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O mito Pelé
16/11/2013 as 11:08 h  Autor Pedro Cardoso da Costa  Imprimir Imprimir
Pelo que diz a imprensa brasileira, não existe uma pessoa na face da Terra que não conheça o Rei do futebol.

Não existe um roteiro para se formar um mito. Ele se constitui por várias vertentes. No caso de Pelé, ele mesmo contribuiu decisivamente para sua posição inquestionável de maior de todos os tempos no futebol. Não sei a partir de quando, mas ele trata o jogador na terceira pessoa, exatamente para se descolar da pessoa humana e colocá-lo na dimensão inalcançável dos deuses.

Seus números são incontestáveis na totalidade. Isolados, muitos já foram superados. A começar pela questão dos gols em estaduais paulistas. Esse tipo de campeonato nunca existiu na Europa, o continente páreo ao sul-americano no futebol.

Sobre seus títulos, começa com as três Copas do Mundo, mas só jogou para valer em duas. No Mundial de 1962 se contundiu logo no segundo jogo. Mas o título já o torna único a vencer três Copas como jogador.

Nos títulos de clubes, ficou sua marca registrada por ter vencido duas Libertadores e dois Mundiais. Mas os brasileiros sempre usaram a desculpa de que nossos clubes não se interessavam pelo principal torneio da América do Sul, numa tremenda contradição, já que o Santos sempre foi enaltecido exatamente por tê-lo vencido em duas oportunidades.

No período de Pelé como jogador do Santos, 1960 a 1974, esse mesmo torneio foi vencido três vezes pelo Estudiantes e pelo Peñarol, e cinco pelo Independiente. Na sua trajetória de Libertadores marcou 17 gols, tendo sido artilheiro apenas em 1965, cm 7 tentos, uma das menores artilharias desse período. Em quantidade de artilharia foi suplantado pelas duas vezes de Fernando Morena (Uruguai), Néstor Scotta (Colômbia) e Salvador Cabañas (Paraguai).

O décimo artilheiro de todos os tempos da Libertadores tem 9 gols a mais do que o Mito. Já o equatoriano Alberto Spencer, o maior artilheiro de todos os tempos, tem 37 gols a mais do que Pelé. Também suplantou com as três Libertadores vencidas e empatam em Mundiais de Clubes.

Da Copa do Mundo, nunca foi artilheiro e ocupa a 4ª posição em todos os tempos, ultrapassado pelos 13 gols de Just Fantaine (França), 14 dos alemães Gerd Muller e Klose e pelos 15 de Ronaldo Fenômeno, o recordista.

Nos campeonatos nacionais suas marcas estão longe de algo extraordinário. Marcou 34 gols em 84 partidas no Campeonato Nacional, na Taça de Prata 36 em 56 jogos, na Taça Brasil jogou 33 e marcou 30 e mais 49 nas 53 partidas que disputou pelo Roberto Gomes Pedrosa. Tem um total de 159 gols. Lionel Messi o ultrapassa na Liga dos Campeões da Europa. E acredito que ninguém pode ousar dizer que os vários campeonatos brasileiros sejam ou foram mais difíceis do que a UEFA Champions League.

Esses são dados concretos, de fato. Só que o futebol envolve muita subjetividade e se trata de um esporte coletivo, que não depende exclusivamente do indivíduo, mas se aplica a todos. O Rei se torna um deus no campo subjetivo. Ele deu o maior drible da história e perdeu o gol. Ele deu um chute do meio-campo tentando encobrir o goleiro, lance já inúmeras vezes repetidos e com a efetividade dos gols. Sobram as histórias contadas pelos súditos e historiadores. A maioria não foi gravada e por ter se tornado mito, o que seria um lance normal para qualquer outro jogador, para ele é algo de outra galáxia. Aqueles registrados pelas imagens já foram realizados por outros.

Outra distorção é aceitar a separação atleta do cidadão. Ele, Pelé, que tanto se notabilizou por defender as crianças pobres do Brasil, não reconheceu uma filha fora do casamento e não teve a sensatez de comparecer ao enterro.

Suas manifestações são notórias pela infelicidade. Em consequência, as desavenças com outros atletas destacados são recorrentes. Na transferência para a Udinese, em 1983, Zico foi até deselegante ao afirmar que da boca de Pelé e do bumbum de criança saem a mesma coisa. Romário foi mais criativo e reforçou ao afirmar que o Rei calado é um poeta.

No conjunto da obra, se quem presenciou tem o direito a afirmar que nunca viu nada igual, não pode querer tapar a boca de quem relativiza e compara a outros atletas. Costumam dizer que não se pode comparar por serem de "épocas diferentes". A recíproca tem de ser verdadeira. Também não pode servir para torná-lo um ser Supremo.

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP
Bacharel em direito

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