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ARREMESSADA
26/06/2013 as 18:48 h  Autor Ronaldo Duran  Imprimir Imprimir
Conferia a lista de comprinhas. Nada de compra de mês. Na lista só produtos de farmácia. Dobrou a folha ao meio e depositou na bolsa. A filha mais velha estava em casa, depois de uma longa ausência. Era casada, com os pequenos a tomar tempo. Ainda que fosse apegada à mãe, difícil visitá-la mais vezes, visto que morava com o marido e os pimpolhos do outro lado da cidade.

_ Sua irmã chega por volta do meio dia. Almoça, e corre novamente para o supermercado, disse a mãe.

_ Tudo bem, mãe, eu disse que deixo a comida pronta, respondeu a filha.

O pedido da mãe era que a filha mais velha aprontasse o almoço da caçula, assim a mãe teria mais tempo para circular no centro, sem obrigação do retorno rápido. Afinal, ir ao centro era tarefa difícil. Trânsito confuso, em função de muitos carros. No calçadão, gente apressada, barracas de camelô, fiscais de estacionamento nas ruas, caixas eletrônicos de banco com fila tão longa e morosa como o caixa de atendimento.

Na bolsa, conferiu a carteira de passageiro preferencial. Com mais de 60 anos, começou a ver benefício no uso da carteirinha do idoso. Embora tenha tirado a CNH depois dos quarenta anos, hoje com 70 anos, notou que era maçante pegar o carro, e enfrentar toda a loucura do trânsito: com motorista forçando a passagem, com jovens e som estridente, além das manobras arriscadas.

Embora não desistira por completo de dirigir, inclusive quando nervosa com o coletivo, a senhora prefere ir de ônibus. As vistas falhando e a perda sucessiva de reflexos serve de incentivo. Nos seus exames médicos de rotina, nada de anormal para pessoa de sua idade. Quem chega aos 70 anos, pensa ela, deve saber que limitações é a regra, ainda que a intensidade varie.

Hoje, não desligaria a televisão após o programa matinal preferido. Os netos, de férias e em visita de três dias, tinham prioridade para assistir a tevê. Beijou-os.

Caminhou para o ponto de ônibus. Ficou surpresa com a chegada do ônibus logo que ela pisou no ponto. E havia vaga nos assentos preferenciais. A vaga bem se explica: estava fora da hora de pico, faltando uma hora para meio dia.

Quando o ônibus passou pela Igreja, o sinal da cruz fez o rotineiro reflexo. Quinze minutos mais tarde, desceu do ônibus e caminhava pelas ruas do centro. Foi no caixa eletrônico, e sacou uns trocados da aposentadoria. Depois, adentrou na loja e enfrentou uma fila para pagar o carnê atrasado da geladeira. Na saída, ainda namorou o aparelho de rádio. Tinha em casa o velho radinho, mas este, com mais de 15 anos, dava sinais de pifar por completo, visto que volta e meia ia para o conserto.

Complicado atribuir a causa do descuido. Talvez devido ao pensamento que forçava mais uma prestação, a do rádio, na exprimida aposentadoria, ou à ansiedade de retornar para casa.

Iria atravessar a avenida. A visão exclusivamente grudada à sua direita, devido ao excesso de movimentação de carros, caminhões e ônibus. Descuidou-se do fluxo, quase inexistente, à sua esquerda. Esqueceu do corredor de ônibus. Quando deu por si, fora arremessada, caindo sem vida no córrego. A perna esquerda com fratura exposta.

Num instante, a multidão aglomerou. Que confusão. Curiosos aos montes. Complicado o rabecão atravessar a massa de gente. Os bombeiros buscando retirar o corpo do córrego.

A bolsa da senhora, salva por transeuntes bem intencionados, facilitaria o trabalho de reconhecimento do corpo para acionar a família da vitima.

_ “Não sei o que houve... Quando vi estava em cima dela. Parece que só olhou para o lado dos carros, ignorando que aqui fosse um corredor expresso de ônibus”, disse o motorista assustado.

_ “Não é a primeira vez que acontece. Esquecem este detalhe...”, disse o policial ao motorista, talvez para acalmar no motorista a culpa pela fatalidade.

Por Ronaldo Duran. Escritor e professor.

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