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Eduardo Cunha e seu micropoder bombástico
10/08/2015 as 17:03 h  Autor Luiz Flávio Gomes  Imprimir Imprimir
De que maneira nós, os senhores neofeudais donos do poder (financeiro e econômico), estamos encarando Eduardo Cunha? Poucos políticos têm apetite pelo exercício do poder como ele. Não é o detentor do poder supremo neofeudal, que nos pertence. Nós somos as classes dominantes mais poderosas e chegamos aonde chegamos porque temos o poder de “comprar” (sempre que possível) os mandatos dos parlamentares (financiando suas pródigas campanhas políticas). Eduardo Cunha na estrutura geral do poder é detentor de um micropoder (como dizia o filósofo francês Michel Foucault), mas é pertinaz e bombástico.

Acusado por um dos delatores da Lava Jato (Júlio Camargo) de ter recebido 5 milhões de dólares em propinas (o dinheiro teria saído das empresas Samsung e Mitsui), redobrou seu ódio (e, assim, aumentou seu protagonismo) contra o governo petista de Dilma assim como contra o Procurador-Geral da República (Janot). Agora promete uma agenda bombástica para agosto e já fala abertamente no impeachment da presidente (presidenta) Dilma (cuja popularidade está virando um raquítico traço). Tudo isso está sob a análise do nosso clube. Nada será decidido, a não ser por nós mesmos.

Para se saber se Eduardo Cunha vai ou não incendiar o governo petista assim como o país, se vai mergulhar ou não na tese do impeachment, é preciso voltar a Foucault e perguntar o seguinte: quem são os verdadeiros donos do poder? Os agentes dos micropoderes ou os detentores do poder político, atrelado ao Estado? Ou ambos? Foucault, diferentemente de Hobbes, por exemplo, descatacteriza o Estado (no caso do Brasil aqui entramos nós, os senhores neofeudais) como fonte única do poder sobre os indivíduos (sobre as classes dominadas). Confere mais relevância aos micropoderes, que se produzem a cada instante, em todos os pontos, em todas as relações (de pais e filhos, de médico e paciente, de chefe e subordinado, professores-alunos, confessor-penitente, psicanalista e paciente etc.). São muitas as instituições que nos auxiliam na tarefa de “amansar” os indivíduos, consoante um padrão de disciplina. Isso vem desde o Iluminismo (século XVIII). Mas a pergunta mais importante é a seguinte: é o Estado (por meio de nós, os senhores neofeudais) que domina as massas ou são os micropoderes que fazem isso? Para Foucault são fundamentalmente os micropoderes que dominam. De acordo com essa teoria, portanto, Eduardo Cunha seria muito mais poderoso do que aparenta. Mas as aparências podem enganar.

Nós, os senhores neofeudais, contestamos em parte a tese de Foucault, que por sinal é muito criticada no mundo filosófico (cf. Jaime Osorio, El Estado en el centro de la mundialización), porque desconsidera o poder político que vem “do alto, de cima”, conferindo protagonismo somente para aquilo que vem de “baixo” (das relações diárias). O poder para Foucault seria ascendente (vai de baixo para cima), enquanto a teoria predominante (que nós seguimos) afirma o contrário (o poder é descendente, porque começa em cima e vem para baixo, onde muits instituições nos auxiliam nessa tarefa disciplinatória).

A questão mais relevante (para nós) na teoria de Foucault é que caberia contra o exercício dos poderes apenas resistências isoladas (dos alunos contra os professores, das mulheres contra o machismo, dos empregados contra seus empregadores etc.). Pensamos que essa tese nos é extremamente útil, porque tolhe a possibilidade de as massas se rebelarem contra as bases da nossa formação social, que se condensam hierarquizadamente no ente chamado Estado (dominado, aqui, por nós, os senhores neofeudais). Para a preservação dos nossos interesses é muito conveniente que as resistências sejam dirigidas contra os micropoderes, sem que nunca levantem os olhos (ou tirem as vendas dos olhos) visando à transformação dos macropoderes (exercidos por nós, os senhores neofeudais).

É importante para nossos padrões de prosperidade que não exista nada de tangível em termos de macrodominação para se contestar (a teoria de Foucault esvazia, atomiza, dilui e indetermina o poder do alto, de cima). Isso nos é muito conveniente. Essa, aliás, é a técnica empregada pela nossa tradicional aliada, que é a grande mídia: ela jamais apresenta os problemas com a perspectiva macrossocial. A lupa da mídia é sempre microssocial (algo tangível, concreto, determinado). A responsabilidade pelos problemas é sempre a imediata (nunca dos verdadeiros detentores do poder, que ficam invisíveis). Se uma escola não educa, o problema é da direção, do emprego do dinheiro público, do gerenciamento etc. Nunca o problema chega no topo, ou seja, nunca afeta o nosso poder neofeudalista.

A corrupção é sempre do funcionário público e do político, não nossa, não dos poderosos econômicos e financeiros (ou seja: dos senhores neofeudais). A corrupção delatada contra Eduardo Cunha seria exclusivamente do Eduardo Cunha, não de quem teria pago as propinas para ele (aliás, os nomes das empresas corruptoras são quase sempre atomizados, diluídos, intangibilizados, escondidos). É assim que nós, os senhores neofeudais, continuamos sendo os donos do poder. O impeachment é assunto que nos compete. No tempo devido decidiremos.



Luiz Flávio Gomes. Doutor em Direito pela Universidade Complutense de Madri. Mestre em Direito Penal pela USP. Jurista e cientista criminal. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Foi Promotor de Justiça, Juiz de Direito e Advogado.

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