Novoeste on-line - Onde o Oeste da Bahia é Notícia
> Principal > Artigos > Pauta Livre > O fantasma do Impeachment
 
O fantasma do Impeachment
03/12/2015 as 20:19 h  Autor Rodrigo Augusto Prando  Imprimir Imprimir
Ontem, 03/12, o Governo Dilma entrou em estado de alerta máximo. Eduardo Cunha, Presidente da Câmara dos Deputados, resolveu dar continuidade a um dos vários processos de impeachment enviados àquela Casa. Neste pedido, em especial, Cunha afirmou que, neste caso, compreendeu existir indícios evidentes de descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. O momento reclama, antes de tudo, reflexões menos apaixonadas.

Escrevi, alhures, que o Governo Dilma era um “governo em compasso de espera”, pois aguardava julgamento das contas pelo TCU (que foram rejeitadas), espera a investigação do STE para uma possível cassação da chapa Dilma-Temer, aguarda os resultados da Lava-Jato que, quase semanalmente, foi derrubando importantes nomes do empresariado e do mundo político, e, por fim, estava em compasso de espera em relação aos vários pedidos de impeachment enviados à Câmara dos Deputados.

Eduardo Cunha, como bem sabemos, tem sua conduta sob suspeita de atos ilícitos, como, por exemplo, contas bancárias no exterior não declaradas e de ter mentido para os seus pares quando questionado sobre tais contas. Por isso, o Conselho de Ética julgaria Cunha por, pelo menos, quebra de decoro parlamentar.

Com isso, Cunha poderia perder não só a Presidência da Câmara, mas, também, seu mandato. O que se viu, então, foi, para ser suave, negociatas e chantagens de várias ordens, entre o Executivo e Cunha.

Contudo, ao que parece, havia, sim, fortes indícios que Dilma se articulou para salvar Cunha no Conselho de Ética, mas, doutro lado, veio indicações do Presidente do PT, Rui Falcão, de que os deputados petistas partissem para o ataque contra Cunha. Falcão – comentam os cronistas da política – agiu em acordo com Lula. Ou seja: uma articulação política esquizofrênica que derrapou por todo o primeiro mandato e que se encontra paralisada no momento, não poderia, agora, dar certo.

O cenário, portanto, que era de muitas incertezas constitui-se, neste momento, em uma única certeza: o governo será paralisado e todos os esforços se voltarão para barrar o impeachment.

Noutra oportunidade, asseverei que o impeachment para se consolidar no afastamento da Presidente Dilma deveria conjugar três principais atores: 1) os políticos - pois estes têm os votos para cassar o mandato presidencial; 2) a força popular das ruas indignadas e 3) o universo jurídico dando respaldo assentado em fatos concretos de desvios da Presidente.

Neste intricando jogo de forças, o TCU reprovou as contas da Presidente, mas estas devem, ainda, ser reprovadas pelo Legislativo e isso permitiria o fato jurídico concreto: desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal (as famigeradas “pedaladas fiscais” do Governo).

As ruas, o clamor popular, parece ter perdido força. As gigantescas manifestações de rua foram encerradas e nada de concreto se viu depois delas. E, por fim, os políticos, os donos dos votos que podem interromper o mandato de Dilma. Aqui, está o maior elemento imponderável: podem, rapidamente, se articular para leva a cabo o mandato da Presidente ou, então, sem o clamor popular, optar por uma ação menos drástica, ao vislumbrar que seria melhor, inclusive para oposição, deixar o governo chegar em 2018 sem popularidade, credibilidade e exaurido por completo.

A saída de Dilma do poder pode, para os agentes econômicos, sinalizar uma vontade de dar rumo ao país. Mas, pode, sobretudo, dar ideia de um fantasioso golpe das elites e, com isso, fortalecer uma volta de Lula.

Quais os futuros cenários? Impossível prever. Quem se arriscar a prever o devir da atual República está fadado a se perder no emaranhado de fatos. De qualquer forma, o quadro em tela não é só ruim para o Governo Dilma, mas, pior ainda, para toda a sociedade brasileira. Baixo crescimento da economia, inflação e desemprego assombram bem mais que o fantasma que ronda o Planalto. Que os atores políticos ajam com discernimento, responsabilidade e senso republicano e democrático. O ano termina como começou: nada animador.



Rodrigo Augusto Prando
é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, licenciado e bacharel em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia, pela Unesp, Araraquara.
Sobre o Mackenzie

Comente via Facebook
Mais Artigos
No h comentrios.
img
img
RSS  Artigos Artigos

Embora pensada para se opor à polarização entre direita e esquerda nas eleições presidenciais, a candidatura de terceira via, se ocorrer, favorecerá Lula e atrapalhará Bolsonaro. Por natureza, o eleitorado de esquerda comparece incondicionalmente às urnas e vota no candidato da tendência, mesmo...
Em evento de filiação ao Podemos e com discurso político, Sérgio Moro traz à tona sentimentos e projeções variadas acerca de seus objetivos políticos. Símbolo maior da Operação Lava Jato quando juiz, superministro do Governo Bolsonaro, trabalhador da iniciativa privada nos EUA, enfim, uma trajetória já assaz atribulada nos últimos anos e, agora, uma pré-candidatura, ao que tudo indica para a Presidência, em 2022, mas não...
O partido que desfralda a bandeira da socialdemocracia e adota um tucano como símbolo, o PSDB, está em frangalhos. Quando foi criado em 1988 era a esperança de o país pela trilha de uma nova política, amparada no conceito do Estado comprometido com o bem estar social e aberto aos...
O cipoal de leis que restringe a liberdade individual deve ser censurado. Característica principal dos sistemas socialistas anacrônicos e até mesmos dos híbridos, a hegemonia de leis que restringe a liberdade individual vem contaminando o progresso geral. A liberdade é instrumento de construção e de evolução meteórica mais consistente dentro dos sistemas viáveis de construção da sociedade humana. Os dois caminhos experimentados pelas...
A Caridade é o centro gravitacional da consciência ideológica, portanto, educacional, política, social, filosófica, científica, religiosa, artística, esportiva, doméstica e pública do Cidadão Espiritual. Desse modo, se o ser humano não tiver compreensão dela, deve esforçar-se para entendê-la, a fim de...
img
img
img
PUBLICAÇÕES RECENTES
img




img



img
img
img
CASAS img LOTES img FAZENDAS
img
CHÁCARAS img PRÉDIOS COMERCIAIS img GALPÕES
img
RSS  Dicas de Leitura Dicas de leitura
img
Ambientado em uma comunidade japonesa de São Paulo, lançamento ficcional da escritora Juliana Marinho promove o poder da música como intervenção para cura de doenças. A musicoterapia, união da arte e saúde em busca da reabilitação ou promoção do bem-estar, é a responsável...
Por meio da personagem Malu, as escritoras e letrólogas paulistas Nanda Mateus e Raphaela Comisso dialogam com as crianças sobre diversidade familiar e desmistificam a homoparentalidade. Nanda Mateus trabalha com educação e inovação em tecnologias para...
Existem músicas para os momentos felizes, tristes e até aquelas que marcam datas especiais, mas para Melody King é diferente: as canções são uma consequência — infelizmente incontrolável — de uma rara doença. As dificuldades em lidar com as embaraçosas situações,...
img
img
RSS  Top Vdeos Top Vídeos
img
Thumbnail
img
img
img
RSS  Classificados Classificados
img
img
img



RSS GOOGLE + YOUTUBE TWITTER FACEBOOK