Novoeste on-line - Onde o Oeste da Bahia é Notícia
> Principal > Artigos > Pauta Livre > Tradição de misoneísmo
 
Tradição de misoneísmo
17/02/2014 as 15:12 h  Autor Bruno Peron  Imprimir Imprimir
Há tempos, noto a aversão que o brasileiro tem de ser corrigido. Por vezes, as retificações se fazem na forma de escárnio ou piada. Assim seguimos falando um português cheio de vícios de linguagem (“a nível de”, “estarei apresentando”) e incorreções gramaticais. Mais grave é nossa teimosia frente a mudanças na interação com os outros e à observância de direitos e deveres, portanto exemplos externos ao âmbito das letras.

A educação está em todos os planos de governo e na ponta da língua de políticos, mas se trancafia num baú de esperanças duradouras. Quando se reanimam os otimismos, a mesmice reitera-se nas políticas que esquecem a educação dos pirralhos enquanto elas privilegiam a formação de quem já é bem educado e já tem boa formação, mandando-os ao exterior para que voltem ainda melhores. Assim este segundo grupo (merecedor de educação como os pirralhos também o são) retorna políglota e enciclopédico a educar jovens a quem se presenteia o ingresso às universidades como um privilégio.

O impulso deste texto, a despeito do tributo educacional, é refletir sobre uma contradição na sociedade brasileira: por que protestamos tão veementemente a favor de mudanças exógenas enquanto o caráter do brasileiro é endogenamente avesso a transformações? Queremos nadar nas águas límpidas da prosperidade, mas pouco fazemos para que o micromundo à nossa volta fique melhor e as pessoas se unam no conforto coletivo.

Temos ambições vãs de rezar por toda a impenetrável Via Láctea em vez de pedir pelo familiar que não está bem ou pelo colega de trabalho com quem temos atritos. O desafio está do nosso lado. É aquela história de ter dez projetos, mas não conseguir realizar sequer um. É preciso, portanto, juntar as peças de nossas vidas privada (papel familiar) e pública (função cidadã) e avaliar o que está dentro do alcance e da vontade.

Os protestos que emergem no Brasil alçam a multiplicidade de vozes que, ao mesmo tempo que têm demandas diferentes, confirmam nossa semelhança como brasileiros. Algo temos em comum por nascer e crescer no Brasil. Este país nasceu moderno a partir de pais gananciosos, que buscavam riqueza fácil a custo de genocídio e escravidão, mas deixaram filhos sedentos de luta. Não mudemos esta disposição fundadora do rebento.

A busca desenfreada pela preservação de tradições não esconde que, no Brasil, emerge uma civilização original, que superou de longe as previsões dos pais arrogantes, desertores, exploradores e preconceituosos. Dá-se, porém, atenção desfocada ao âmbito do patrimônio – desconsiderando-se suas novas concepções (sobretudo relacionadas a bens intangíveis, como os costumes) – através da proteção de tradições dubiamente brasileiras (por exemplo, casas luxuosas construídas com material de origem europeia) em vez dos que viviam “sem eira nem beira” nas margens do limiar de nossa modernidade.

Por isso, a busca sedenta pelas tradições (arquitetônicas, linguísticas, políticas, etc.) tem, por um lado, o mérito de resguardar a memória das nossas identidades, mas, por outro, ela propaga nossa tradição de misoneísmo (ou seja, aversão à novidade e à transformação). Uma vez que muitas destas tradições referem-se ao uso de palavras arcaicas e a edifícios que abrigavam membros das classes nobres, deixamos de coser a novidade nas entranhas da sociedade escravista, autoritária e hierárquica que aqui se desdobrou.

Portanto, há algo de capcioso na preservação de tradições (aspectos hierárquicos de nossa cultura política, por exemplo) que se incompatibilizam com práticas e hábitos modernos com que tanto contamos na transformação do Brasil. Toda sociedade evolui oferecendo e recebendo na formação de suas identidades. É desta forma que a alegria, a criatividade, a energia e a solidariedade emanam do brasileiro ao passo que buscamos, noutras sociedades, modelos de como viver em harmonia nas cidades sem quebrar telefones públicos, estourar caixas eletrônicos ou queimar ônibus.

