Há pessoas que vivem dentro de gaiolas mentais, outras em gaiolas físicas.
No dicionário virtual, "gaiola" tem dois significados:
1. Caixa formada por um engradado de arame ou de ripas finas, destinada a aprisionar pássaros;
2. Prisão para feras; jaula.
A questão-chave aqui é: estar na gaiola é uma decisão da própria pessoa ou ela foi colocada ali por alguém? Ainda que tenha sido posta por outrem, sua permanência não dependeria, em certo ponto, de sua própria vontade?
O que leva alguém a se condicionar a um ambiente limitante, onde não pode ser plenamente quem é?
Para mim, existem duas condições principais nesse contexto: a ausência de consciência e o medo de abdicar daquilo que se tornou zona de conforto.
A ausência de consciência faz com que o aprisionamento e o cerceamento sejam naturalizados. A pessoa não reconhece o abuso; valida ações que a restringem, pois não percebe sua condição.
O medo, por sua vez, sedimenta a permanência na rotina que oferece uma falsa sensação de segurança: porque é conhecida, porque traz benefícios aparentes, porque o novo é incerto. Assim, a pessoa permanece, ainda que infeliz — criando justificativas para si mesma de que aquela circunstância irá mudar.
Em ambas as situações, o tempo passa. A pessoa não consegue exercer toda a sua potência — seja como companheira de vida, como profissional ou como ser social.
Também é oportuno questionar: o que há por trás das pessoas que dedicam tempo a se tornarem carcereiras de outras?
Talvez sejam pessoas historicamente feridas, que passaram a reproduzir dores que um dia as marcaram. Não trataram suas feridas, não cuidaram de si para ressignificar experiências passadas. E então, às vezes inconscientemente, passam a repetir atitudes arbitrárias. Outras vezes, fazem isso conscientemente, dando vazão às próprias dores ao ferir o outro.
Há ainda aquelas que têm medo da potência do outro — e por isso o cerceiam, como forma de se sentirem seguras. Limitar e restringir alguém pode ser uma maneira de manter o próprio lugar inalterado.
Vigotski (2010) afirmou que somos seres interacionistas: é no contato com o outro que elaboramos sentidos para nossas vivências. Estar com o outro deveria ser uma oportunidade essencial de crescimento, de afloramento de potências — jamais uma prisão de quem se é.
Aqueles que ousam sair da gaiola e alçar voos serão intensamente questionados. Tornar-se inteiro incomoda. Provoca. Amedronta.
Quem tem asas de liberdade não cabe em gaiolas.
Por
Ananda Lima, escritora, professora e confreira ABL/Barreiras, Bahia