Paraibano, poeta, compositor, violeiro, cantador das sagas brasileiras, esse é Vital Farias, um dos grandes mestres da nossa música que nos deixou no último dia 06 de fevereiro aos 82 anos.
Conheço esse excepcional artista no final da década de 1980 e início dos anos 90 quando ouço os discos Cantoria I e II, através de trocas de informações musicais com os amigos Cleonil Silva e Marcos Antônio do grupo Geração Jovem, meu irmão Ivanildo Miranda e Antônio Sandro Santos, meu parceiro musical, grande compositor e violeiro. Cantoria foi um projeto com os mestres Elomar, Geraldo Azevedo e Xangai. Era um tempo em que ouvíamos muita coisa boa.

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Vital Farias é autor de músicas icônicas do nosso cancioneiro popular. ‘Veja (Margarida)’ é uma das mais conhecidas, quem não se recorda dessa estrofe: “Veja você, arco-íris já mudou de cor, uma rosa nunca mais desabrochou”, poesia pura, um cuidado com a feitura da canção e um diálogo amoroso com a amada Margarida.
‘Ai que saudade de ocê’ é outro hino amoroso feito com muita delicadeza: “Não se admire se um dia, um beija-flor invadir, a porta da tua casa, te der um beijo e partir, fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade d'ocê”. Belo e letra muito refinada.
‘Canção em Dois Tempos’ nos convida a refletir que o “real e a fantasia, se separam no final”. ‘Sete Cantigas Para Voar’ provoca sobre viver livre, voando no sertão e o paradoxo da urbanidade que quer controlar e engaiolar tudo: “Cantiga de campo de concentração, a gente bem sente com precisão, mas recordo a tua imagem, naquela viagem que eu fiz pro sertão, eu que nasci na floresta, canto e faço festa, no seu coração, voa, voa, azulão, voa, voa, azulão”. Em ‘Cantilena de Lua Cheia’ é poesia profunda, Nordeste profundo: “Deus esteja nessa casa, em formato e coração, coração feito um menino, nordestino o destino”.
Na música 'Saga da Amazônia’, Vital Farias começa com a seguinte frase: “Só é cantador quem traz no peito, o cheiro e a cor da sua terra, a marca de sangue dos seus mortos e a certeza de luta dos seus vivos”. A canção retrata a destruição da Floresta Amazônica. “Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta, veio caipora de fora para a mata definhar, e trouxe dragão de ferro pra comer muita madeira, e trouxe em estilo gigante pra acabar com a capoeira, fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar”. Vital já denunciava a destruição desse nosso grande bem ambiental.
Caminhando para a conclusão, sei que a obra de Vital Farias é muito extensa, mas finalizo esse texto com a canção que desde a primeira vez que ouvi me deixou profundamente emocionado e ainda causa catarse. A ‘Saga de Severinin’ nos convida a pensar sobre a luta pela terra, a resistência dos trabalhadores rurais e, sobretudo, os Trabalhadores Rurais Sem Terra que lutam por justiça (reforma) agrária e dignidade.
Severinin vivia alegre no seu chão até o fazendeiro chegar e colocar esse sertanejo para fora do seu habitat natural. “Falo de Severinin lavrador tão popular, que morava numa palhoça, e cultivava uma roça perto de Taperoá”, “Severinin vivia até feliz, enchendo os olhos com bem d'rais”. Nesse momento da canção Vital afirma que “Severinin todo dia lavrava a terra macia, e terra lavrada é poesia”, ou seja, vida bem vivida é poesia. Mas, o pior acontece e “depois de tudo plantado, fazendeiro pede pra Severinin desocupar”, então Severinin grita: “Chega tanta incerteza, a alma presa quer se soltar, luta, luta sozinho, qual o caminho de libertar”. Só em coletividade mudaremos alguma coisa, sozinhos teremos o mesmo fim de ‘Severinin’.
Viva Vital Farias, obrigado por tudo, por educar gerações e gerações com suas canções cheias de questões sobre a realidade social brasileira e sobre o amor na sua forma leve, poética e filosófica. Vá em paz “Virias Fatal” como você era chamado por seus companheiros de Cantoria.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Professor. E-mail: ivanvisk@gmail.com
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