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A bruxa ainda está solta
29/02/2016 as 17:17 h  Autor Claudio Spadotto  Imprimir Imprimir
Um fazendeiro, considerado rico, procurou um amigo para falar-lhe de um assunto delicado. “Estou precisando de dinheiro e confio na nossa velha amizade, na certeza de que você vai me ajudar”, disse o fazendeiro. O amigo se prontificou a emprestar uma certa quantia, imaginando tratar-se de R$ 10 mil ou R$ 20 mil. “De quanto você precisa?”, indagou, ao que o fazendeiro respondeu, cabeça baixa: “De uns R$ 200. É pra fazer a feira semanal lá em casa.”

Esse trecho foi publicado no jornal Gazeta Mercantil, em 12 de abril de 1995 e retrata a decadência das fazendas de cacau no Sul da Bahia na década de 1990. Hoje a produção brasileira de amêndoas de cacau não é suficiente para atender a demanda interna.

A chegada (ou introdução intencional) da doença conhecida como “vassoura-de-bruxa” foi um duríssimo golpe na já enfraquecida economia cacaueira nas cercanias de Ilhéus na Bahia, por conta dos baixos preços no mercado internacional e das poucas chuvas e sol escaldante na região. Como a vassoura-de-bruxa, causada por um fungo, apodrece os frutos, a safra despencou, a rentabilidade minguou, os fazendeiros se afundaram em dívidas, a arrecadação caiu e milhares de trabalhadores e seus familiares ficaram sem seus sustentos. Um gravíssimo problema econômico e social se instalou.

Ano passado três novas pragas agrícolas foram encontradas nas nossas lavouras; 35 nos últimos dez anos. Pode-se dizer que outras tantas estão a caminho. São chamadas pragas quarentenárias, algumas ausentes do País, outras já estão por aqui, mas em regiões delimitadas. Estima-se que 600 espécies dessas pragas (insetos, ácaros, fungos, bactérias, plantas...) têm potencial de causar danos significativos à agricultura brasileira. Delas, 150 espécies já ocorrem em pelo menos um país da América do Sul e podem entrar no Brasil de diferentes maneiras.

O Ministério da Agricultura tem adotado medidas para reforçar a prevenção da entrada e do estabelecimento de pragas quarentenárias. Ações de fiscalização e controle em portos, aeroportos e postos de fronteira na inspeção de produtos agrícolas que caracterizem risco compõem os Planos de Contingência, com medidas preventivas e emergenciais para erradicação de focos e contenção da praga.

Quais pragas estão por vir? Por onde podem ingressar e se estabelecer nas nossas lavouras?

Num país como o Brasil, com vasto território, extensas fronteiras e intensas relações comerciais com outros países, não deveríamos abrir mão da identificação e caracterização das possíveis vias de acesso de pragas, juntamente com a localização das lavouras ameaçadas.

Existem regiões do Brasil com grande produção agrícola, onde lavouras ameaçadas por pragas ainda ausentes estão próximas a interseções de rodovias, ferrovias ou hidrovias na fronteira com países vizinhos, como na divisa do Mato Grosso com a Bolívia. Há regiões com necessidade do aumento do número de postos de controle e intensificação das medidas de vigilância fitossanitária, como nas divisas do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e com a Bolívia. Outra situação é quando ocorre pelo menos uma das culturas ameaçadas com grande produção, longe da faixa de fronteira, mas em região com porto ou aeroporto próximo, como na região oeste da Bahia e no centro-sul do Pará.

A Embrapa, na sua unidade de Gestão Territorial, possui uma base de dados georreferenciados que permite analisar as prováveis vias de ingresso de pragas no País e por onde a disseminação é facilitada, como as rodovias federais e estaduais. Dessa forma, os postos do Ministério da Agricultura e postos de vigilância fitossanitária estaduais podem atuar de forma conjunta e coordenada na prevenção da entrada ou do estabelecimento de pragas quarentenárias.

Já foram identificadas 364 vias de possível ingresso terrestre de pragas vindas de países vizinhos, em interseções da fronteira com estradas e rodovias e 26 locais na região de fronteira passíveis de ingresso de pragas por meio de embarcações. O grande número de aeródromos (são 519 aeroportos e campos de pouso e decolagem), localizados na faixa de fronteira, majoritariamente de propriedade privada, alerta para a necessidade de reforço na vigilância e controle das possíveis entradas de pragas por transporte aéreo.

Dessa forma, poderemos aperfeiçoar nossa capacidade de antever e agir pró-ativamente frente às várias ameaças de pragas quarentenárias, racionalizando nossa vigilância sanitária vegetal.

Claudio Spadotto, membro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e gerente geral da Embrapa Gestão Territorial.

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