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É possível defender a política?
30/09/2014 as 12:04 h  Autor Rodrigo Augusto Prando  Imprimir Imprimir
Nos dias que correm, às vésperas de eleições para presidente, governador, senador e deputados estaduais e federais, é possível, caro leitor, defender a política? Podemos, ainda que com todas as evidências em contrário, defender a existência dos políticos? Escândalos de corrupção, troca de acusações entre os candidatos, baixaria nos argumentos e falta de espírito republicano são, quase sempre, presentes no cenário eleitoral. Contudo, há que se insistir: é possível defender a política e os políticos? Creio que sim! A política, hoje, reclama, antes de tudo, um debate qualificado, uma reflexão desprovida de preconceitos, um efetivo exercício de cidadania. Uma das melhores formas de avançar e vencer o cipoal de mediocridade que vivemos é por meio do conhecimento, das informações, da troca salutar de ideias.

Se me permitem uma singela indicação, considero indispensável para qualificar o debate em torno da questão da política a obra Em defesa da política, de autoria de Marco Aurélio Nogueira, editora Senac, série Livre Pensar, de 2001. Há, neste escrito, um conteúdo de primeira grandeza com o estilo acessível, sem a empolação muito comum em textos acadêmicos. Há, segundo o referido autor, pouca política no debate político. Este passou a depender mais do cronômetro do que dos argumentos. O tempo do diálogo crítico é submetido ao tempo comercial da propaganda e do marketing político. O cidadão se torna confuso e incapaz, muitas vezes, de decifrar as informações que lhe chegam. A política e os políticos passam, sistematicamente, a serem desqualificados. São colocados numa perspectiva maniqueísta: a política como a fundamental representante de nossas mazelas.

O cerne da obra está no que ele chama de as “três políticas” e suas principais características. Há a “política dos políticos”, a “política dos cidadãos” e a “política dos técnicos”. Cabe enfatizar que essa tipologia não tem a pretensão de esgotar a temática, mas, apenas, reconhecer grandes linhas de compreensão.

A “política dos políticos” pode ser considerada como “política com pouca política”. Isso, todavia, não pode ser considerado como algo de menor valor. Pelo contrário. O que se dá é que neste campo há uma dignidade bem específica. A política dos políticos encontra seu limite na ideia da política como a “arte do possível e do indicado”. O realismo e o pragmatismo são seus terrenos peculiares. O cálculo e até certa frieza são superpostos à fantasia e à opinião. Para Nogueira, uma de suas máximas é: “não se faz política sem vítimas”.

Na política realista as paixões e ideias são contidas, estão sob controle, para que não se intrometam nas singelas e ardilosas relações que franqueiam o acesso ao poder. No entanto, existe o risco de uma degeneração. Esse tipo de política pode se tornar realista demais, lançando por terra os valores. Pode se tornar politicagem, alicerçada sobre o truque, as promessas, intrigas e disputas entre grupelhos e facções com interesses amesquinhados. Essa é, assim, a face menos nobre da política, mais desagradável e obscura. O poder e ambição são legítimos na política dos políticos; ilegítimo é exercer o poder para fins escusos e vislumbrar pequenas ambições que não atendam aos valores coletivos e democráticos.

A “política dos cidadãos” é, por sua vez, entendida como a “política com muita política”. Está concentrada na busca do bem comum, no balizamento civilizado do conflito de interesses e da diferença. Essa política rende tributos e valoriza o diálogo, o consenso e a comunicação, na defesa da crítica e da participação coletiva. É uma aposta na capacidade criativa dos homens. É, também, uma entrega apaixonada e categórica às possibilidades da política. Seus protagonistas são os partidos, os grupos e a massa, mais do que a personalidade talentosa. Não que o indivíduo não possa exercer uma liderança que o projete. Mas essa projeção individual está lastreada numa relação entre o todo e a parte, numa reciprocidade em que os interesses que devem prevalecer sejam os coletivos e não os individuais. Para que se efetive essa política dos cidadãos se faz necessário uma educação para a cidadania, o constante exercício da democracia e da valorização do diálogo. Todos devem ser corresponsáveis pela vida comum, pelas decisões e pela resolução dos conflitos.

Temos, por fim, a “política dos técnicos”: a “política sem ou contra política”. Em tempos como o nosso, de racionalidade instrumental, da hipervalorização da técnica e de desencantamento do mundo, essa é a que parece predominar. É a política dos técnicos, dos executivos, de algum modo associados à tecnocracia. De acordo com Nogueira, sua máxima pode ser compreendida como: “onde há política ou poder, há corrupção”. Para os técnicos a sociedade estaria querendo retornos pontuais, pragmáticos e sem riscos, não havendo a necessidade de ideologias, programas radicais e promessas. O desprezo do cidadão é patente, porque os técnicos são possuidores de uma verdade, verdade tecnicamente alcançada. O cidadão se torna um mero homologador de decisões. O debate público e o diálogo crítico são esvaziados. Trata-se, infelizmente, de uma forma de fazer política que se coaduna com nossa época.

Como dissemos acima, a essas três formas de política podem ser acrescentadas várias outras ou, então, conjugadas essas que apresentamos. A dinâmica da sociedade nos possibilita compreender o jogo da política e não o contrário. A política tem uma base que a sustenta e disso não se esquece o autor. Condenar toda a política e todos os políticos é, sem dúvida, posicionar-se comodamente na ala dos conformistas e esbravejadores de plantão. Compreender os processos políticos e sociais para além do senso comum é mais trabalhoso. Necessita de um tipo especial de inteligência. E essa inteligência carece de obras do quilate de Em defesa da política.

Rodrigo Augusto Prando. Doutor em sociologia e professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Fonte: http://congressoemfoco.uol.com.br/

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