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Rejeição à CLT por jovens provoca gargalo de mão de obra na indústria

24 de junho de 2025 às 17:49

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A indústria brasileira enfrenta um novo desafio estrutural: a escassez de mão de obra qualificada em meio à rejeição crescente, principalmente por parte dos jovens, ao regime de trabalho via CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Os dados são de pesquisas da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e de nova rodada do Datafolha.
 

@ Reprodução/Google/Divulgação
 
Pesquisas da Fiesp e Datafolha revelam valorização da flexibilidade e do tempo livre em detrimento do emprego formal; jovens também voltaram a estudar
 
A combinação de taxa de desemprego em mínimas históricas e uma geração que prioriza flexibilidade e tempo livre está dificultando a contratação no setor.
 
Os levantamentos encomendados pela Fiesp e o Datafolha apontam para uma mudança cultural relevante no perfil do trabalhador brasileiro.
 
O Datafolha aponta que 59% dos brasileiros acham melhor trabalhar por conta própria, ante 39% que se sentem melhor contratados por empresa. A pesquisa apontou também que, desde 2022, cresceu de 21% para 31% o número de pessoas que consideram mais importante ganhar mais do que ser registrado. Por sua vez, os que valorizam a CLT mesmo com salário menor caíram de 77% para 67% nesse intervalo de tempo.
 
A Fiesp realizou dois levantamentos que mostram o aumento do gargalo de mão de obra no setor industrial. O primeiro deles aponta que 20,5% das indústrias paulistas que procuraram novos empregados entre o início de 2024 até março deste ano não conseguiram contratar. O processo de busca de candidatos foi classificado como difícil ou muito difícil por 77,1% das empresas ouvidas.
 
Rejeição à CLT x valorização do tempo
 
O panorama do mercado de trabalho vem mudando desde à pandemia de Covid-19, quando muitos trabalhadores passaram a adotar o trabalho remoto, e isso trouxe muitos impactos para os diversos setores econômicos, mas principalmente o industrial.
 
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva com mais de 1.500 pessoas no estado de São Paulo revela que 63% dos trabalhadores acreditam que o trabalho formal oferece pouca flexibilidade para equilibrar vida pessoal e profissional. Apenas 11% escolheriam a indústria como setor ideal para trabalhar; o trabalho autônomo lidera com 58%.
 
Renato Meirelles, presidente do instituto, disse à Folha de S.Paulo que “o principal ativo valorizado hoje é o tempo, e a CLT vai na contramão disso”.
 
O tempo é o que vale dinheiro, é o que pode ser rentabilizado para sustentar a família”, disse. “Quando você assina carteira, vem a jornada 6×1, tem a obrigatoriedade de sair em um horário e sair em outro horário. Daí vem uma insatisfação, que não é nova”, frisou.
 
O avanço de plataformas digitais e aplicativos de transporte e entrega abriu novas oportunidades que competem diretamente com o mercado formal. A lógica é clara: “o trabalhador não quer mais perder tempo em deslocamento ou sob rigidez de horários”, disse Meirelles.
 
CLT trouxe avanços; especialistas sugerem melhorias
 
Antes da CLT, não havia jornada de trabalho, salário garantido em caso de doença ou proteção contra o trabalho infantil. A legislação trabalhista foi criada para dar um mínimo de segurança em um país marcado por desigualdade extrema, lembra o historiador Paulo Fontes, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em entrevista ao g1.
 
Ele vê com preocupação os apelos por flexibilização. “Isso tem criado um mundo de trabalho muito mais precarizado. E parte dessa precarização vem com ideologias que culpam a CLT por problemas que são do sistema capitalista.
 
Para ele e para a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, o debate deveria ser sobre como melhorar a CLT — e não eliminá-la. “Temos que mostrar que estudar, trabalhar e se qualificar vale a pena. Isso é o que os países mais desenvolvidos fazem. Mas estamos indo no sentido oposto”, alertou Rosana à reportagem do g1.
 
Nova geração e o estudo
 
Esse fenômeno também tem um componente geracional. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, entre o primeiro trimestre de 2019 e o mesmo período de 2024, 2,5 milhões de jovens entre 14 e 24 anos saíram da força de trabalho – mesmo com o crescimento da população economicamente ativa, segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).
 
Esse fenômeno ocorreu apesar de a força de trabalho total ter crescido em 3,7 milhões no período, estimulada pela maior participação dos mais velhos.
 
A boa notícia, segundo o FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), é que 55% desses jovens passaram a estudar, impulsionados principalmente pela expansão do Bolsa Família a partir de 2022.
 
Na prática, a indústria sofre os efeitos de uma transição. “Os jovens têm mais opções na mesa. O trabalho por conta própria cresceu, e a indústria precisa se adaptar”, disse Marcello Souza, do Senai-SP, à Folha.
 
A participação dos jovens no emprego formal do setor caiu de 21,5% em 2006 para apenas 13% hoje, segundo das do Senai-SP.
 
A curto prazo, especialistas apontam que não há soluções fáceis. A redução de encargos trabalhistas, a reformulação da jornada de trabalho e o aumento dos salários aparecem como alternativas para tornar o regime formal mais atrativo. “A lei da oferta e da procura também vale para o mercado de trabalho”, resumiu Meirelles.
 
Principais achados das pesquisas:
 
       - 59% dos brasileiros preferem trabalhar por conta própria; apenas 39% optam por emprego formal;
       - Apenas 11% escolheriam a indústria como setor ideal para trabalhar;
       - 63% avaliam que o trabalho com carteira assinada oferece pouca flexibilidade;
       - 20,5% das indústrias paulistas não conseguiram contratar novos funcionários;
       - Participação dos jovens no emprego formal industrial caiu de 21,5% (2006) para 13% (2024);
       - 2,5 milhões de jovens deixaram o mercado de trabalho desde 2019;
       - 55% desses jovens estão estudando atualmente.
 
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