Novoeste on-line - Onde o Oeste da Bahia é Notícia
> Principal > Artigos > Pauta Livre > “A face fêmea e popular do 2 de Julho”
 
“A face fêmea e popular do 2 de Julho”
06/07/2016 as 17:56 h  Autor Olívia Santana  Imprimir Imprimir
É notável a presença de ícones femininos na fascinante história da Independência da Bahia. A guerra era, e ainda é, um negócio dos homens, mas Maria Quitéria, símbolo maior dessa campanha, mulher determinada, teve que se metamorfosear com trajes masculinos para aparecer como líder de batalhas libertárias memoráveis, que consolidaram na Bahia a Independência do Brasil.

A soror Joana Angélica fez o que muitos homens não fariam: intrépida, protegeu com o próprio corpo as portas do Convento da Lapa, para impedir a passagem das tropas que estavam à procura de combatentes escondidos, e foi, então, covarde e brutalmente assassinada.

Maria Felipa, com sua experiência guerreira de negra quilombola, deixou na memória popular das filhas e filhos da Ilha de Itaparica as narrativas assombrosas de embarcações queimadas e inimigos surrados com feixes de cansanção. Na Bahia se diz que o povo aumenta, mas não inventa. Muitos são os causos sobre ela, que acabou despertando o interesse de pesquisadoras e historiadoras comprometidas com o resgate da participação negra na história.

Conquistada a Independência, o que se viu foi o desfile vitorioso de um Exército Libertador formado de gente simples, em sua maioria negros escravizados, forros, mestiços e índios Tupinambás. Entende-se assim, o ofício em que o general Labatut informou ao ministro José Bonifácio que "nenhum filho de proprietário rico havia se apresentado como voluntário".

Na continuidade, o povo se insurgiu contra todas as tentativas das elites de subtrair das comemorações oficiais a verdadeira face popular dos que protagonizaram a saga da Independência. Assim, por volta de 1826, para simbolizar os heróis anônimos que esmagaram o poderia português, foi introduzido no cortejo oficial a figura do caboclo.

A cabocla, que representa a Índia Paraguaçu, hoje símbolo maior do desfile, foi incorporada aos festejos oficiais da Independência muitos anos depois, em 1846, para amenizar as contradições frente aos vencidos portugueses. Coisa pensada por uma elite local portuguesa de origem, ou dela descendente.

Entretanto, o povo resignificou tudo isso e vê as imagens como guardiãs da nossa liberdade.

O 2 de Julho também é a data em que ocorre as grandes festas de Caboclo dos terreiros de Candomblé de Angola, de herança Bantu, que se entrelaça com a espiritualidade indígena. Porém, muitos terreiros das nações Ketu e Jêje também tocam seus tambores em grades rituais.

A figura da Cabocla, durante todo o cortejo oficial da festa da Independência, é , sem dúvida, a mais reverenciada, sendo comum ouvir pessoas dizerem que vão ao 2 de Julho ver a Cabocla. Famílias inteiras com suas crianças vivenciam a festa com entusiasmo, esperando a imagem passar no carro adornado por muitas palmeiras, ostentando as bandeiras da Bahia e do Brasil. E, Dias depois, as imagens fazem o percurso inverso; são levadas do Campo Grande para serem guardadas no Pavilhão 2 de Julho, na Lapinha, sob a guarda do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Este também é um ritual tradicional, conhecido como "A Volta da Cabocla", ainda que o caboclo também volte junto.

Assim, irreversivelmente o 2 de julho entrou para a história com face de povo e fisionomia de mulher; e os machistas e elitistas que não gostarem, façam como recomenda o ditado popular: vão chorar no pé do caboclo.





Olívia Santana. Secretária Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres da Bahia.

Comente via Facebook
Mais Artigos
Não há comentários.
img
img
RSS  Artigos Artigos

O escritor foi e ainda é, para as crianças que estão começando a descortinar o infinito horizonte da palavra, algo inatingível, meio mágico, talvez mítico.Isso, dito por elas mesmas. A criança é naturalmente curiosa, sedenta de conhecimento e experiência, e ficar cara a cara com...
Na civilização humana, em todos os tempos as gesticulações passaram a simbolizar determinados comportamentos e construir significados diversos para cada sociedade e para cada povo. Gestos humanos servem tanto para simbolizar comportamentos positivos, bem como...
https://www.novoeste.com/uploads/image/artigos_gaudencio-torquato_jornalista-professor-usp-consultor-politico.jpgHoje, tomo a liberdade de fazer uma reflexão sobre a vida. Valho-me, inicialmente, de Sêneca com seu puxão de orelhas: “somos gerados para uma curta existência.  A vida é breve e a arte é longa. Está errado. Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa...
A presidenta do Instituto Justiça Fiscal aponta o falso dilema para a escolha eleitoral de 2022 e indica as fontes de custeio para vencer o quadro desolador de fragilidade da maioria do povo brasileiro. A próxima eleição, se ocorrer, certamente exigirá muito de nós. Mas não será uma escolha difícil. Para começar, terceira via não existe! Ou melhor: existe, em Bolsonaro. Este, que pode parecer insano, sádico, intratável, joga o jogo e...
A Constituição Cidadã erigiu a dignidade da pessoa humana como seu fundamento, ao lado da soberania, cidadania, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Trata-se, portanto, de um dos pilares que legitimam o Estado Social e Democrático que fundou....
img
img
img
PUBLICAÇÕES RECENTES
img




img



img
img
img
CASAS img LOTES img FAZENDAS
img
CHÁCARAS img PRÉDIOS COMERCIAIS img GALPÕES
img
RSS  Dicas de Leitura Dicas de leitura
img
Ambientado em uma comunidade japonesa de São Paulo, lançamento ficcional da escritora Juliana Marinho promove o poder da música como intervenção para cura de doenças. A musicoterapia, união da arte e saúde em busca da reabilitação ou promoção do bem-estar, é a responsável...
Por meio da personagem Malu, as escritoras e letrólogas paulistas Nanda Mateus e Raphaela Comisso dialogam com as crianças sobre diversidade familiar e desmistificam a homoparentalidade. Nanda Mateus trabalha com educação e inovação em tecnologias para...
Existem músicas para os momentos felizes, tristes e até aquelas que marcam datas especiais, mas para Melody King é diferente: as canções são uma consequência — infelizmente incontrolável — de uma rara doença. As dificuldades em lidar com as embaraçosas situações,...
img
img
RSS  Top Vídeos Top Vídeos
img
Thumbnail
img
img
img
RSS  Classificados Classificados
img
img
img



RSS GOOGLE + YOUTUBE TWITTER FACEBOOK