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ESTUDANTES
02/09/2013 as 17:39 h  Autor Dr. Amadeu Garrido  Imprimir Imprimir
Os estudantes não compõem sindicatos, organizações privadas, associações ou outros grupos de pressão formais nas sociedades democráticas. No entanto, nos momentos em que nuvens pesadas encobrem o horizonte, borrascas avassaladoras se precipitam sobre o terreno político e a história se perde nos labirintos de suas inevitáveis encruzilhadas, são os estudantes, especialmente os das melhores instituições universitárias, que formam grupos de resistências e não deixam tiranos oprimir à vontade seus povos submissos.

Nesses momentos terríveis, os partidos políticos oficais se tornam pálidos e limitados ao consentido, sempre na esperança da futura distenção e recuperação de seus postos. Raras exceções insistem em suas militâncias partidárias oficiais, quase sempre punidas com severidades. O mesmo ocorre com os sindicatos, seja de trabalhadores ou de empregadores, que se recolhem a seus casulos, manietados por interventores e prepostos do governo ilegítimo. A Igreja faz suas manifestações, mas não enfrentam canhões com prédicas, ou o fazem de modo inócuo.

Aí entram em cena estudantes "de vanguarda", que, como num verso estampado no páteo da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, "Quando se sente bater/no peito heróica pancada/deixa-se a folha dobrada/enquanto se vai morrer."
 
A Livraria da Folha de S. Paulo, com apoio do Instituto Goethe, acaba de publicar "Rosa Branca", um relato sobre um grupo de estudantes que se opôs a Hithler no 3º Reich; depositavam panfletos nas caixas dos correios contra o regime  que sangrou as profundezas da humanidade. Seus principais protagonistas foram os irmãos Hans e Sophie Scholl, Alexander Schmorell, Willi Graf, Kurt Huber e Cristoph Probst, todos condenados à morte em 1943 e hoje símbolos estampados em monumentos na Alemanha democrática.

A resistência dos jovens ao nefando regime não se limitou ao relato do livro cujo nome lembra as flores que representam a paz. Um outro episódio significativo envolveu jovens advogados, impregnados dos valores que haviam auferido nos recentes cursos de direito. Face à ordem da Fuhrer para exterminar todos os judeus, que vinha em memorandos para a Gestapo, esses advogados que ainda não haviam perdido o perfume acadêmico recorreram a algo que se aprende em hermenêutica jurídica: a interpretração estrita ou restrita das normas. Como o caudilho havia falado em "judeus", seriam apenas os homens, excluídas as mulheres e crianças. Em tom ameaçador, Hitler, que considerava seus podres memorandos a única fonte do direito, respondeu que essa interpretação era imprestável: a ordem era para eliminar todas as pessoas da raça judia, o holocausto deveria ser amplo, geral e irrestrito. Os jovens, como é óbvio, nada mais puderam fazer.

No Brasil, não foi diferente durante a ditadura militar. Ainda posteriormente ao AI 5, a resistência estudantil tinha de operar das catacumbas dos Centros Acadêmicos ou dos "Dces livres" das Universidades, porém nunca arrefeceu por completo. Posta na ilegalidade, a insistência na militância custou a vida de Honestino Guimarães e Gildo Mata Machado. Percival Menon Maricato, hoje um expressivo e dinâmico dirigente empresarial, amargou torturas e dois anos nos porões da ditadura. Outros tantos, moços e moças, foram massacrados no interior do DOPS e do DOI-CODI. Alexandre Vanucchi Leme não resistiu à fúria dos trogloditas do DOI-CODI. Por meses após sua morte covarde, os estudantes do curso de geologia da USP, a que pertencia o jovem sac rificado, andavam com seus blusões pelo avesso, com receio de serem identificados.

Outros exemplos poderiam ser nomeados, mas o fato é que os panfletos surgiam como por encanto nos cantos dos prédios universitários, nas salas de aula, nos páteos, nos territórios livres. Impressos na base do mimeógrafo "reco-reco", um geringonça artesanal das cavernas em comparação com nossos computadores e demais membros da família tecnológica moderna. Os estudantes pouco falavam, o que não impediu heróicas campanhas políticas em torno da renovação dos centros acadêmicos, invariavelmente vencidas pelos opositores do regime.

Em 1974, Geisel confessou que levara um golpe no fígado com a eleição da oposição na maioria dos estados brasileiros, não obstante submetida a campanha política à Lei Falcão, como nos diz Helio Gaspari no volume da "Ditadura encurralada". Poucos sabem que tudo começou no Centro Acadêmico XI de Agosto, seguido do DCE livre da USP e dos centros acadêmicos das Faculdades, que modificaram sua tática do voto nulo e sufragam a oposição, em eleições para o Senado Federal, ainda que os adversários do regime fossem postes frequentados por cães, como no caso de São Paulo.

Em suma, nos momentos em que as perspectivam se turvam, sempre houve e haverá estudantes para manter algumas velas acesas.
 
Dr. Amadeu Garrido de Paula.

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