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CANIVETE*
23/12/2013 as 12:54 h  Autor Ronaldo Duran  Imprimir Imprimir
Após a terceira mão cheia de água que jogou no rosto para tirar as espumas do sabonete, as mãos tatearam e encontraram a pequena toalha dependurada. Havia exagerado ontem à noite, bebido além do planejado. Dinheiro sobrando no bolso faz perder o senso. Quanto mais na sua situação, que costuma enfrentar mais meses de seca do que abundância.

Os dias que antecedem as festas de fim de ano estariam na fase de abundância. O seu contentamento é similar aos dos comerciantes e consumidores que se mostram ansiosos para receber o 13º salário que as empresas injetam nas contas.

A alegria de saber que há mais dinheiro circulando nas lojas, bares, supermercados serve de combustível para que ela se anime a lançar-se em seu ofício com mais devoção. Pela simples visão de que a colheita pode ser farta, ao aplicar-se com sofreguidão à tarefa de ladra.

A ladra é como um predador que levanta com uma ideia fixa seja na savana africana seja na selva de pedras de uma metrópole. O esperado pelo predador é que abata a presa e sacie sua fome. Mas como todo ser vivo, ele sabe que pode ter algum prejuízo, inclusive mortal.

O prejuízo mais brando para o ladrão é a cadeia. O grave seria ser apanhado em público ou tomar um tiro em fuga.

O despertador em cima da cômoda marca 13h. Deu tempo de tomar o café forte antes de sair de casa. Seguia para o ponto de ônibus. Na bolsa, além do básico que a vaidade feminina exige, o canivete ocupava lugar. Era item elementar para a ação.

Por que sair à tarde?

_ Mulher, nessa hora, após o almoço, com o sol escaldante na cabeça, o consumidor fica tonto. Aí é mais fácil para perder a bolsa ou carteira sem se dar conta.

Essa fala vinha da comparsa que seria como guru das aves de rapinas. Do alto de sua experiência de mais de 10 anos de viver exclusivamente de furtos, via-se na obrigação de transmitir os conselhos a amiga que se imiscuía no ofício dos mais arriscados.

_ Sim, o trabalho é dos mais complicados. Meter uma arma na testa do sujeito ou pegar uma sacola e sai correndo, qualquer um faz. Já o 155 discreto precisa de inteligência.

A ladra teve apuros. Mas que trabalho não tem sacrifícios, justificava ela diante de agressões e ameaças sofridas. Desenvolveu-se na Rua 25 de março, na capital Paulista. Dos furtos, montou casa, comprou terreno e carro, além de criar os 3 filhos, de pais desconhecidos. Após amargar duas prisões, decidiu trocar a capital pelo interior.

O único critério para a escolha da nova cidade é que tivesse bom comércio de rua. Ficar na capital não daria mais, a polícia, e os comerciantes das áreas que valia a pena frequentar, havia marcado ‘sua pessoa’.

Por um acaso, encontrou essa amiga, que dava duro de domingo a domingo numa farmácia como balconista e vivia queixando-se do salário. A prova que servia para o novo ramo se de seu num shopping popular, onde numa tarde a novata embolsou R$ 400,00, metade do salário como balconista.

_ Você leva jeito, disse a ladra mestra, realmente impressionada com o feito.

Agora, um ano depois do primeiro furto, o objetivo era fazer seu salário de fim de ano.

A ladra entra na loja popular. A multidão está apinhada sobre as mesas de roupas. Ela gruda a tiracolo numa senhora que escolhe roupa para os filhos. O canivete entra em ação. A bolsa é perfurada e tudo que está dentro, retirado. Menos de cinco minutos, a senhora aponta para os passes de ônibus que por acaso achou em cima das roupas. Pareciam os dela. Quando instintivamente levou a mão na bolsa, viu o buraco.

Surge uma moça com radio na mão. “Senhora, a câmera registrou a pessoa que rasgou sua bolsa...” Diante das imagens, podia ver como foi feito o furto.

Essa aí está prestes a ser presa, é questão de tempo”, disse o policial quando a vítima registrava o Boletim de Ocorrência.

A uns poucos quarteirões da delegacia, a ladra havia conseguido mais um furto. “Tomara que eu complete pelo menos R$ 300,00. Cada vez fica mais difícil achar dinheiro vivo”, ia se queixando da mania de o povo carregar cartões de débito para as compras.

Ronaldo Duran autor do romance A BUDISTA BRASILEIRA.

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