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O choro: uma expressão natural da nossa humanidade

23 de junho de 2025 às 11:35

pauta livre
Chorar é uma manifestação orgânica do corpo acionada por alguma emoção, seja ela de alegria, dor, saudade, frustração, entre outras. Pessoas hipersensíveis tendem a chorar com mais facilidade, possuem uma sensibilidade emocional ou sensorial mais vigorosa do que a maioria das pessoas.
 

@ Divulgação
 
A percepção sobre o ato de chorar no percurso histórico da sociedade, em épocas e culturas distintas, tem entendimento diversos. Na antiguidade, o choro em algumas culturas, era visto como fraqueza; a partir do século XIX, com o surgimento da Psicologia, passou a ser reconhecida como expressão natural e saudável do ser humano. O choro foi assim, refletindo as mudanças nas percepções culturais, sociais e científicas sobre as emoções humanas.
 
Entretanto, nos dias atuais, reminiscências conceituais do passado, de maneira banal, é reproduzia em grupos sociais, núcleos familiares, trazendo ao ato de chorar grande estigmas. Então é comum mães e pais ao ver um filho ou filha chorando, de maneira veemente ordenar “engole o choro”. Quando na verdade essas crianças precisariam ser acolhidas, compreendidas naquela expressão. Isso se acentua em forma de tabu quando são homens adultos. A eles, não é permitido chorar. Expressar suas emoções por meio do choro é sinônimo de fraqueza para muitas pessoas. Levando muitos homens a níveis de sofrimento silencioso que pode reverberar no desenvolvimento de doenças que vão somatizando em seu corpo e em sua mente.
 
De modo geral, seja para homens ou mulheres, é comum associar o choro a ideia de fraqueza, instabilidade emocional ou incapacidade de lidar com dificuldades. Esta concepção impregnada socialmente, estabelece julgamentos preconceituosos e cerceadores, levando algumas pessoas a constrangimentos e vergonha de si mesmos. Em razão disso é comum pessoas ao chorarem em público imediatamente pedirem desculpas, como se tivessem feito algo errado, pois já assumem para si uma culpa por permitirem que o choro é parte de sua expressão naquele momento.
 
O choro também é comunicação, quando percebida para além do estigma de fragilidade. A depender do contexto pode representar a profundidade de como determinada situação, pessoa ou circunstância é assumida intimamente pela pessoa; pode ser a expressão de mágoa, ferimento, decepção ou mesmo alegria, percepção de uma música, imagem, cheiro que aciona uma memória afetiva; pode ser a expressão do quanto determinadas circunstâncias ressoa intimamente na pessoa, a partir da sua construção histórico-cultural, e tantas outras possibilidades.
 
Reprimir a manifestação das emoções que ocorrem por meio do choro é aumentar o risco de comprometimento da saúde mental, como ansiedade, depressão e até mesmo o pensamento de interrupção da própria vida. Sobre este último ponto, determinadas profissões intensificam sobremaneira os estigmas em torno da sensibilidade humana, especialmente as ligadas a área militar ou masculinizada. De maneira colonizadora foi-se perpetuando a ideia de que “homens não choram, homens não demonstram vulnerabilidade e suas emoções”. Então, sobre os seus ombros são colocados um peso e cobrança por uma postura que atenda a esta expectativa. Demonstração diferente, é razão de julgamento, exclusão e repreensão.
 
É preciso desconstruir estes pensamentos colonizadores, limitantes. Neste sentido, em ambiente profissional, os líderes têm importante papel nesta desconstrução. Sendo o primeiro a reagir a uma situação de expressão do choro como algo normal, parte da comunicação daquele que ali protagoniza; evidentemente, a depender do contexto da expressão, identificada a motivação, se necessário, fazer acolhimento. Precisamos falar mais sobre determinados assuntos com naturalidade, combatendo qualquer tipo de preconceito. O ser humano é permeado de subjetividades que não podem ser reduzidas a crenças estereotipadas e limitantes.
 
Qualquer profissional, seja mulher ou homem, pode ser mais sensível e nem por isso ser menos profissional que aquele que dificilmente chora. Subestimar a capacidade intelectual ou técnica de um profissional por sua emotividade pode ser um grande risco, pois estes profissionais, normalmente têm uma percepção mais apurada sobre os eventos cotidianos da vida.
 
Numa outra perspectiva as famílias devem ser mais acolhedoras com suas crianças. Muitas vezes os cerceadores sociais que se tem atualmente são construídos em ambientes familiares, que reprime, que negligencia as emoções das crianças. Numa condição inconsciente vão reproduzindo aquilo ao qual foram submetidos em tenra idade.
 
Chorar é parte do humano. O autoconhecimento para reconhecer o que lhe afeta em profundidade ao ponto das lágrimas ser parte da sua comunicação é libertador e lhe empodera de tal maneira que você não mais vai usar uma força contrária e violenta para conter isso dentro de você. Mais que isso, você não pedirá desculpas por suas lágrimas. Ela será uma parte natural de você. 
 
A família, o ambiente profissional e social como um todo precisa romper com estes estigmas, mas o primeiro passo nessa direção é da própria pessoa, que precisa naturalizar como parte de si algo tão profundo e sensível, tão essencial aos tempos atuais que somos imersos a alta tecnologias, máquinas e pessoas cada vez mais aproximando-se da aspereza, mecanicidade e distanciamento em seu modo de ser. Sejamos encorajados a sermos o contraponto, que se permite tocar pela essência e antagonismo humano. Então pedir desculpas pelo choro não tem sentido algum, visto que é real para quem chora. Você carrega uma história única que te constitui até este momento. O choro é mais um complemento à sua comunicação, sua forma de expressão.
 
É preciso se acolher e se respeitar. O que desejamos do mundo precisa estar em nós primeiramente. Não se limite aos rótulos e olhares julgadores, eles revelam mais do outro, do que de nós mesmos, que carregam suas limitações históricas.
 

Por Ananda Lima, professora e membra da ABL