Novoeste on-line - Onde o Oeste da Bahia é Notícia
> Principal > Artigos > Pauta Livre > Professor, você ainda está aí?
 
Professor, você ainda está aí?
13/10/2016 as 08:24 h  Autor Daniel Medeiros  Imprimir Imprimir
Eu menino, tímido, filho de um sargento e de uma dona de casa, morando no limite da periferia, a maior favela da cidade era a minha varanda, uma avenida de ônibus e caminhões, o meu quintal. A escola era o meu remanso, meu espaço de construção da utopia que povoava meus sonhos já tão intensos. Mas eu não tinha palavras para dar ao que habitava meus pensamentos. Carecia de conceitos, fundamentos. Tudo era só mangas e cajus, areia e céu sem nuvens, formigas e lagartas, sujeira e muros, asfalto, cheiro de fumaça azulada. Insônias e temores.

A escola era o oásis do deserto do cotidiano de dores. Da porta para dentro, havia adultos que olhavam para mim, perguntavam o que eu sabia e se eu tinha alguma pergunta. Havia livros com imagens do universo e dos micróbios, dos macacos de olhos claros e das doenças que arrepiavam os pelos dos meus braços. Havia a estória de baleia, a cachorra que sonhava com preás e que me fez desejar pela primeira vez, ser escritor. Havia desenhos, ângulos, fórmulas, havia colegas com olhos de fascínio e desconhecimento, medo e avidez por um campo que se abria e florava (cactos) e ficava cada vez mais árduo e quente, intenso e áspero.

E havia aqueles adultos que não me negavam o tempo, o espaço, a moldura de quadros de outras épocas, visões do paraíso e do purgatório, “deus ao mar, o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.” E eu bebia e não me fartava.

O que seria de quem eu sou se não fossem aqueles adultos cujos nomes me escapam mas cuja tessitura de minha alma tem fios de seus corpos entrelaçados?

O que seria de quem eu sempre quis ser sem horizontes alargados por seus repertórios e consciências?

O que seria de quem ainda sonho em ser sem o compromisso que acertei silenciosamente com eles de não deixar romper o elo da corrente?

Professores! Desde a primeira, a quem ainda chamava “tia”, tia Adla, que um dia, nos meus parcos 7 anos, disse-me as primeiras palavras de incentivo. E o professor Albuquerque, sisudo, seco como o Fabiano que me apresentou, seiva em minha vida seca de guri sem graça. E o professor Teixeira que nos impunha provas orais, pânico antes da convocação, glória depois das respostas dadas à custa de noites mal dormidas. O professor Alcides, observador arguto de minhas letras ainda tortas mas aparentemente promissoras. E outras e outros. Minha vida é um mosaico de suas palavras e entregas.

E aí, 15 de outubro, dizem-me: “feliz dia do professor”. E eu apenas sorrio, ainda tímido, meus pais ainda vivos e orgulhosos do filho “famoso”, que aparece na TV e escreve pros jornais.

Mas meu sorriso é para eles. Mestres da minha vida. Estradas. Meu caminhar não seria mais do que quebrar galhos e tropeçar em minhas próprias pernas sem seus olhares carinhosos, atentos, severos, honestos, profundos, responsáveis.

E há quem pense ser possível esse país ser algo sem que eles estejam à frente.

Ah, quimera. Ah. Que lástima.




Daniel Medeiros é Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Professor do Curso Positivo, trabalha com esse sonho há 32 anos.

Comente via Facebook
Mais Artigos
No h comentrios.
img
img
RSS  Artigos Artigos

O escritor foi e ainda é, para as crianças que estão começando a descortinar o infinito horizonte da palavra, algo inatingível, meio mágico, talvez mítico.Isso, dito por elas mesmas. A criança é naturalmente curiosa, sedenta de conhecimento e experiência, e ficar cara a cara com...
Na civilização humana, em todos os tempos as gesticulações passaram a simbolizar determinados comportamentos e construir significados diversos para cada sociedade e para cada povo. Gestos humanos servem tanto para simbolizar comportamentos positivos, bem como...
https://www.novoeste.com/uploads/image/artigos_gaudencio-torquato_jornalista-professor-usp-consultor-politico.jpgHoje, tomo a liberdade de fazer uma reflexão sobre a vida. Valho-me, inicialmente, de Sêneca com seu puxão de orelhas: “somos gerados para uma curta existência.  A vida é breve e a arte é longa. Está errado. Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa...
A presidenta do Instituto Justiça Fiscal aponta o falso dilema para a escolha eleitoral de 2022 e indica as fontes de custeio para vencer o quadro desolador de fragilidade da maioria do povo brasileiro. A próxima eleição, se ocorrer, certamente exigirá muito de nós. Mas não será uma escolha difícil. Para começar, terceira via não existe! Ou melhor: existe, em Bolsonaro. Este, que pode parecer insano, sádico, intratável, joga o jogo e...
A Constituição Cidadã erigiu a dignidade da pessoa humana como seu fundamento, ao lado da soberania, cidadania, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Trata-se, portanto, de um dos pilares que legitimam o Estado Social e Democrático que fundou....
img
img
img
PUBLICAÇÕES RECENTES
img




img



img
img
img
CASAS img LOTES img FAZENDAS
img
CHÁCARAS img PRÉDIOS COMERCIAIS img GALPÕES
img
RSS  Dicas de Leitura Dicas de leitura
img
Ambientado em uma comunidade japonesa de São Paulo, lançamento ficcional da escritora Juliana Marinho promove o poder da música como intervenção para cura de doenças. A musicoterapia, união da arte e saúde em busca da reabilitação ou promoção do bem-estar, é a responsável...
Por meio da personagem Malu, as escritoras e letrólogas paulistas Nanda Mateus e Raphaela Comisso dialogam com as crianças sobre diversidade familiar e desmistificam a homoparentalidade. Nanda Mateus trabalha com educação e inovação em tecnologias para...
Existem músicas para os momentos felizes, tristes e até aquelas que marcam datas especiais, mas para Melody King é diferente: as canções são uma consequência — infelizmente incontrolável — de uma rara doença. As dificuldades em lidar com as embaraçosas situações,...
img
img
RSS  Top Vdeos Top Vídeos
img
Thumbnail
img
img
img
RSS  Classificados Classificados
img
img
img



RSS GOOGLE + YOUTUBE TWITTER FACEBOOK