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Brasileiros divididos
31/10/2014 as 18:37 h  Autor Paulo Metri   Imprimir Imprimir
Ouvi de todos os lados que é preciso haver união na sociedade brasileira, o que é compreensível, pois se deseja que o grau de agressividade na sociedade diminua. No entanto, falando a verdade para pessoas equilibradas, a divisão de posições na sociedade é enorme e ela é correlacionada, sim, com a faixa de renda de cada grupo. Nesta eleição, quando comparada com outras eleições, as classes de mais baixa renda da sociedade pareciam estar mais conscientes, o que é ótimo. Portanto, se a divisão está nítida é porque a conscientização dos mais pobres foi maior.

Este fato gerou nas classes com maiores rendas uma reação de ódio, nunca vista. Esta reação não segue uma lógica, porque a subida social dos mais pobres não representou uma descida de classe para os mais bem aquinhoados. Pelo contrário, representou um ganho, porque, com o crescimento da capacidade de consumo de muitos indivíduos, existirá maior desenvolvimento da economia e, aí, todos se beneficiarão. No entanto, pode-se estar considerando como prejuízo a “promiscuidade social”, que significaria, por exemplo, a classe média vir a encontrar o porteiro do seu prédio no destino da próxima viagem de férias.

É claro que existem várias formas de “união”. A união, que significa a adesão das pessoas com acúmulo de sofrimentos ao pensamento daquelas com tradição de exploração, será muito difícil. Concordo com a união que significa a não violência, a existência de diálogo para as conquistas e em que todos tenham o direito de pensar livremente. A presidente Dilma falou também em união e eu tenho a impressão que ela se refere a esta.

O tempo atual é muito difícil, porque o confronto de posições na sociedade foi muito acirrado, durante o período eleitoral, com pouca explicação exata do que se passava. Não se discutia didaticamente, até por ser impossível. Contudo, acho que houve um melhor entendimento da população sobre as possibilidades de futuro do Brasil. Foi, portanto, um momento de crescimento da sociedade.

Não há como esconder que este confronto foi movido também pela velha luta de classes, mas a mídia comercial e muitos dos envolvidos não a chamam pelo seu verdadeiro nome, senão, seria o reconhecimento da existência de classes explorando outras classes, o que precisa ser sempre escamoteado, pois não se sabe onde o povo vai querer chegar. A mídia incute na sociedade que é o confronto entre corruptos e honestos, laboriosos e preguiçosos, democratas e autoritários, enfim, bons e maus. Afirma também que a luta de classes e as classificações de direita e esquerda foram jogados no mesmo aterro que recebeu os escombros do muro de Berlim. Querem a paz da ignorância social.

Eu também prego a união, mas aquela representada pela discussão dos pontos de vistas de grupos conscientes politicamente, com direito a pensarem diferente, visando chegar a acordos benéficos para todos. Estes acordos irão requerer que ambos os lados cedam, de forma à paz ser conseguida. Não falo da paz entre escravos e donos de engenho, que era a paz existente até recentemente, tendo como única diferença as ferramentas de obtenção da paz. Houve a troca da chibata e do pelourinho por uma mídia do capital alienante e formadora de escravos inconscientes.

Respeito os brasileiros que sugerem uma mudança rápida da conformação da sociedade. No mundo insensível atual de um capitalismo exacerbado, para os oprimidos, muitos dos quais não sabem verbalizar suas angústias, soa como um alento divino ouvir estas vozes em sua defesa. No entanto, de uma intenção maravilhosa podem resultar tragédias, porque a rapidez na reversão da exploração só poderia acontecer por meio da força e esta é a opção que a direita anseia que os sofridos optem. A direita tem como seus escudos toda uma legislação de proteção da riqueza exorbitante e dos mecanismos de exploração, além de ter a força policial para garantir uma ordem que seria mais bem definida como uma desordem social. Enfim, não há como apressar os resultados para os mais sofridos que não seja através do debate, das reivindicações, da conscientização política, dos acordos, das votações, da cobrança das promessas, do acompanhamento do desempenho dos políticos etc.

Faço um julgamento de valor sobre os eleitores da presidente Dilma, que foram acusados de não saberem votar e muito mais. Eles estavam bem conscientes, votavam em quem iria trazer o melhor futuro para eles e, portanto, aptos para decidir sobre seu voto. Só antidemocratas podem pensar que quem não votou em Aécio são seres inferiores. Eu pergunto em que escala de valoração de seres humanos os acusadores se baseiam, porque, se for a minha escala, estes acusadores é que são inferiores, beirando um Hitler.

A mídia convencional brasileira teve um papel deplorável nesta eleição, pois apoiou abertamente o Aécio. Ações que, para mim, são de democratização da mídia, para a direita, são de cerceamento da liberdade de expressão. Como não poderia deixar de ser, este grupo conservador se beneficia com a existência desta mídia do capital, manipuladora das massas. Sobre este ponto, qualquer pessoa pode fazer um exercício simples, que consiste em responder à pergunta: “Quantas vezes os noticiários de jornais, revistas, rádios e TVs expuseram, satisfatoriamente, as opiniões de trabalhadores, sindicalistas, favelados, atingidos por desgraças, os oprimidos por interesse do capital e os líderes de esquerda?” Então, o que se busca hoje é libertar as posições contidas da esquerda.

No entanto, se alguém, politicamente inexperiente, quiser eliminar a mídia de direita, serei contrário. Plagiando Voltaire, afirmo que "posso não concordar com o que ela diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo". Isso apesar de a mídia de direita, que infelizmente a maioria da população assiste, ser um inimigo social. Muitos dos membros da nossa sociedade que estão, neste instante, com ódio no coração foram incendiados por esta mídia irresponsável e inconsequente.

Nesta eleição, temos que agradecer ao “atalho tecnológico”, representado pelo advento das redes sociais, que ajudou a conscientização das massas. Elas nos tiraram do obscurantismo da mídia convencional, análogo àquele vivido na Idade Média, quando o que deveria ser lido era escolhido pela Igreja, que reproduzia os textos permitidos através dos monges copistas. Gutenberg, ao criar a impressão de publicações, modificou o equilíbrio de poder que a reserva do conhecimento acarretava.

Teremos pela frente um longo percurso até chegarmos a uma democracia social parecida com a dos países escandinavos. Muitos salientam a educação como causa maior para o sucesso da nossa sociedade. Sou favorável a dar prioridade à educação, principalmente àquela que prepara o homem para a cidadania e a vida. Não concordo com a educação que consiste só de se preparar o homem para o mercado. Entretanto, sou mais favorável a entregar o grande troféu da causa principal (o sucesso da sociedade) à conscientização política da mesma. Concluindo, vamos unidos caminhar pela paz, com ideais distintos e buscar o entendimento para uma sociedade mais humana e, assim, poderemos ser, talvez um dia, completamente unidos.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania.
Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/

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