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NASCER CACHORRO*
17/07/2013 as 16:52 h  Autor Ronaldo Duran  Imprimir Imprimir
Na parte da manhã, o aroma que toma conta da copa é de café. Readaptada duma cozinha industrial, passou a servir de local para refeições dos funcionários. Contando com dois fogões, dava conta do batalhão de garrafas de café. De manhã, quem lá permanece são as senhoras responsáveis pelo cafezinho.

No almoço, a situação muda. A turma corre para lá e vira o maior aperto. Em meio ao esquenta marmita ou mastiga comida, cada um expressa preocupações, felicidades... Até segredos são revelados. No afã de se mostrar o menos antissocial, desabrocham manias. As turminhas se formam. A que fala mal da direção, entre dentes ou declaradamente –, claro, sem os chefes por perto. A que faz piadas machistas ou feministas. A que desdenha o desafeto à frente. Os tarados por futebol.

Para desdenhar o desafeto, utiliza-se qualquer recurso ao alcance. Uma é a que segue.

Rondando a repartição, há um vira-lata. Sua presença na empresa divide opiniões. Há os que o protegem, querem que ele ali permaneça por temer que se o bicho for embora tenha um triste fim. Há a turma que detesta a presença do cão. Da primeira turma, o amor se explica por si. No caso da segunda, o ódio precisa de complementos. Por exemplo, há pessoas que temem sofrer a agressão do cachorro.

Não é um medo infundado. O cachorro morde. A primeira vítima, uma moça, levou dentada na mão, quando procurava acalmá-lo. Outra, um rapaz que mostrou medo quando intimidado pelo cão e balançou a mão. Sem contar as carreiras que o vira-lata dá em motoqueiros. O medo de ser a próxima vítima fazia que muitos quisessem entregar o cão para um albergue da prefeitura. A direção estava dividida entre os que lutavam para ele sair e os que choravam para ele ficar.

Tudo em relação ao cachorro dividia opiniões. Até a refeição a ele destinada. Certa vez a direção proibiu que dessem comida para o bicho, em tom de ameaça. Ainda que em documento afixado em toda empresa, a imposição não vingou. Embora soubesse que o cão era alimentado às escondidas, a própria diretora quebrou a esperança dos opositores ao dar almoço para o bicho. A refeição que lhe chegava fazia a diferença. O cachorro rosnava para quem se aproximasse da porta da copa. A fome o perturbava tanto que até para os benfeitores o bicho latia ameaçador caso eles brincassem, fingindo saborear a comida do marmitex.

Qualquer bicho em convívio com o ser humano é passível de desenvolver manias. O cachorro rejeitava certo tipo de mistura. Se a carne de panela com batata fosse desagradável ao paladar, o cão só comia o arroz e feijão.

Esse comportamento servia de lenha para recriminações daqueles que já tinham o cachorro atravessado na garganta. Ocorre que muitos traziam na marmita nem sempre o que gostariam de comer, devido à rotina de trabalho e falta de tempo.

_ “Na próxima vida eu quero nascer cachorro se for ter os mesmos privilégios deste”, comentava alguém que antipatizava com o cão.

_ “Imagina. Eles têm inveja do pobre animal por causa de um marmitex? Onde o mundo vai parar?”, a senhora que levava água para o bichano murmurou.

Uma vez por semestre a turma dos partidários contratava clínica veterinária para dar banho e tosa, além das vacinas. Quem reclamava do convênio médico da empresa não poupava um sarcasmo.

_ “Queria que alguém cuidasse de mim assim...”, disse um descontente.

Para levar a fera à clínica, só dopado. Colocavam o sonífero na comida ou bebida. O cão nada tinha de tonto, parece que adivinhava. O alvoroço para fazê-lo ingerir o sonífero era espetáculo à parte. Uns chamando-o de tadinho. Outros, de imprestável.
 
Ronaldo Duran, professor.

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