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Medicina e saúde no Brasil: guilhotinas e decapitações
21/05/2014 as 17:13 h  Autor Daniel Chutorianscy  Imprimir Imprimir
Comecemos: saúde e medicina, aqui na terra amada, se misturam como se fossem um objeto só. Ilustremos com o seguinte exemplo para desconstruir essa “falação”. “Isto aqui é um centro de saúde?”. Certamente as pessoas vão dizer: “Sim, sim, é claro”.  “Não é, não, aqui é um centro de tratamento de doenças”. “E a saúde, onde está?”, perguntam todos? Ah, a saúde está em todo lugar, na cidadania, na justiça, na igualdade de direitos, na educação, no meio ambiente não contaminado, no salário justo, no transporte, na habitação, no tratamento adequado às doenças, no pensar e no falar. Como no falar? Saúde é transformar, revolucionar, pensar e falar; a doença, seu impedimento, o silêncio.

Mas, nada é por “acaso”. É tudo pensado e intencional. Já que é fundamental falar, falemos em alto e bom som: seguindo a tendência mundial vivida (vivida?) nos países dos segundos, terceiros, quartos mundos, a primeira decapitação da guilhotina cruel seria o fabuloso lucro que a doença traz. E, por trás disso, a também fabulosa indústria farmacêutica, uma indústria sustentada pela doença, onde, em cada sede destas empresas, que obviamente estão no primeiro mundo, ostenta-se uma belíssima estátua do padroeiro – o sempre vivo e esperto “São Lucros”. Contribuem também para a doença os “aliados solidários”: a baixa qualidade de vida, salários aviltantes, desemprego... Por outro lado, não há como negar os avanços excepcionais nessa área. O grande paradoxo: a ciência visa ao lucro? Necessidade implica em submissão?

Continuando a falar. A segunda decapitação é o próprio impedimento de falar, e quem não fala obedece a um modelo organicista, segue o modelo de “defeitos”: defeito no coração, defeito no osso, na pele, e assim vai. Existe “medicamento” para qualquer “defeito”, aliado a uma prática médica silenciosa e alienada, que vê no outro um “objeto”, um prontuário numerado, deixando de ser uma pessoa. Pergunto: onde se encontra aquela prática tão antiga, humanista, afetiva e atenciosa de escutar as pessoas, e que nasceu com a medicina? Prestar atenção, ouvir?

Afinal, o único animal que usa a linguagem é o ser humano. O dístico da medicina, com a cobra enrolada, é “Sedare dolorem opus divinus est” (Sedar a dor é um ato divino). Mais uma vez, pergunto: a dor é só física? Ou existem também as dores da angústia, da tristeza de ser explorado, da falta de cidadania, da falta de diálogo, da distância com o médico que atende (atende?)? Então não é para se falar dessas outras dores? Cada um que fique no seu “quadrado”?

Exemplificando: o dito “paciente”, após um longo tempo de espera “sentadinho” (se houver instalações adequadas), silencioso, aguarda ansiosamente ser chamado para a esperada consulta. “Chegou a minha vez, graças a Deus!”. Entra, nem bom dia, nem boa tarde, muito menos boa noite, senta-se, ouve a tradicional pergunta: “O que você tem?”, ou o mais ameno “qual a sua queixa?”. O tempo corre rápido. Nervoso, dor de cabeça, insônia, revela rapidamente o “paciente”. Rapidamente também, o doutor prescreve e fala com voz senhorial “um pela manhã, um à tarde, outro à noite. O próximo!”. Tem remédio para tudo, a bênção São Lucros, protetor da doença, salve o silêncio que aliena e mata. Ao contrário, nos consultórios de primeiro mundo, há educação, gentileza, instalações adequadas e tempo para se falar. Gente fina é outra coisa!

De volta a nossa realidade, mágoas e frustrações de ambos os lados: dos doutores e dos “pacientes”. Mais uma perguntinha: por que não falar? Seria um hábito estrutural, cultural, que foi assimilado ao longo do tempo? Ou seria a coerção de um poder perverso, que congela e imobiliza o cérebro? Será que essa ausência do pensar e falar vai se perpetuar? Então, cidadãos, doutores ou não, quebremos esse mutismo, contestemos as verdades prontas, vamos por pra fora, dialoguemos.

Usemos os medicamentos adequados, conscientes de que é importante pensar e falar. O pensamento, nesse caso, seria: “sozinho eu chego mais rápido, mas acompanhado nós chegamos muito mais longe. Essa aliança coletiva deve ser gentil, produtiva e generosa, tendo a fala como intermediária e o afeto como norte. Quem fala pensa, e quem pensa transforma”.

A terceira decapitação da nossa guilhotina, seguindo os preceitos de São Lucros, que ora pela bíblia neoliberal, é a privatização dos serviços públicos, tornando o que era coletivo numa grande e majestosa empresa privada, um grande supermercado para as indústrias farmacêuticas, laboratórios, serviços, a demolir, paulatinamente, o que a população, com muito esforço e trabalho, conseguiu através do tempo

Faz parte do guilhotinamento a famosa, sempre crescente e estupenda Dívida Interna e Externa, juntamente com nosso PIB, mais conhecido como produto interno bruto. Ou seja, tudo o que a pátria amada produz é dividido atualmente da seguinte forma: cinquenta por cento do PIB é para pagar os gordos banqueiros e as gordíssimas multinacionais. Para a saúde (saúde?) sobram os magros, magrinhos, magérrimos, símbolo da doença crônica, os miseráveis 4%; para a educação, menos ainda. Está na hora de a gente falar grosso...

Esqueci a quarta decapitação da guilhotina. Mas, antes, para que serve uma guilhotina? Claro, para cortar cabeças. Então, a guilhotina está funcionando a todo vapor, como uma indescritível máquina de castrar e alienar pensamentos, funcionando vinte e quatro horas no ar, num plantão permanente de estupidificar e ensinar como se deve pensar, sem se pensar.

Senhoras e senhores, queremos apresentar a fabulosa mídia amestrada por seu ídolo, o não menos famoso “São Lucros”. Vende a doença à vista, a prazo ou em suaves prestações diárias, conforme o “freguês”. A função é guilhotinar nossas cabeças, para que nada se transforme. A doença, a alienação, o silêncio, a dor da desigualdade tornam-se absolutamente necessárias para o modelo capitalista.

Basta de guilhotinas e decapitações! Por que não? Coloque sempre pra fora para viver com saúde. As guilhotinas que decapitam não dependem de origem, cor, religião, culturas, e sim de classe social. E saúde é tudo, em qualquer tempo, em qualquer lugar.

Alguns dos princípios da vida: felicidade, liberdade. Igualdade, saúde, educação, falar e pensar. Bem no final, um versinho: falar e pensar são o inverso de guilhotinar. Silenciar é o inverso de participar.

Daniel Chutorianscy é médico psiquiatra e coordenador do projeto GRÊMIO RECREATIVO SOCIAL E COMUNITÁRIO “PÕE PRÁ FORA”, trabalho coletivo e comunitário realizado na Policlínica Sergio Arouca – Praça Vital Brasil – Niterói – RJ (Secretaria de Saúde de Niterói)
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/

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