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Uma resposta brasileira ao Ano Internacional da Agricultura Familiar
30/04/2014 as 15:49 h  Autor João Guilherme Sabino O  Imprimir Imprimir
Foi oportuno o ato da ONU de instituir 2014 como o Ano Internacional da Agricultura Familiar. A decisão faz justiça a uma parcela significativa da produção agropecuária brasileira, à sua relevância social e contribuição para a segurança alimentar, num mundo no qual a fome atinge quase 900 milhões de seres humanos, sendo 50 milhões na América Latina.

A homenagem da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) fez-me recordar as origens de meus familiares, imigrantes italianos que chegaram ao Brasil em 1887 para trabalhar na lavoura como colonos e se tornaram agricultores. Levou-me, ainda, a refletir sobre a condição dos médios e pequenos produtores frente aos enormes desafios que enfrentam no País.

Exigem-se ganhos de escala cada vez maiores, em grande parte das culturas, para fazer frente à elevação dos custos e atender à demanda de alimentos, fibras e energia. Como mecanizar a lavoura e incorporar tecnologias, se os resultados não propiciarem retorno do investimento? Os processos produtivos estão cada dia mais sofisticados. Isso torna difícil o acompanhamento pelos que têm de cuidar da gestão, compras, aplicações na lavoura, plantio e colheita. Além disso, como monitorar as mudanças trabalhistas e ambientais, dentre tantas que ocorrem em âmbito estadual, nacional e internacional?

O poder público é parte da resposta, mas as políticas adotadas são limitadas. Falta muito para celebrarmos um seguro agrícola eficaz ou um qualificado serviço de extensão rural das secretarias de Agricultura. Devemos seguir cobrando os governos federal e estadual, inclusive quanto à busca de seus institutos de pesquisa por alternativas tecnológicas. Contudo, é preciso reconhecer que parte da solução é privada e está na forma de organização do setor.

Recente estudo do Departamento do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) apontou que, dentre os estabelecimentos rurais brasileiros mais eficazes, independentemente do seu tamanho, a maioria tem forte relação com o cooperativismo. Na Região Sul, conhecida pela competência agrícola, 73% do volume produzido são comercializados por meio de cooperativas. Assim, os pequenos, trabalhando em conjunto, ganham poder de barganha na compra de insumos e serviços, acesso à orientação de técnicos especializados e mecanismos sofisticados de venda.

É um referencial para o País, pois as cooperativas integram as distintas etapas do processo produtivo, oferecendo assistência a cada uma delas. Na maioria dos Estados, verificamos a sua presença, de modo estruturado, com excelente governança e serviços de alta qualidade. Porém, é preciso expandir o modelo, com foco na melhoria da gestão, uma vez que a capilaridade é justamente o ponto forte do sistema.

Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o setor agropecuário representa 24% do total dessas organizações no País. E estas, informa o IBGE, têm alta participação na produção agrícola nacional: 74% do trigo, 57% da soja, 48% do café, 44% do algodão, 43% do milho e 35% do arroz são plantados e colhidos por cooperados.

Também é crescente o relacionamento de pequenas e médias propriedades com indústrias, como ocorre com a carne de frango, um sucesso nesse modelo de integração, que já representa cerca de 90% da produção nacional. Merece destaque, ainda, a cooperação de algumas companhias sucroenergéticas com assentados da reforma agrária no Estado de São Paulo, bem como a parceria de fábricas de chocolate com produtores de cacau na Bahia, com a participação do Ministério da Agricultura. São três bons exemplos, dentre tantos existentes no Brasil, nos quais grandes empresas auxiliam grupos de estabelecimentos rurais na gestão do negócio e acesso a tecnologias.

A melhor resposta do País aos objetivos deste Ano Internacional da Agricultura Familiar seria a ampliação dos modelos privados de cooperação e parceria, lembrando que o incentivo do Estado, por meio das várias ferramentas de apoio, é fundamental para a inclusão tecnológica e a boa gestão. Os benefícios não se restringiriam aos que trabalham no campo, mas contemplariam amplamente a sociedade. É preciso que todos lutem juntos contra a fome!

João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (EESC/USP), é presidente do Conselho de Administração do Grupo São Martinho, vice-presidente da Fiesp e coordenador do Comitê de Mudanças Climáticas da entidade.

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