios deixados por uma Igreja progressista acuada, enquanto as crises sociais e políticas impulsionavam o apelo de uma fé que prometia proteção, ordem e prosperidade. O crescimento dessa ala evangélica, somado ao enfraquecimento da Teologia da Libertação — combatida diretamente pelo Vaticano durante o papado de João Paulo II — contribuiu decisivamente para a ascensão de lideranças religiosas como Malafaia, com forte apelo político e ideológico.
O documentário ainda retrata com precisão os desdobramentos das eleições de 2018 e 2022, bem como as investidas antidemocráticas para manter Jair Bolsonaro no poder. Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, por exemplo, são apresentados como uma evidência de que há um setor do cristianismo brasileiro disposto a entrar em guerra em nome de uma ideologia política. Nesse sentido, o filme levanta um alerta: a ideia de “guerra santa” não está distante da realidade brasileira, o que é extremamente preocupante em um país que se define, constitucionalmente, como laico e plural.
Apocalipse nos Trópicos tem grandes méritos ao registrar esse momento histórico com rigor e coragem, provocando o debate sobre os riscos de uma possível teocracia — um governo que impõe uma única fé como política de Estado e suprime violentamente os demais credos.
Contudo, como toda obra, carrega lacunas importantes listadas a seguir:
a) Diversidade evangélica ignorada: Embora apresente dois contrapontos à visão de Malafaia, o filme poderia ter aprofundado as vozes dissidentes dentro do campo evangélico. Figuras como o pastor e deputado Henrique Vieira e outros líderes progressistas são fundamentais para demonstrar que o mundo evangélico está longe de ser monolítico.
b) O uso do termo "Apocalipse": O título pode sugerir um fim destrutivo, reforçando uma visão negativa que domina o imaginário popular. No entanto, o Apocalipse bíblico também pode ser interpretado como um texto de resistência e esperança, escrito em 90 d.C. por João em linguagem cifrada contra o Império Romano. Assim como as canções e peças de Chico Buarque durante a ditadura, como Os Saltimbancos, o texto apocalíptico é uma denúncia codificada — e pode ser apresentado de outra forma. Enquanto os fanáticos tratam o Apocalipse como uma “guerra santa” ou uma sucessão de tragédias inevitáveis, os progressistas podem ressignificá-lo como um chamado à esperança e à construção de um mundo novo. Um mundo onde o “amai-vos uns aos outros” deixe de ser apenas um mandamento abstrato e se torne prática concreta de libertação. O documentário poderia explorar justamente esse contraponto — entre a retórica do medo e a potência transformadora do amor.
c) Excesso de protagonismo a Malafaia: Embora seja uma figura central, sua exposição como protagonista pode parecer exagerada. O verdadeiro protagonista dessa história é o povo e as instituições brasileiras, que, mesmo diante das ameaças golpistas, das tentativas de sabotar o processo eleitoral e impedir a posse do presidente eleito, resistiu e garantiu a manutenção da democracia.
Apocalipse nos Trópicos é um documentário necessário. Não esgota o tema — nem pretende —, mas provoca reflexões fundamentais sobre o presente e o futuro do Brasil. É uma obra que deve ser assistida e debatida, pois ilumina, com suas luzes e sombras, a travessia democrática do país em tempos de nevoeiro autoritário.
Por
Ivandilson Miranda Silva, Doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia. Professor de Filosofia.