Novoeste on-line - Onde o Oeste da Bahia é Notícia
> Principal > Artigos > Pauta Livre > Mais socialismo
 
Mais socialismo
12/03/2015 as 20:10 h  Autor Wladimir Pomar   Imprimir Imprimir
A vitória de forças políticas progressistas e socialistas para governos da América Latina tem colocado os comunistas e socialistas diante da necessidade de aproximar a teoria abstrata das condições concretas. Na Bolívia, por exemplo, com populações ainda vivendo em sistemas econômicos e sociais comunitários ancestrais dos povos indígenas, aparentados do comunismo primitivo, o socialismo parece precisar de um viés também comunitário.

García Linera, vice-presidente daquele país, acredita que o “socialismo é a potencialização do comunitário em sua base expansiva no marco da vontade da sociedade, como antítese do capitalismo”. Para ele, “no socialismo haverá uma só administração da riqueza que tem a chave do futuro, a comunitária que só surge e se expande tendo por base a ação voluntária dos trabalhadores, pelo exemplo e experiência voluntária da própria sociedade”. A ação do Estado revolucionário, portanto, deve consistir em “expandir e fortalecer esse modelo que surge dos produtores que decidem assumir o controle de seu trabalho numa ‘escala expansiva’”.

Apesar disso, Linera toma o cuidado de se precaver contra qualquer otimismo ao afirmar que  “o socialismo é um ‘longo’ processo de transição”. Nesse processo, “o Estado revolucionário e os movimentos sociais se fundem para que se democratizem novas decisões e que as atividades econômicas entrem na lógica comunitária”, evitando a “lógica do lucro”. O futuro, portanto, “será um tipo de socialismo comunitário, nacional, ambiental e, a longo prazo, planetário, que incorporará os conhecimentos e as práticas indígenas de diálogo e convivência com a Mãe Terra”.

Portanto, o socialismo seria o “campo de batalha”, “dentro de cada território nacional, entre uma civilização dominante – o capitalismo, ainda vigente e majoritário, mas decadente – contra uma civilização comunitária emergente”. Não é, pois, “uma nova civilização, economia ou sociedade, porém o ‘desdobramento democrático’ em mãos da sociedade organizada em movimentos sociais e a ‘superação da democracia fóssil’ na qual os governados apenas elegem os governantes”.

Em outras palavras, Linera reconhece o socialismo como a sociedade nacional em que ocorre a “batalha” entre a propriedade privada, ou o modo de produção capitalista, e a propriedade social, ou o modo de produção comunista. Sua perspectiva é que tal sociedade tenda para a civilização comunitária, que na Bolívia tem suas raízes fincadas no  comunismo primitivo de suas populações indígenas.

É nessa perspectiva que Linera convoca todos a considerar o socialismo como uma “democracia representativa no Parlamento”. Tudo com mais “democracia comunitária nas comunidades agrárias e urbanas”, mais “democracia nas ruas e nas fábricas”. E tudo, “por sua vez, em meio a um governo de um Estado dos movimentos sociais”, porque o socialismo se dá quando “a democracia atravessa todas as atividades cotidianas das pessoas, desde a economia até a educação, além da luta nacional, continental e internacional pela ampliação dos bens comuns”.

Dito de outro modo, Linera considera que o resultado daquela “batalha” entre os dois modos de produção que convivem de forma antagônica na sociedade boliviana depende da potencialização da democracia em todos os aspectos da vida social, e do Estado ter um profundo caráter social e democrático. No entanto, talvez por questões de ordem tática, Linera não tratou do possível aspecto cooperativo dos dois modos de produção no processo de desenvolvimento socialista.

O modo de produção capitalista tem um papel histórico no desenvolvimento das forças produtivas. Portanto, na incorporação da ciência e da tecnologia aos processos produtivos, agrícolas e industriais. E tal papel não pode ser abortado administrativa ou prematuramente, mesmo que o Estado seja obrigado a intervir cotidianamente para evitar que o caos do mercado se instale na sociedade.

Por outro lado, há a necessidade de elevar a produção para atender às crescentes necessidades sociais, o que tende a pressionar “as práticas indígenas de diálogo e convivência com a Mãe Terra”. Essa contradição só pode ser resolvida através do uso intensivo das ciências e das tecnologias, tornando imprescindível certa cooperação dos modos comunitários de produção com o modo de produção capitalista. Portanto, cooperação e luta, aliança e luta, entre os modos de produção conflitantes presentes na sociedade socialista, tende a ser um cenário cuja experiência na Bolívia poderá ser útil para o futuro da luta por aquilo que Linera chama de “civilização comunitária”.

No Brasil, essa “civilização comunitária” talvez esteja presente em apenas 0,1% da população. Embora existam experiências de cooperativismo e de economia solidária, apontando para uma economia e uma sociedade de tipo diferente, tais experiências ainda são extremamente minoritárias. Predomina de forma avassaladora o capitalismo, na indústria, agricultura, comércio e serviços, tendo como setores hegemônicos grandes grupos empresariais que funcionam em sistema de cartel, como vem sendo espontaneamente colocado a nu pela operação Lava-Jato, quanto ao setor de construção pesada, e pela corrupção no sistema ferroviário paulista, no setor de máquinas pesadas.

