* * * * * *

A prisão de Bolsonaro será um marco civilizatório

19 de julho de 2025 às 12:43

pauta livre
A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), acolhendo a tese da Procuradoria-Geral da República (PGR) para a aplicação de tornozeleira eletrônica no ex-presidente Jair Bolsonaro, marca um ponto de inflexão na trajetória política brasileira. A medida, motivada pela possibilidade de fuga do ex-mandatário para os Estados Unidos, indica que um julgamento desfavorável se aproxima para aquele que seus seguidores chamam de "mito".
 

Ex-presidente Jair Bolsonaro
© Reprodução/pstu.org.br/
 
Bolsonaro responde por crimes gravíssimos: organização criminosa armada, tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, deterioração de patrimônio público tombado e dano qualificado pela violência e grave ameaça. E essa lista ainda não inclui os crimes sanitários durante a pandemia da Covid-19 — que ceifou a vida de mais de 600 mil brasileiros — nem o envolvimento no esquema das "rachadinhas", que perdurou por mais de duas décadas durante seu mandato como deputado federal pelo Rio de Janeiro.
 
A trajetória de Bolsonaro é marcada por um histórico de impunidade. Desde os tempos finais da ditadura militar, quando ficou preso por apenas 15 dias após escrever um artigo criticando salários nas Forças Armadas, ele tem escapado de responsabilizações. Foi inocentado da acusação de tramar atentados contra quartéis e infraestruturas estratégicas do Exército, e logo depois trocou a farda pelo paletó, migrando para uma carreira política que se mostrou altamente parasitária do Estado e do povo.
 
Durante décadas, Bolsonaro abusou de imunidades, privilégios e artimanhas, sempre parecendo um personagem intocável, acima da lei. Porém, desde a sua derrota eleitoral em 2022 e a tentativa de retorno ao poder por meio de um golpe de Estado, a roda da história começou a girar. O que parecia impossível há poucos anos — a responsabilização legal de um ex-presidente autoritário — agora se aproxima.
 
Uma das mais chocantes demonstrações de sua deslealdade com o país foi a suposta ameaça feita por meio de Donald Trump, exigindo uma taxação de 50% ao Brasil em retaliação à sua possível prisão. A aliança de Bolsonaro com setores extremistas internacionais, em especial com a extrema direita norte-americana, representou uma traição não só à soberania nacional, mas também à esperança democrática do povo brasileiro.
 
A prisão de Jair Bolsonaro representa mais que justiça — é um marco civilizatório. É a chance de virar a página de um dos períodos mais sombrios da nossa história recente. É o início de uma nova etapa para o Brasil, onde valores como democracia, justiça social, diversidade, tolerância e respeito aos direitos humanos voltem a ter protagonismo.
 
Precisamos reconstruir o Brasil a partir de suas raízes profundas: da cultura popular, do povo trabalhador, da luta contra as desigualdades, do verdadeiro patriotismo — aquele que não se veste com a bandeira para destruir o país, mas que o honra com dignidade, solidariedade e verdade.
 
A prisão de Bolsonaro não é apenas o fim de um ciclo de autoritarismo. É o começo de um novo Brasil, mais justo, mais humano e mais democrático.                                
 

Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Professor de Filosofias