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Tudo era Gerais e os Gerais eram de todos: a destruição do Cerrado e o fim do mundo
28/10/2021 as 20:07 h  Autor Editoria  Imprimir Imprimir

Cerrado: destruição acelerada | Foto: Reprodução
 
A pujança do capital predatório foi colocando
os chapadões centrais da América do Sul no mapa da
economia internacional. Com o tempo, modificações
aceleradas foram acontecendo
 
Há cerca de duas ou três gerações, o Cerrado que ocupava os chapadões centrais da América do Sul ainda se nos apresentava, quase em sua totalidade, intacto. A configuração era separada aqui e ali por alguns núcleos urbanos, poucos já com porte de cidade grande, mas a maioria se tratava de núcleos pequenos. Não existiam estradas asfaltadas cortando o ambiente de norte a sul, de leste a oeste, também as estradas de terra eram poucas. Os lugares eram longínquos, e a felicidade ditava as normas do comportamento da gente do lugar. Extensas campinas, veredas, sertões e tabuleiros e ermos formavam o que a população denominava Gerais.
 
Em meio a esse vazio humano, variadas comunidades vegetais e animais davam as graças, ladeadas pelos córregos, lagoas e rios de águas cristalinas. Lá pelos fundões e ermos, existiam pequenos povoados, onde as gentes eram amparadas. Esses povoados se situavam de forma quase que equidistante e poderiam ser alcançados após um dia a cavalo.
 
A economia ali era um misto de subsistência e extrativismo, sendo que a atividade extrativista era principalmente baseada na coleta e no processamento de frutos variados, entre os quais pequi, buriti, mangaba, cajuí, puçá, e também na fabricação de rosários de cocos da palmeira licuri e da castanha do pequi.
 
A subsistência era representada por paisagens com pequenos roçados nos fundos dos quintais, irrigados por um rego d’água oriundo das partes mais altas de um riacho, ou rio, e pela criação de poucas cabeças de gado e outros animais domésticos. 
 
Cerrado “acuado” pela agricultura | Foto: Reprodução
 
A vida dos homens se resumia na lida com pouco gado, no cuidar das plantações, dos negócios e dos pequenos comércios ali existentes.
 
Vez ou outra, andarilhos e algumas andarilhas zanzavam por entre os povoados. Alguns eram adotados pela população e se tornavam patrimônios do lugar. Um desses era conhecido por onde passava pelo apelido de Zuza Doido.
 
Zuza Doido era um andarilho do Cerrado, ninguém sabia sua origem.  Não tinha moradia, vivia perambulando pelos gerais e, às vezes, segundo o próprio, partia da foz de um rio e ia até as suas cabeceiras, como falava. Quando estava muito cansado, fazia pouso em algum lugar desabitado e se transformava numa espécie de inquilino provisório daquele local. O apelido lhe foi dado pela gente de algum povoado, onde vez ou outra aparecia e onde ficava alguns poucos dias.
 
Ele parecia ser grande observador, sabia distinguir em detalhes as plantas do Cerrado, atribuindo a cada uma nome apropriado. Da mesma forma explicava as diferenças entre os animais, falava sobre os dentes destes, sobre a pele, a cor, os sons e os hábitos. Era na realidade um professor nato de história natural, mas, em virtude dos trajes maltrapilhos, poucos prestavam atenção aos seus causos recheados de sabedoria. 
 
Pintura de John Martin sobre o apocalipse
 
Zuza Doido era pacífico, não fazia mal a ninguém, e gostava de ensinar novidades que advinham da observação. Ficava feliz quando alguém lhe dava uma muda de roupa, ou um cobertor de algodão. Certa vez, dançou de alegria quando ganhou uma rede de presente e um velho alforje.
 
Assim era Zuza. Chegava, depois sumia, e ficava tempos sem aparecer.
 
Um belo dia, em época mais recente, chega a alguns daqueles povoados a energia elétrica. O dono de um comércio próspero logo adquire um aparelho de rádio. À noite, muitos moradores vão ao seu comércio ouvir notícias de outras terras que eles jamais imaginavam existir. E, num misto de alegria, confusão e sabedoria, saem comentando aquelas notícias.
 
Aquele aparelho, além de outras informações, trouxe a notícia de que o governador da região, com a presença de altos políticos, grandes empresários e autoridades eclesiásticas, iria inaugurar lá para as bandas das campinas e das nascentes dos riachos um grande empreendimento, com imensas áreas a serem plantadas.
 
Logo o mito do emprego e do enriquecimento fácil chegou ao ar, trazido pelas ondas curtas dos aparelhos de rádio que, àquela altura, já se haviam espalhado pelo povoado. As novas músicas trazidas pelo rádio já eram uma diversão maior que todos os festejos e tradições do lugar, que aos poucos foram minguando.
 
A atração do lugar inaugurado pelo governador foi maior, e a população ativa foi migrando. Dizem que os rapazes trabalham de empreita nas grandes empresas e contraem dívidas que os deixam atrelados ao patrão, sem poderem retornar ou buscar outro rumo. Dizem que ninguém conhece os patrões, mas que estes têm jagunços e capatazes ferozes que são capazes de qualquer atitude.
 