Paradoxalmente, essa mesma operação policial e judicial pretende ser aproveitada pelos demais setores hegemônicos do capital para liquidar a Petrobras e demais estatais brasileiras, os únicos instrumentos com que conta o Estado para introduzir uma cunha social no modo de produção  capitalista vigente no país e promover a “batalha” entre a propriedade privada e a propriedade pública. Assim, do mesmo modo que na Bolívia, o sucesso nessa “batalha” depende da potencialização da democracia em todos os aspectos da vida social, e de o Estado ter um profundo caráter social e democrático.

Do ponto de vista imediato, essa “batalha” pelo socialismo no Brasil está sendo travada num contexto em que as forças políticas conservadoras e reacionárias, representantes do capitalismo oligopólico estrangeiro e nacional, estão em ofensiva contra o governo Dilma, mesmo num contexto em que tal governo mantém uma política de concessões ao neoliberalismo. Com mais clareza do que muitas forças de esquerda e socialistas, a expressão política do capital tem noção clara de que, no mundo de hoje, políticas que potencializem a democracia e deem ao Estado um caráter profundamente social e democrático, criando instrumentos econômicos, culturais e políticos correspondentes, tendem para o socialismo.

Mesmo que o socialismo mantenha a propriedade privada, estabelecendo relações de cooperação e luta com a propriedade pública, isso é abominável para os representantes do capital pelo simples fato de que eles perdem o domínio sobre a economia, ficam impedidos de praticar preços administrados, obter superlucros, e manejar o Estado em seu benefício exclusivo. Assim, colocando de lado as firulas e mistificações da atual situação brasileira, a presente “batalha” tem como motivações mais profundas o pré-sal petrolífero e o pré-sal socialista.

Wladimir Pomar é analista politico e escritor.
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

Comente via Facebook
Mais Artigos
No h comentrios.
img
img
RSS  Artigos Artigos

O escritor foi e ainda é, para as crianças que estão começando a descortinar o infinito horizonte da palavra, algo inatingível, meio mágico, talvez mítico.Isso, dito por elas mesmas. A criança é naturalmente curiosa, sedenta de conhecimento e experiência, e ficar cara a cara com...
Na civilização humana, em todos os tempos as gesticulações passaram a simbolizar determinados comportamentos e construir significados diversos para cada sociedade e para cada povo. Gestos humanos servem tanto para simbolizar comportamentos positivos, bem como...
https://www.novoeste.com/uploads/image/artigos_gaudencio-torquato_jornalista-professor-usp-consultor-politico.jpgHoje, tomo a liberdade de fazer uma reflexão sobre a vida. Valho-me, inicialmente, de Sêneca com seu puxão de orelhas: “somos gerados para uma curta existência.  A vida é breve e a arte é longa. Está errado. Não dispomos de pouco tempo, mas desperdiçamos muito. A vida é longa...
A presidenta do Instituto Justiça Fiscal aponta o falso dilema para a escolha eleitoral de 2022 e indica as fontes de custeio para vencer o quadro desolador de fragilidade da maioria do povo brasileiro. A próxima eleição, se ocorrer, certamente exigirá muito de nós. Mas não será uma escolha difícil. Para começar, terceira via não existe! Ou melhor: existe, em Bolsonaro. Este, que pode parecer insano, sádico, intratável, joga o jogo e...
A Constituição Cidadã erigiu a dignidade da pessoa humana como seu fundamento, ao lado da soberania, cidadania, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. Trata-se, portanto, de um dos pilares que legitimam o Estado Social e Democrático que fundou....
img
img
img
PUBLICAÇÕES RECENTES
img




img



img
img
img
CASAS img LOTES img FAZENDAS
img
CHÁCARAS img PRÉDIOS COMERCIAIS img GALPÕES
img
RSS  Dicas de Leitura Dicas de leitura
img
Ambientado em uma comunidade japonesa de São Paulo, lançamento ficcional da escritora Juliana Marinho promove o poder da música como intervenção para cura de doenças. A musicoterapia, união da arte e saúde em busca da reabilitação ou promoção do bem-estar, é a responsável...
Por meio da personagem Malu, as escritoras e letrólogas paulistas Nanda Mateus e Raphaela Comisso dialogam com as crianças sobre diversidade familiar e desmistificam a homoparentalidade. Nanda Mateus trabalha com educação e inovação em tecnologias para...
Existem músicas para os momentos felizes, tristes e até aquelas que marcam datas especiais, mas para Melody King é diferente: as canções são uma consequência — infelizmente incontrolável — de uma rara doença. As dificuldades em lidar com as embaraçosas situações,...
img
img
RSS  Top Vdeos Top Vídeos
img
Thumbnail
img
img
img
RSS  Classificados Classificados
img
img
img



RSS GOOGLE + YOUTUBE TWITTER FACEBOOK