Sabemos que gostos e interesses mudam, pois não somos múmias nem objetos de argila. Não é preciso olhar muito atrás no tempo para notar que muito do que fazíamos era pueril demais para que se repita hoje. Cedo ou tarde, nossa energia interna a favor de mudanças será imprescindível para a locomotiva do país. É preciso valorizar-se, ainda que nossa prece evidentemente não mude o mundo. Em vez de reproduzir nossa tradição de misoneísmo, vale a proposta de que o misoneísmo vire uma tradição definhada.

Por Bruno Peron
http://www.brunoperon.com.br

Comente via Facebook
Mais Artigos
No h comentrios.
img
img
RSS  Artigos Artigos

Embora pensada para se opor à polarização entre direita e esquerda nas eleições presidenciais, a candidatura de terceira via, se ocorrer, favorecerá Lula e atrapalhará Bolsonaro. Por natureza, o eleitorado de esquerda comparece incondicionalmente às urnas e vota no candidato da tendência, mesmo...
Em evento de filiação ao Podemos e com discurso político, Sérgio Moro traz à tona sentimentos e projeções variadas acerca de seus objetivos políticos. Símbolo maior da Operação Lava Jato quando juiz, superministro do Governo Bolsonaro, trabalhador da iniciativa privada nos EUA, enfim, uma trajetória já assaz atribulada nos últimos anos e, agora, uma pré-candidatura, ao que tudo indica para a Presidência, em 2022, mas não...
O partido que desfralda a bandeira da socialdemocracia e adota um tucano como símbolo, o PSDB, está em frangalhos. Quando foi criado em 1988 era a esperança de o país pela trilha de uma nova política, amparada no conceito do Estado comprometido com o bem estar social e aberto aos...
O cipoal de leis que restringe a liberdade individual deve ser censurado. Característica principal dos sistemas socialistas anacrônicos e até mesmos dos híbridos, a hegemonia de leis que restringe a liberdade individual vem contaminando o progresso geral. A liberdade é instrumento de construção e de evolução meteórica mais consistente dentro dos sistemas viáveis de construção da sociedade humana. Os dois caminhos experimentados pelas...
A Caridade é o centro gravitacional da consciência ideológica, portanto, educacional, política, social, filosófica, científica, religiosa, artística, esportiva, doméstica e pública do Cidadão Espiritual. Desse modo, se o ser humano não tiver compreensão dela, deve esforçar-se para entendê-la, a fim de...
img
img
img
PUBLICAÇÕES RECENTES
img




img



img
img
img
CASAS img LOTES img FAZENDAS
img
CHÁCARAS img PRÉDIOS COMERCIAIS img GALPÕES
img
RSS  Dicas de Leitura Dicas de leitura
img
Ambientado em uma comunidade japonesa de São Paulo, lançamento ficcional da escritora Juliana Marinho promove o poder da música como intervenção para cura de doenças. A musicoterapia, união da arte e saúde em busca da reabilitação ou promoção do bem-estar, é a responsável...
Por meio da personagem Malu, as escritoras e letrólogas paulistas Nanda Mateus e Raphaela Comisso dialogam com as crianças sobre diversidade familiar e desmistificam a homoparentalidade. Nanda Mateus trabalha com educação e inovação em tecnologias para...
Existem músicas para os momentos felizes, tristes e até aquelas que marcam datas especiais, mas para Melody King é diferente: as canções são uma consequência — infelizmente incontrolável — de uma rara doença. As dificuldades em lidar com as embaraçosas situações,...
img
img
RSS  Top Vdeos Top Vídeos
img
Thumbnail
img
img
img
RSS  Classificados Classificados
img
img
img



RSS GOOGLE + YOUTUBE TWITTER FACEBOOK