As mocinhas se prostituíram nos postos de gasolina, nas borracharias, nos bares e em outras edificações que se multiplicavam a cada dia que passava ao longo das rodovias que paulatinamente foram sendo implantadas. As mais velhas se tornaram empregadas domésticas, em casas de piso brilhante, nas novas cidades emergentes.
 
Cada colheita das novas plantações superava a anterior.
 
O grande governo do Brasil com seus ministros, sem visão da totalidade, se vangloria com as exportações cada vez mais crescentes. As plantações eram bonitas de se ver, todas arrumadinhas e grandiosas. Para serem feitas eram necessárias grandes máquinas, acorrentadas, para arrancarem as plantas que ali existiam. Era tanta planta derrubada em uma área tão grande que era difícil de acreditar que o mundo tivesse aquele tamanho.
 
Junto àquelas plantações começaram a surgir carvoarias. No início, para produzir carvão das plantas derrubadas, depois continuaram derrubando noutras áreas. E assim a pujança de um capital predatório foi colocando os chapadões centrais da América do Sul no mapa da economia internacional. Com o tempo, modificações aceleradas foram acontecendo. 
 
Pintura de Gustave Courbet
 
O “fim do mundo” visto por Zuza Doido
 
Tudo se acelerou e eis que numa tarde nublada, lá pras bandas de um dos povoados, já era tardinha quando alguém avistou, numa pinguela do Rio Formoso, Zuza Doido chegando, com seu andar já meio trôpego, carcomido pelo tempo.
 
Sentou-se à porta da pensão do povoado, bebeu água, alimentou-se de um cuscuz com leite e, após alguns momentos, começou a falar:
 
Sempre contei a vocês histórias de plantas, bichos, água e terra, mas o que eu vi agora, lá para as bandas das cabeceiras do Lagoão, descendo a serra no rumo do Riachão, são coisas de arrepiar. Algo estarrecedor me chamou atenção. Fiquei impressionado, porque nas minhas andanças pelo Cerrado achava que já tinha visto de tudo. Todavia, meus amigos, eu sei que vocês acham que sou doido varrido, porque não tenho moradia, ando pelos quatro cantos dos Gerais. Fiz desse meu viver uma opção de vida, depois que sofri uma grande desilusão, que prefiro não contar para vocês, para poupá-los do sofrimento alheio. Mas eu vim de uma família rica, que morava lá para as bandas do mar, estudei nas melhores escolas e, quando terminei meu curso na faculdade, a vida me passou uma rasteira. Mas aprendi que, quando algo muito ruim acontece, temos duas escolhas: nos destruir ou nos fortalecer. Eu resolvi me fortalecer. Ser forte não é labuta fácil, mas cada um consegue encontrar uma força maior, que nos torna capaz de suportar e largar aquilo que nos fere.
 
Há certo tempo que só precisamos de mais um tempo, para assimilar, recontar, reviver…
 
Tem horas que as horas no balanço do relógio fazem o tempo voar, num vai e vem, a brisa da noite chega na janela da varanda, apenas um balanço, uma rede e um relógio na parede; outrora já se passou mais meia hora, e o tic tac a zoar, um vasto vazio, a falta de alguém, os sonhos vividos, os amigos esquecidos… e a vida vai andando nas setas do relógio, se a gente não se apressar, pode chegar atrasado e nem mais vestígios da felicidade nós vamos encontrar.
 
Este sou eu, não sou doido e aprendi a me juntar aos bons para crescer. Mas o que vou contar agora é a coisa mais impressionante que um vivente já viu. Vi com estes olhos que me ‘alumeiam’.
 
Quando passei a orla de taquari, que mascarava o paredão de calcário, vi o inferno se descortinar à minha frente. Dezenas de máquinas possantes acorrentadas atirando ao chão todas as espécies de plantas que estavam em pé. Não acreditei no que vi. Naquele momento, várias imagens passaram pela minha memória, ilustrada por animais, plantas dos remédios, frutas, resinas, ninhos de passarinhos, rios e muitos outros mundões.
 
Olha, eu vi o fim do mundo!
 
Diante daquele panorama, foi me dando uma tonteira!
 
Não sei se tenho forças para enfrentar o exército de jagunços que está tirando do povo do Gerais suas plantas, seus frutos aromáticos, suas ervas medicinais, suas águas, com a ajuda de pessoas do local, que vendem suas almas e seus ideais.
 
A coisa mais triste, mais humilhante que pode acontecer ao ser humano é vender seus ideais, seus sonhos, seus amigos, e isso jamais acontecerá comigo.
 
Portanto, meus irmãos, vim aqui para me unir aos que têm boa vontade, porque no dia que os pássaros esconderem suas asas, o pequizeiro chorar sua sombra, a borboleta começar a vigiar a rosa e o caminho não levar à fonte, seremos prisioneiros em nossos territórios, prisioneiros de inimigos que sequer conhecemos.
 
Por Altair Sales Barbosa é sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, pesquisador do CNPq, pesquisador Convidado da Universidade Evangélica de Goiás. É colaborador do Jornal Opção. 

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