Novoeste on-line - Onde o Oeste da Bahia é Notícia
> Principal > Artigos > Pauta Livre > Os livros de História e seus leitores
 
Os livros de História e seus leitores
27/07/2017 as 10:54 h  Autor Daniel Medeiros  Imprimir Imprimir
Certa vez, fui visitar o túmulo do rei D. Pedro I, no mosteiro de Alcobaça, próximo a Lisboa. Atrás de mim, um casal de brasileiros trocava entre si as seguintes impressões sobre o personagem histórico: “É o nosso D. Pedro?” “Sim – disse o outro – o do Descobrimento”. É fato que me diverti com esse diálogo e o contei para professores amigos meus. “Imagina, olha o nível dos caras”, devo ter dito uma ou duas vezes. Que bobo esse tipo de comentário. O meu. Afinal, que importância isso tem? Por que é necessário conhecer esse tipo de passado? Creio que se há alguma importância em conhecer o passado é para que esse conhecimento nos ajude a superar algo que está aqui, no presente. Por isso, saber detalhes e nomes, lugares e batalhas pode ser tão inútil quanto repetir de memória a escalação da seleção brasileira de 1954.

A História que merece ser conhecida é justamente aquela que é despertada pelas perguntas que fazemos no presente. O passado deve ser sempre acessado para ajudar a entender o que nos incomoda, o que não compreendemos a respeito do que nos cerca. Por exemplo: por que temos uma educação com qualidade tão ruim? Por que nossa saúde pública é tão precária? Por que não exploramos mais as ferrovias e hidrovias? Por que somos uma Federação tão pouco federativa? Por que matamos tanto no trânsito? Por que somos um país mestiço tão preconceituoso? Por que mantemos o nome de ditadores nas praças e ruas? Por que acreditamos que um monarca que manteve a escravidão durante 48 de seus 49 anos de reinado foi tão bom? Perguntas, perguntas. Esse é o passe-livre para o passado. E isso determina a sua importância.

Logo, se há algo que é preciso ensinar nas aulas de História, para as crianças e para os jovens, é sobre fazer perguntas. A passividade que muitos expressam diante da realidade que nos cerca, como se tudo o que ocorre fosse um dado, algo natural - como diria o poeta -, “eis o cadáver”. É aí, no despertar para o caráter contingente do nosso presente e sua possibilidade de ser diferente, é que está o jogo para ser jogado. E urgentemente. Se não há questionamento, a História não passa de anedota, curiosidade, conversa de salão. Divertida e fútil. Ou pior, panfletária e unidirecional. E, nesses casos, não adianta  o professor afirmar que são os “jovens que não se importam com mais nada”. Primeiro, porque não é verdade. Os jovens, via de regra, não sabem é como expressar suas decepções diante das coisas, ou o fazem usando os recursos que dispõem (o que facilita a muitos professores querer aparelha-los, doutriná-los). Cabe aos mais velhos, isso sim,  oferecer repertórios para viabilizar a construção de novos diálogos e discursos. E o ponto de partida para isso é, sem dúvida, contextualizar os fatos, desnaturalizá-los, historicizá-los, devolver a eles a “cauda longa” que a falta de interesse e o espírito de detetive impede, muitas vezes, que vejamos e compreendamos.

Os livros de História não deveriam fazer muitas afirmações. Deveriam fazer muitas perguntas. E oferecer muitas pistas. Múltiplas, diversas perspectivas sobre os fatos, indícios sobre esses acontecimentos que não podemos mais reviver, mas que podem nos ajudar a compreender melhor o momento no qual vivemos e como podemos enfrentá-lo, modificando-o, preservando-o. Inês é morta (pobre D. Pedro!), mas há tempo para que a História sirva o presente como companheira na jornada por um país e uma sociedade melhores. Não adianta bons livros sem bons leitores. E bons leitores surgem com bons livros. Temos, portanto, imensa responsabilidade. E muito trabalho pela frente.
 




Daniel Medeiros
é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

Comente via Facebook
Mais Artigos
No h comentrios.
img
img
RSS  Artigos Artigos

O escritor foi e ainda é, para as crianças que estão começando a descortinar o infinito horizonte da palavra, algo inatingível, meio mágico, talvez mítico.Isso, dito por elas mesmas. A criança é naturalmente curiosa, sedenta de conhecimento e experiência, e ficar cara a cara com...
Na civilização humana, em todos os tempos as gesticulações passaram a simbolizar determinados comportamentos e construir significados diversos para cada sociedade e para cada povo. Gestos humanos servem tanto para simbolizar comportamentos positivos, bem como...
https://www.novoeste.com/uploads/image/artigos_gaudencio-torquato_jornalista-professor-usp-consultor-politico.jpgHoje, tomo a liberdade de fazer uma reflexão sobre a vida. Valho-me, inicialmente, de Sêneca com seu puxão de orelhas: “somos gerados para uma curta existência.  A vida é breve e a arte é longa. Está errado. Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa...
A presidenta do Instituto Justiça Fiscal aponta o falso dilema para a escolha eleitoral de 2022 e indica as fontes de custeio para vencer o quadro desolador de fragilidade da maioria do povo brasileiro. A próxima eleição, se ocorrer, certamente exigirá muito de nós. Mas não será uma escolha difícil. Para começar, terceira via não existe! Ou melhor: existe, em Bolsonaro. Este, que pode parecer insano, sádico, intratável, joga o jogo e...
A Constituição Cidadã erigiu a dignidade da pessoa humana como seu fundamento, ao lado da soberania, cidadania, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Trata-se, portanto, de um dos pilares que legitimam o Estado Social e Democrático que fundou....
img
img
img
PUBLICAÇÕES RECENTES
img




img



img
img
img
CASAS img LOTES img FAZENDAS
img
CHÁCARAS img PRÉDIOS COMERCIAIS img GALPÕES
img
RSS  Dicas de Leitura Dicas de leitura
img
Ambientado em uma comunidade japonesa de São Paulo, lançamento ficcional da escritora Juliana Marinho promove o poder da música como intervenção para cura de doenças. A musicoterapia, união da arte e saúde em busca da reabilitação ou promoção do bem-estar, é a responsável...
Por meio da personagem Malu, as escritoras e letrólogas paulistas Nanda Mateus e Raphaela Comisso dialogam com as crianças sobre diversidade familiar e desmistificam a homoparentalidade. Nanda Mateus trabalha com educação e inovação em tecnologias para...
Existem músicas para os momentos felizes, tristes e até aquelas que marcam datas especiais, mas para Melody King é diferente: as canções são uma consequência — infelizmente incontrolável — de uma rara doença. As dificuldades em lidar com as embaraçosas situações,...
img
img
RSS  Top Vdeos Top Vídeos
img
Thumbnail
img
img
img
RSS  Classificados Classificados
img
img
img



RSS GOOGLE + YOUTUBE TWITTER FACEBOOK