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TROCANDO
18/11/2014 as 09:02 h  Autor Ronaldo Duran  Imprimir Imprimir
No carro, duas pessoas conversam. O engenheiro está de short, camiseta e tênis, visão nítida que relaxa. Por mais de dez anos, no entanto, durante a semana sua armadura oficial é a camisa de manga longa, a calça social, as meias finas e o sapato preto de bico fino. Ao volante, a mulher traja calça jeans, camiseta, um pouquinho diferente da vestimenta semanal. Embora arquiteta, a etiqueta profissional a autoriza a evitar o tailleur, adotando estilo mais despojado – mais não menos respeitado por seus pares e clientes.

Algumas quadras dali, a professora tinha acabado de servir o almoço para a filha caçula, enquanto o filho mais velho descansava dos exigentes exercícios de Direito Administrativo que deverá entregar na próxima aula de quarta-feira, fazendo o que gosta, vendo a reprise do Friends.

_ “Seu pai está demorando tanto?” – A professora cutucou a atenção do filho.

_ “É...”, o universitário mantinha os olhos na tevê e os ouvidos na mãe.

_ “Saiu às dez horas da manhã para fazer a caminhada, e agora são 15 horas”, dizia enquanto dedilhava a tela do smarthphone a cata de mensagem ou ligação perdida.

_ “Ele pode estar a caminho... a senhora sabe que ele vive parando para conversar com conhecidos e perde a noção do tempo”, o filho procurou sossegar a mãe.

Cinquenta minutos mais tarde, a esposa havia cedido ao sexto sentido que exigia que fosse à procura do marido. Durante os 25 anos de casados, ela se viu assolada por este impulso meia dúzia de vezes.

Três quarteirões percorridos, e avistou o vulto do marido. Estranho. Estaria vendo coisa? Ele no carro de alguém? Ao se aproximar, notou que era mulher, e, pior, a sócia do escritório de engenharia civil. A mão dele deslizando no rosto da motorista serviu para que uma escuridão tomasse a visão da professora, apagando tudo ao redor. As imagens retornariam minutos mais tarde, quando socava a cara da infeliz. Talvez um neurocientista explique por que a medida que estapeava o rosto da rival a lucidez ia voltando.

Passado esse momento de fúria, a professora foi arrastada para casa pelo marido.

A notícia da traição caiu como uma bomba na família.

No fundo, a esposa tinha suspeita que alguma coisa estaria para acontecer. Pequenos detalhes, como abandonar o hábito da cueca samba-canção pela cueca boxer lisa, alegando que esta realçava mais seu corpo, e as poses diante do espelho.

Antes das dezoito horas daquele domingo, o marido foi posto porta afora. Com mala e cuia, abrigou-se na casa da mãe. Os filhos compartilhavam choro, divididos pelo sofrimento da genitora e a partida do pai.

Passado a primeira semana de caos, a família vê o prédio balançar, mas começa a desejar que os alicerces sejam firmes o suficiente para suportar o tornado. Depois de levantar várias manhãs sem o marido ao lado, sua ira arrefeceu. A esposa está pronta para usar os recursos possíveis na tentativa de salvar o casamento.

De parte do marido, a ideia de separação judicial era rejeitada. Nas primeiras semanas, procurou esconder a continuidade do caso com a colega de escritório. Todavia, as mentiras iam sendo descobertas. No celular, a esposa acessaria mensagens trocadas pelos amantes que, de tão picantes, aumentariam a certeza que o casório foi para o brejo.

_ “O que aconteceu conosco?”, desabafa com a amiga, “eu o ajudei tanto. Na sua quimioterapia. Que dias difíceis. Ah, teve o tempo que dependeu de meu salário... Antes de ele ter sucesso como engenheiro civil, o orçamento era tão apertado. Que sufoco para eu controlar seus gastos excessivos. E agora que as coisas pareciam entrar nos eixos, que compramos casa mais espaçosa, que nosso filho está terminando a Faculdade”, soluçava.

_ Passei isso com meu ex marido. Quando eles estão por baixo são uma coisa, quando começam a ganhar mais, a cabeça muda. E os iludidos acabam o casamento por uma aventura.

_ Hum.

_ Para provar que são atraentes, que não estão envelhecendo. Nesse momento de insanidade, os filhos que dependem da figura do pai, os anos de sacrifício da esposa, tudo vai para a lata de lixo por causa de uma mulher 15 anos mais jovem.

Ronaldo Duran, autor do livro Desaparecidos.

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